Globonautas
Mais um blog que nos faz viajar pelo mundo em boa companhia...
“Um dia ouvi e nunca mais esqueci isto: "Há os que pensam e não escrevem e os que escrevem e não pensam". Não é fácil conseguir o equilíbrio entre pensar e escrever. ", Pedro Lains,
Pedro Lains
Mais comentários e ideias: pedro.roloduarte@sapo.pt
 
Antena 1
Janela Indiscreta em texto
Janela Indiscreta em rádio
O Hotel Babilónia na Antena 1 (com o João Gobern)
No Biography Channel
Lux Woman, a revista onde escrevo todos os meses

2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


83 comentários
70 comentários
59 comentários
Subscrever
Terça-feira, 28 de Outubro de 2014

Uso óculos desde os 16 anos. Ligeira miopia e astigmatismo que, ao longo dos anos, evoluíram lenta e tranquilamente, sem nunca me darem grande trabalho ou despesa. A ultima vez que fiz o exame completo aos olhos, num oftalmologista como deve ser, foi-me elogiada a “tensão ocular” e tudo estava em ordem.
Há uns meses, comecei a sentir que a graduação dos óculos que usava estavam a falhar o objectivo, tanto “ao longe” como “ao perto”. Lá fui rever a coisa e confirmou-se que havia alterações na graduação. O optometrista insistia que eu devia tentar lentes progressivas, pois os novos óculos que estava a comprar não teriam grande efeito na vista “ao perto”, corrigindo apenas a “geral”. Do alto da minha presunção, pensei: ora, se usei uns óculos únicos para perto e longe toda a vida, não é agora que isso vai mudar.
Pois não.
Há semanas, já um pouco irritado por ver cada vez pior “ao perto”, comprei um par daqueles óculos “de leitura” que se vendem nas farmácias. Nos primeiros dias foram-me muito úteis para ler jornais ou bulas de medicamentos. Agora, já preciso deles para o computador, para o telefone, para tudo o que é “ao perto”.
O optometrista tinha razão. E eu começo a perceber o que é ter 50 anos.


publicado por PRD às 11:49
link | comentar | ver comentários (1) | favorito

Domingo, 26 de Outubro de 2014

"- Sempre pensei que a verdade me libertaria - disse ele (Patrick) -, mas a verdade só nos enlouquece.
- Dizer a verdade pode libertar-nos.
- Pode ser. Mas o autoconhecimento por si só é inútil.
- Bem, permite-te sofrer mais lucidamente - contestou Johnny.
- Oh, sim, não queria perder isso por nada deste mundo.
- No fim de contas, talvez o único modo de aliviar a nossa infelicidade seja ficarmos cada vez mais afastados de nós mesmos e mais ligados a qualquer outra coisa - disse Johnny.
- Aconselhas-me um passatempo - riu-se Pactrick - Fazer cestos ou coser sacos de correio?
- Bem, na verdade estava a pensar numa forma de evitar essas duas ocupações em particular…
- Mas seu eu for libertado do meu estado de espirito amargo e desagradável - protestou Patrick -, o que me restaria?
- Não muita coisa - admitiu Johnny - mas pensa no que poderias colocar em seu lugar."

(De “Alguma Esperança”, Edward St Aubyn, tradução de Daniel Jonas)

edward.jpg

 

É raro apaixonar-me por um autor ao ponto de devorar em modo contínuo os seus romances. Mas foi isso que sucedeu agora com a saga de Edward St Aubyn sobre a figura tão extraordinária quanto complexa e caótica de Patrick Melrose. Vou no terceiro livro, faltam-me dois. Mas as noites têm ficado mais curtas por causa desta escrita, deste escritor, e deste universo que subitamente invade a minha vida. Se isso não é um bom escritor (e bons romances), não sei o que é um bom escritor (e bons romances).


