Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pedro Rolo Duarte

17
Fev17

O “abismo” numa fotografia

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Há polémica sobre a fotografia do ano do World Press Photo. A foto, como já é sabido, é um instante do momento dramático em que um atirador isolado, Mevlut Mert Altintas, dispara sobre o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, na inauguração de uma exposição na Galeria de Arte Contemporânea de Ancara. O autor da imagem é o turco Burhan Ozbilici, da Associated Press, que terá decidido passar pela Galeria sem serviço marcado. Todos vimos o vídeo que captou o momento, mas a imagem fixa, parada, do atirador a erguer a pistola, com o corpo do embaixador inerte no chão, tem qualquer coisa de ainda mais negro – nem que seja pelo instantâneo que se revela pela falta de enquadramento, a surpresa que toda a composição mostra, e a loucura que o quadro exibe cruamente. Uma imagem definidora de um tempo e da forma como o podemos ver.

Há quem ache que a imagem mistura sensacionalismo com publicidade aos efeitos do terrorismo, e que ter ganho, num ano em que estão também a concurso fabulosas imagens do drama dos refugiados, e da emigração na Europa, é injusto.

Os argumentos podem ser razoáveis, mas são pobres. Aquela fotografia revela o estado em que estamos nos dias de hoje, a imprevisibilidade dos dias, o parco valor da vida, o confronto entre culturas e forma de vida – ou de morte.

As palavras de João Silva, o fotógrafo luso-descendente que foi premiado, e agora é jurado, do World Press Photo, dizem tudo sobre a escolha do júri: “Vejo o mundo a caminhar em direcção a um abismo. Este é um homem que claramente chegou a um ponto de ruptura”. É essa ruptura com que nos confronta Burhan Ozbilic (cujo sangue frio e a coragem não é demais sublinhar), como se fosse uma prova, uma testemunha, uma evidência.

De resto, a imagem é também simbólica para os momentos que o jornalismo vive, e para responder de forma meridiana, mas exemplar, às “não-verdades” que por aí andam: os que a acusam de promover o terrorismo pretendem que não se veja o que efectivamente acontece? Num instante me lembro de, até ao 25 de Abril de 1974, serem cortadas pela censura todas as notícias que revelassem suicídios, para não contagiar a população nem mostrar realidades incomodativas.

Não me parece, de todo, um bom caminho para voltar a ter a verdade ao serviço do jornalismo e os factos verificados e confirmados por quem os testemunha. O que o fotógrafo da AP fez foi justamente servir o jornalismo, mostrando um facto tão incómodo e chocante quanto verdadeiro, e raras vezes visto no momento em que ocorre; foi denunciar o tal “abismo”, a que chamo loucura, que varre o planeta e nos deixa diariamente aturdidos e confusos sobre os caminhos que levamos; foi registar, correndo risco de vida, o instante preciso em que o atirador se revela barbaramente satisfeito com o crime que acaba de cometer.

É bom que tenhamos a noção de que vivemos lado a lado com pessoas como esta, e que amanhã esta imagem nos pode bater à porta sob a forma de um facto inesperado, daqueles que achamos que “só acontecem aos outros”. Nessa medida, esta fotografia é a um tempo um grito e um sinal. Sem encenações. Sem filtros. Sem recurso a dramatismos exteriores ao que os factos já encerram.

Como se estivéssemos a voltar a um qualquer começo, é o jornalismo na sua essência. Puro e duro. Surpreendente e chocante. Mas sempre verdadeiro. No momento que vivemos, em que a verdade se inventa e os factos se esfumam, isso vale mais. Para não dizer que vale tudo.

08
Fev17

Mais novos do que nunca – e do que sempre

11224517_1609140179337876_1305172513619128782_n.jp

Está a fazer agora dois anos que eu e a produtora Joana Jorge começámos uma aventura que semanalmente nos surpreende, nos envolve, e muitas vezes nos maravilha. O projecto “Mais Novos do Que Nunca”, na Antena 1, nasceu para revelar na rádio pública o que faziam os recém-licenciados com os seus anos sabáticos, “gap years”, pausas entre o final de um curso e a entrada no mercado de trabalho.