publicado por PRD às 18:40
link | comentar | favorito

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2014

estamos_todos_300x230.jpgNa quarta-feira estreou no Casino Lisboa o novo espectáculo “para-um-homem-só” do José Pedro Gomes: “Estamos Todos?”. A equipa é de luxo. Texto de Luísa Costa Gomes, cenários de António Jorge Gonçalves, encenação do Adriano Luz, música de Filipe Melo, luz de Paulo Sabino. É claro que o resultado é excelente: uma hora e meia entre sorriso e gargalhada, com o José Pedro Gomes a vestir 8 personagens nos momentos que antecedem um casamento… Aviso já: o velho e o padre são antológicos.
Mas o que mais mexeu comigo, confesso, não foi o espectáculo, apesar da excelência em cena. O que mexeu comigo foi, no fim, dizer-se naquele palco que a UAU  assinalava 25 anos nesta semana.
Já passaram 25 anos?
Fiz contas às minhas contas para perceber que sim, que passaram mesmo. E não quis deixar de vir aqui dizer o que penso há muito tempo e não sei se alguma vez tive oportunidade de escrever. É isto:
A equipa da UAU, liderada pelo Paulo Dias, introduziu no teatro português uma equação até aí difícil de entender: qualidade pode traduzir-se em sucesso de bilheteira. Qualidade não é sinónimo de subsidio e cadeiras de pau. Esta coisa óbvia era, há 25 anos, tudo menos óbvia. E o Paulo, com a sua equipa, com boas ideias de marketing, com faro e intuição, e seguramente com muito trabalho, transformou a equação numa realidade. No teatro e fora dele. Penso nisso sempre que, no final das estreias a que fui, o vejo subir ao palco, com uma modéstia e timidez que não deixam margem para dúvidas: só por amor se faz o que ele faz e como ele faz.
Hoje, a UAU é o mais claro exemplo de que a palavra “subsidio” não é essencial ao bom teatro - e que, nessa matéria, não somos melhores nem piores do que os “outros”. E é também um forno de novas ideias, de espectáculos inesperados, e mesmo de riscos que as companhias mais clássicas, sem o clássico “apoio do estado”, não correriam.
O Paulo vai atrás do que lhe cheira a essa soma feliz: qualidade + ligação à realidade + trabalho = sucesso. Há 25 anos. Este espectáculo do José Pedro Gomes é um excelente presente de aniversário.
A UAU merece um UAU!. Aqui fica o meu.


publicado por PRD às 15:00
link | comentar | favorito

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2014

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês saiu hoje mesmo!)

Matéria recente numa revista de Televisão: “O meu filho quer ser estrela de TV. E agora?”. Só este titulo inspiraria uma tese de mestrado. O que é uma “estrela de TV”? Pode um pai deixar que a questão se coloque sem antes se interrogar sobre o absurdo da própria questão? Que raio de profissão é esta, “estrela de TV”?
O artigo era surreal nalguns pontos de um pretenso guia prático para pais cujos filhos concorrem a concursos de TV (com e sem talento): além dos miúdos faltarem às aulas para os ensaios e algumas gravações, o (cito) “encarregado de educação também deverá faltar ao trabalho”. Referências aos peculiares contratos que deixam menores de idade nas mãos de empresas de televisão, e ao facto de não haver qualquer espécie de assistência psicológica em caso de derrota, já nem me conseguiram surpreender.
Mas o artigo remeteu-me para um cantor de generosa idade que dizia numa entrevista algo como isto: “quando comecei, era preciso trabalhar para se ser conhecido; agora, é preciso ser-se conhecido para se ter trabalho”.
As duas realidades - a do artigo sobre “estrelas de TV” e a do lamento do cantor - cruzam-se no momento em que atingimos o grau zero da sensatez no mundo laboral. Já nada é garantido, válido, ou sequer lógico. Ter um curso ou não ter, ter talento ou não ter, ter experiência ou não ter - tudo é aleatório, caótico e imprevisível. Há quem cresça a querer “ser famoso” - e há pais que acham “isto” razoável e normal.
Se aceitamos que “ser famoso” pode ser ambição profissional, somos forçados a aceitar que ter idade pode ser algo desprezível. Um empresário meu amigo, já perto da reforma, e que deixou as suas empresas aos filhos, dizia-me que nem se atrevia a sugerir um profissional sénior aos herdeiros, mesmo sabendo que tinha talento e sabedoria para os lugares em falta - “o meu filho e os seus colegas não querem ouvir falar de pessoas com mais de 40 anos - acham que lhes falta ritmo, vontade, rapidez, e acima de tudo não querem pagar o valor da experiência. Para eles, experiência vale zero, pode até ser empecilho”. Falava sem ponta de indignação - conformado, como se fosse assim mesmo, sem retorno, óbvio.
Quando penso em todas as variáveis que um percurso profissional encerra nos dias que correm, acabo invariavelmente deprimido: não consigo compreender um mundo onde o saber adquirido é desprezado, a energia jovem é explorada sem dó nem piedade, “ser famoso” pode ser uma ambição de vida, e o trabalho é encarado como um numero de processo. Não consigo perceber que um mundo feito de pessoas - sim, ainda são pessoas a mandar em pessoas, a decidir, a pensar, a governar - possa ser tão cruel para com… pessoas. Uns contra os outros? Uns contra os outros.
No mesmo mundo que um dia percebeu que a escravatura não fazia sentido, que mais tarde reconheceu o absurdo do racismo, que por fim caiu em si e conseguiu ver homens e mulheres em pé de igualdade, e direitos das crianças reconhecidos, não concebo que se tenha descido tão baixo nas relações laborais, no respeito pelo trabalho e pelo trabalhador, e nas lógicas empresariais que levam à contratação e ao despedimento. Ou mesmo à ideia de que o esforço e o estudo podem ser substituídos pela fama instantânea num concurso onde se comem minhocas ou se imitam cantores. Estarei a envelhecer ou apenas excessivamente lucido? Não sei. Mas sei que pensar nesta loucura em que se tornou o trabalho me deixa pouco optimista quanto ao futuro dos filhos de quem o tornou tão estupidamente injusto e ingrato.
O mundo mudou, já todos sabemos. Mas não era preciso ter mudado tanto. Ou afinal tão pouco, se recuarmos ao passado mais passado…