Porém, rapidamente nos apercebemos que esse universo era, afinal, bem mais rico e vasto, não tinha limite de idade (a não ser na cabeça...), e constituía um sinal dos tempos: gente que muda de vida a meio da vida, gente que muda de carreira porque um dia acorda e percebe que não é feliz, gente que investe tudo em voluntariado porque descobre que é isso que faz sentido nesta passagem pela Terra, gente que aposta na inovação.

Dois anos passados, o “Mais Novos do que Nunca” é a janela aberta e o ar puro de que precisava para resistir aos tempos duros que todos vivemos, e um espaço de libertação e inovação para quem o ouve com a mente aberta. É uma lição semanal: de humildade, de coragem, às vezes apenas de capacidade de dar o pequeno passo, que tantas vezes pensamos dar e nunca damos, e que faz a diferença entre acordar para a rotina ou acordar para a vida.

Estou grato – e a Joana também, seguramente – pela oportunidade que a rádio nos deu. Dá trabalho, é trabalho – mas ao mesmo tempo é inspiração e respiração, é prazer e paixão, e é aprendizagem permanente. O meu pai já dizia que gostar do que fazemos, e ainda nos pagarem por isso, era um privilégio que não devíamos menosprezar. Se, para lá disso, ainda nos ensinam e inspiram para uma vida melhor, que mais podemos querer?

Nada. Apenas continuar. E continua.

03
Fev17

A vida de cada um

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Estou a ver na TV, num canal de notícias, uma curta troca de argumentos sobre a eutanásia. Estremeço. Antecipo o “amplo e profundo” debate que o Presidente Marcelo desejou há dois dias: vai dar asneira. Um dos intervenientes era mesmo o bastonário da ordem dos médicos, José Manuel Silva - e a forma como ridicularizou as opções que um doente terminal pode ter, para concluir que o mais “barato” era o suicídio, deu para perceber como podem extremar-se questões tão delicadas e sensíveis como esta, e como se pode cair lamentavelmente na demagogia e no disparate. Ora, se com a vida não se brinca, então com a morte…
Confesso: sou impotente para vir a terreiro argumentar sobre a eutanásia. Parece-me uma questão de foro tão intimo e pessoal, tão individual e tão pouco política ou sequer ética, que não consigo ver quem possa “querer” ter razão e taxativamente estar “contra” ou “a favor”. Por mais que haja quem pense que a vida não nos pertence - a quem pertencerá? Ao Estado? A Donald Trump? Aos constitucionalistas que decidiram a nossa vida? -, não consigo escapar à evidência: se cada um de nós faz da sua vida o que entende e quer, parece meridiano que a vida de cada um de nós é mesmo de cada um de nós, desculpadas as repetições e redundâncias. E assim sendo, cabe a cada indivíduo decidir o que fazer com a vida quando ela está em causa, quando não tem saída, quando já só resta sofrimento e dor. Quem sou eu para confrontar um ser igual a mim que decide, pela sua cabeça, conscientemente, antecipar o inevitável em nome de uma qualquer paz interior? Quem sou eu para dizer a 90% dos necessitados de cuidados paliativos, que os não recebem por falta de capacidade de resposta da rede, que não devem ou podem recorrer à eutanásia?
Não me passaria pela cabeça debater a eutanásia justamente por entender que ela já existe, interiormente, na opção de fim de vida de todos os seres humanos, mesmo quando não lhe têm legalmente acesso. Menos ainda referendar ou levar ao Parlamento. No limite, legislar sobre as condições essenciais - de saúde, ou falta dela - que garantissem que a decisão não serviria para abusos, desvios, fatalidades, facilidades. O mínimo indispensável.
Dito isto, parece-me que o debate vai dar disparate. Vamos ver repetir-se a dicotomia esquerda/direita, católicos/ateus, novos/velhos, numa estúpida cisão sem sentido, ditada por preconceitos e falsas premissas, e que não corresponde, seguramente, ao sentir da maioria. Enquanto nas ruas cada um pensará por si, nas televisões e nos jornais vamos ver “frentes unidas” com cargas ideológicas e religiosas, numa repetição de outros debates passados, alguns deles de infeliz memória. É mais tempo perdido, mais energia gasta desnecessariamente - enquanto se adiam, se esquecem e apagam tantos debates por fazer, tanto país por construir.

15
Jan17

O medo

Vou acompanhando, online, o essencial do Congresso dos Jornalistas, e mantenho o que me levou a nem sequer tentar participar no evento - e teria de tentar muito, porque a Comissão Organizadora deixou de fora todos os que, nos últimos anos, deixaram de ter Carteira Profissional…
Na verdade, ainda que me sinta jornalista há mais de 30 anos, não me identifico nem me revejo nos debates que vou acompanhando, quase sempre enviesados pelas situações particulares de quem fala. Gostava que os jornalistas “de sucesso” do momento não fossem tão infantilmente optimistas, só porque têm um emprego ou porque dirigem jornais que ainda vendem qualquer coisa - como gostava de ver menos queixume naqueles que se sentem precários, mal pagos e sem horizonte.
Nem uns nem outros estão certos no diagnóstico - e vamos vê-los em posições inversas mais depressa do que eles próprios pensam. Por mim falo, que não atribuo ao mercado nem aos grupos de comunicação o afastamento dos últimos anos - mas sim, e infelizmente, àqueles que, por julgar bons, achei que não tinham medo. E afinal tinham, e ficaram de telefonar “na semana que vem”…
Aliás, foi por causa desse afastamento que me vi forçado a entregar a minha Carteira Profissional, para poder trabalhar em áreas teoricamente vedadas aos jornalistas - e, ironicamente, foi esse estado de coisas no jornalismo que me impediu de participar activamente neste Congresso, que não teve em conta realidades como estas e deixou de fora todos os que não possuíam “titulo profissional válido”. Ou seja, quem foi forçado a fazê-lo por manifesta necessidade de sobrevivência e falta de alternativas no mercado, ainda recebeu por cima o carimbo de “marginal” ou “dispensável”…
O jornalismo vive no medo não por causa do novo mundo - mas por causa de si próprio e das suas inseguranças. Enquanto assim for, todos os debates são viciados à nascença e os congressos servirão apenas para encontrar os eternos bodes expiatórios que servem uma classe mais preocupada com a desculpabilização do que com a afirmação.
Não consigo alinhar, lamento.