publicado por PRD às 15:41
link | comentar | ver comentários (4) | favorito

Segunda-feira, 20 de Outubro de 2014

É uma história sem qualquer importância, mas diz alguma coisa, simbolicamente, sobre o estado do jornalismo. Não mais do que isso. E conta-se assim:
No domingo, 12 de Outubro, a revista 2 do jornal Público trazia uma matéria de duas páginas, assinada pela jornalista São José Almeida, sobre o novo programa da RTP-I “Barca do Inferno”. Surpreendeu-me o titulo, “Uma barca de mulheres para quebrar o telhado de vidro da TV”, e estes dois parágrafos:

  • “Barca do Inferno quebra ainda com uma outra hegemonia, a do dominio dos homens no espaço público mediático de comentário. É o primeiro programa de debate de actualidade feito apenas por mulheres”.
  • “Uma solução que parece inverter em espelho o estereótipo de que o comentário político e televisivo é território masculino. E deste modo pode contribuir para quebrar o telhado de vidro que aparentemente não se vê, mas está lá, tapando o acesso ao espaço público mediático e mantendo aí as mulheres invisíveis”.

Ora, perante o facto de haver aqui um erro factual, escrevi um mail à jornalista São José Almeida onde corrijo o que, de alguma forma, justifica a matéria e até está na sua origem: “uma busca simples no google permitir-lhe-ia verificar que a mesma RTP-I (à época RTP-N), teve nos anos 2010 e 2011 (ou seja, há apenas 3 anos...) um programa de debate de actualidade só com mulheres, moderado por mim, chamado “Fala Com Elas”. Tinha um painel fixo (Isabel Stilwell, Estela Barbot e Joana Amaral Dias, entretanto substituída por Manuela Azevedo e por fim por Bárbara Coutinho), e sempre uma convidada diferente. Abordavam-se os temas da semana, da politica à economia, do desporto à cultura, nacionais e internacionais, ao longo de uma hora. Todas as semanas. Não sei se terá sido o primeiro programa de actualidade só com mulheres na televisão nem tenho a pretensão de ter louros de inovação - mas sei que a Barca do Inferno não é de todo o primeiro.
Fico triste quando o trabalho feito é esquecido e ignorado, em nome de um entusiasmo que oblitera a necessário investigação ao passado. Mas enfim, são coisas que acontecem, e achei que lhe devia dizer. Se entender que merece correcção nas páginas do jornal, fico grato. Se tal não ocorrer, também não vem daí mal ao mundo”.
E não vem mesmo. A jornalista São José Almeida não achou o meu mail merecedor de resposta pessoal nem de correcção no espaço “O Público errou”. A matéria continua online aqui. Percebe-se que ficaria esvaziada e sem sentido se porventura fosse corrigido o erro e assumida a negligência. Mas para quê? No meio do barulho das luzes, tudo passa, nada fica. Daqui a nada já nem eu me lembro disto.


publicado por PRD às 15:02
link | comentar | ver comentários (5) | favorito



Ler mais

Ler mais