11
Jan17

O sabor de um queque

Há muito tempo que percebi que quase nada se repete - e quando digo “quase nada”, refiro-me ao mais simples, porém intenso, da vida: o cheiro da terra molhada do Penedo, o mar da Praia Grande sob o olhar do meu pai, a cor do céu quando anoitece em Lisboa. Conseguimos muito raramente uma aproximação, mas não voltamos onde estivemos. Tudo mudou entretanto, mesmo quando nos parece ter ficado igual.
Penso muito neste não-regresso - que é uma não-verdade, mas ao vivo… - quando tenho a tentação de reencontrar sabores de infância e juventude. Como sucedeu há dias.
Um dos sabores que apaguei da memória, por nunca mais o ter encontrado, foi o dos queques matinais da Gôndola, a pastelaria junto à casa dos meus pais, que abria de madrugada para servir trabalhadores de passagem. Todos os dias eu comprava um queque na Gôndola, morno, estaladiço, com um sabor único, algures entre a madalena e o bolo caseiro, e comia-o a caminho da Escola Eugénio dos Santos, imediatamente antes de ser assaltado por dois miúdos, sempre os mesmos, com uma ameaçadora corda, que me roubavam o troco do queque e o mais que pudesse ter e lhes interessasse. Nada, quase sempre.
Este cenário de infância reencontrou-se comigo nestes dias em que, saindo cedo de casa, procuro o melhor sitio para um segundo café. E nessa busca tropecei num queque que me devolveu essa memória quase apagada, numa esplanada tranquila e simpática, ainda por cima no bairro. Nem queria acreditar naquele milagre súbito. Estaladiço, morno, com sabor de queque da Gôndola.
Fiz bem em não querer acreditar: ao terceiro dia, a empregada da clássica “Biarritz” - cheia de fama mas com pouco proveito - informa-me que o queque já esgotou, restando apenas exemplares com nozes. Não é a mesma coisa, pensei, mas venha lá o aparentado. Veio. Era da véspera, de estaladiço tinha zero, e de sabor só mesmo as nozes.
Devolvi, reclamei, quase gritei. E vim embora na dúvida: terá existido, por duas manhãs, aquele queque que me fez sentir um sabor desaparecido? Ou foi apenas uma espécie de lembrete sobre a ideia de que a vida não se repete, num momento em que me davam jeito outras ideias, mais poéticas?
Hei-de lá voltar, para tirar teimas.

08
Jan17

O fio não foi cortado

138900-050-BAE45D4E.jpeg

 Tudo dito, uma forma de dizer mais qualquer coisa.

Ainda que Mário Soares não fosse crente, aceitemos estas palavras de Santo Agostinho. Acho que se identificaria com elas:

 

"Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
dos seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
da sua vista?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho...

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi."

07
Jan17

A peste voltou

(Quinta-feira que passou, na plataforma/newsletter Sapo24)

Tinha à minha frente a ultima crónica de Miguel Sousa Tavares no Expresso e estava preso ao destaque que o próprio jornal fez do texto: “As redes sociais são a peste de hoje. O seu veneno espalha-se como a peste, destrói como a peste, mata como a peste”. Não é novo, vindo do Miguel (e salvaguardo que sou amigo dele…), mas vai-se tornando menos razoável à medida que, abordando o fenómeno como se fosse um mundo todo igual, e sempre nocivo, acaba por parecer um militante do próprio espaço virtual, e embarcar no pior que as redes sociais têm: a generalização da ignorância.
A frase de Miguel faz pouco sentido no momento que vivemos - é equivalente a abater sumariamente os centros comerciais para defender o comércio tradicional; ou defender o fim do You Tube em nome dos cinemas de bairro ou da televisão clássica. É a negação de uma evidência que já não podemos contrariar - e que nasceu de geração espontânea, e cresceu sem controlo e sem filtro, no melhor e no pior que essa explosão caótica pode ter. Nunca é demais lembrar: as redes, todas as redes, apareceram antes que houvesse quem as controlasse e transformasse em negócio. Como tudo o que é novo, e tem qualidades e defeitos intrínsecos, é facilmente criticável. Neste caso, e como espaço de liberdade infinita, é ainda mais frágil: serve de depósito de lixo para quem não sabe como limpá-lo da sua existência, de terapia sem terapeuta para as frustrações de muitos, e até serve para alimentar causas - que podem ser louváveis, como as que nos aproximam quando há um atentado terrorista, ou lamentáveis, quando cultiva ódios e mentiras que conduzem a esses mesmos atentados.
Mas não era nisso que pensava quando fui “interrompido” pela crónica do Miguel. Estava, isso sim, estupefacto com o ranking dos 20 programas de televisão mais vistos em 2016, e de como essa lista, à luz de um argumentário preconceituoso, me poderia levar a vir para aqui gritar e espernear.
Tão simples como isto: os 20 programas mais vistos na TV portuguesa em 2016 foram todos jogos de futebol, com excepção do 15º, que é… uma “Flash Interview” do Europeu de futebol!
Que dizer do triste Top que nos é oferecido, e que leva um Portugal -País de Gales a ter mais de 3,7 milhões de espectadores, ou um Benfica - Bayern cerca de 2,5 milhões? Posso chamar-lhe também uma peste? Posso falar de alienação e dizer que o futebol é o culpado da ignorância nacional, do desinteresse generalizado pelo estado da Nação? Posso recordar os índices de abstenção eleitoral?
O caminho mais fácil, face a este quadro de miséria, era apelar à proibição, criar legislação que impedisse tanto futebol na TV, chamar ao futebol uma “doença” e, no limite, acusá-lo de matar como a peste.
Porém, nem é preciso evocar a palavra “democracia” para aceitar que jamais mudaremos uma paixão nacional como esta. O futebol mobiliza os portugueses para lá do alcance da compreensão racional - e querer contrariar a evidência é como pretender parar o vento com as mãos.
Eu, que gosto de futebol mas não mudo a minha agenda por causa de um desafio, fico triste quando vejo o top dos programas mais vistos. Mas longe de mim chamar-lhe peste, convocar o diabo ou o antigo “ópio do povo”. É tentador ver o mundo a preto e branco e dividir tudo em bom ou mau - mas é por isso que ele, o mundo, anda tão agitado. E doente. Não é por causa das redes sociais.

01
Jan17

Caso estejamos em 2017…

… Mantenho os desejos de 2016, e não se concretizaram, e gostava sinceramente de perceber a lógica de entalar passas na garganta enquanto se pede o impossível, o improvável, ou pelo menos o que se sabe previamente que não depende de nós. Alinho na coisa, até faço questão de usar passas que trago de casa, e não resisto a pensar que, se assim não for, tudo pode ser ainda pior.
Mas depois leio uma notícia de jornal onde se revela que o ultimo minuto de 2016 tem 61 e não 60 segundos, o que significa que o ano começou um nadinha mais tarde do que assinalámos. Sem querer, regresso à crónica de quinta-feira passada na plataforma Sapo-24.
Foi isto que eu escrevi, oh raios…

“Ao longo dos últimos meses, com as inesperadas mortes que nos apanharam pela frente, com as tragédias (esperadas ou não…) que se abateram um pouco por todo o Mundo, e com surpresas como a eleição de Donald Trump, a ideia mais forte que as redes sociais foram transmitindo - redes quase sempre fracas de ideias fortes… - foi “Xô, vai-te embora 2016, ano aziago, ano mau”. Não há quem não queira 2017 já aí, como se a passagem de um ano para o outro trouxesse mudanças substanciais no correr dos factos. É bom - e faz bem à saúde, de certeza… - acreditar que aquele pequeno salto que damos, à meia-noite de 31 de Dezembro, da cadeira da sala para o chão, pode ser um grande salto, senão para a humanidade, que tem a Lua distante, para as nossas expectativas, que andam tão baixinhas. Não me parece que falhe muito se vos der a má notícia: não muda grande coisa… (Gozo com o tema, mas também salto da cadeira, como as 12 passas e saúdo o novo ano. Secretamente, porém, rio com os factos…)
Na verdade, de entre as incontáveis imperfeições que nos rodeiam, uma das mais risíveis, e que nos põe logo de pé atrás em relação à ideia de tempo e idade, é o calendário que, em teoria, nos rege. Digo em teoria porque, embora o tenhamos adoptado há mais de 500 anos (houve países que só no Século XX se renderam…), ele varia para outros quadros em uso - dos hindus aos chineses, dos iranianos aos budistas - e está recheados de pormenores inventados pela comissão de sábios que o Papa Gregorio XIII nomeou para o produzir. O calendário é uma espécie de rascunho de Excel que só usamos porque, generalizado, acabou por aproximar os povos. E nessa sua premissa, o Papa tinha razão.
O número de acertos, emendas, excepções e delírios que o calendário Gregoriano tem levam-me a pensar que, se fosse tomado à letra sem essas pequenas “rasuras”, no sábado não acabaria 2016 - ou já teria acabado há muito. Por causa deste nosso “mapa” do ano, desapareceram dias na História (5 a 14 de outubro de 1582, dizem os entendidos),  os anos têm de ser divisíveis por 400, foi forçadamente corrigida a medição do ano solar, e até para a Igreja deu-se como adquirida a confusão: a Páscoa nunca mais teve dia certo, ainda que tenha uma regra aplicável…
Usando a ideia batida do copo meio-cheio e do copo meio-vazio, esta imperfeição em que vivemos pode dar algum jeito. Todos queremos que 2016 vá embora, porque foi um ano de muita dor, de muita tristeza, de muita desilusão - mas, por outro lado, talvez já tenha ido, ou talvez não seja inteiramente culpado. Talvez esta nossa contagem de tempo valha tão pouco que não haja balanços para fazer nem perdas e ganhos a considerar.
No sábado, fingiremos que entramos num tempo novo - e se a vontade for muita e de muita gente, vai certamente ajudar a dar um novo impulso ao que temos pela frente. As efémeras alegrias de um Europeu ou de um português na ONU não medem forças com os que partiram e nos farão falta, nem com as tragédias humanitárias que não cessam nem por nada - cada facto vale por si, e para cada um de nós tem o seu valor. Este calendário mal amanhado com que o Mundo se rege tem essa qualidade certamente não calculada: o valor do tempo em que se integra já inclui o caos, o desnorte, a imprevisibilidade - mas também a liberdade de pensarmos que não há coincidências ou tudo não passa da soma de muitas coincidências.
Num caso como noutro, alivia-me pensar que o calendário não manda em tudo. Porque é tão imperfeito quanto nós. E ainda mais aleatório.
Pronto. Vou entrar em 2017 hoje ao fim do dia. Está decidido”.

…E como se não bastasse, ainda nos deram um segundo indesejado e atrasaram um desejado segundo. 2017?

04
Dez16

Quanto tempo dura um like?

capa dna mac.jpg

Gosto de datas. Gosto de assinalar datas, as boas e as más, os casamentos, as divórcios, nalguns casos até as festas ou as estreias. Todas as datas me remetem para pessoas e factos de que, sem uma nota, provavelmente já teria esquecido. Dada a minha memória galinácea, é um passatempo e um velho hábito que às vezes dá um jeitaço…
… Não espanta, portanto, que me tenha lembrado do dia em que o DNA faria, se ainda existisse, 20 anos. E fiz a nota que está aí abaixo. Como tudo o que publico aqui no Blog é replicado na minha página pessoal do Facebook, o post foi visto por muita gente e tem agora mais de 250 likes e dezenas de comentários. Rasgados elogios, saudades comovidas, pedidos lancinantes de regressos impossíveis. Um festival.
Todos nós, que fizemos o suplemento, gostamos destes mimos. E estamos gratos. E não esquecemos.
O que é irónico e dá que pensar é o facto de, entre essas centenas de pessoas que deixaram por lá likes e comentários, estarem os editores e jornalistas que, nos últimos dez anos (ou seja, desde que o suplemento acabou), podiam ter pensado, feito ou encomendado os DNA’s todos do Século XXI, podiam ter atendido o telefone quando lhes liguei, ou respondido aos mails de quem tinha ideias e projectos para novos suplementos - ou podiam, pelo menos, ter mandado uma mensagem com esse “like” que fez falta à equipa de pais e mães do suplemento na "passagem pelo deserto".

Mas não. Agora, 20 anos depois, é que se lembraram de pensar.
Agradecemos na mesma, claro. Só esperamos que os “likes” não sejam vistoriados pela ASAE e não tenham prazo de validade. Senão…

Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D