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Pedro Rolo Duarte

19
Mai17

A culpa foi do “nesting”

(Ontem, na plataforma Sapo24)

 Há pontarias tramadas. Decidi que este era o melhor momento – talvez o único, neste ano cheio -, para tirar uns dias a praticar aquilo que sempre cultivei, mas agora tem nome: “nesting”. Não é bem “fazer Nestum” – expressão feliz, do nosso calão, que significa exactamente “fazer nada”... -, mas é usar o tempo livre para fazer algo relaxante, tranquilizante, calmante. Podem ser bolos ou sestas, jardinagem ou fotografia, ver estrelas ou fazer tricot. No meu caso, foi mesmo sair de cena, ler, dormir, e olhar o vazio para pensar um pouco mais que nada.

Enquanto me dedicava a estes “delicados” trabalhos, sempre longe da TV e da rede, o Papa vinha a Fátima, o Benfica ganhava mais um campeonato, e Salvador Sobral tornava-se herói nacional ao conseguir vencer, pela primeira vez, o Festival da Eurovisão. Já tinha ouvido a canção, já conhecia a voz de Salvador, e achava que tudo batia certo, excepto a sua presença naquele habitual desfile de pirosice sem história, nem futuro, nem coisa alguma. O Festival da Eurovisão, mesmo nos momentos da minha infância, em que vibrei com a Tonicha, o Paulo de Carvalho ou o João Henrique, sempre foi um “certame” tão irrelevante quanto inofensivo, ao ponto de nos recordarmos apenas dos Abba enquanto “vedetas” saídas daquele palco. Uma espécie de “casamentos de Santo António”, versão internacional: um generoso numero de pessoas dá o litro, alguém paga, a TV transmite, e depois nunca mais se sabe deles, nem da obra que eventualmente deixem aos vindouros.

Quando acordei do meu “nesting”, percebi que Portugal estava rendido ao Salvador Sobral, que além de ter ganhado o certame, tinha conquistado muitos países, e que ele era um novo herói nacional. Esta foi a parte que não apenas percebi melhor como parece fazer todo o sentido: a canção é fora da caixa habitual festivaleira, e a vitória dá-lhe um sabor especial. Mas tive curiosidade de ir rever na net este Festival da Eurovisão, ouvir as canções que ficaram nos primeiros lugares, e compreender até que ponto esta euforia resulta apenas de uma canção, e do seu intérprete, ou passa por uma mudança efectiva num “evento” que foi morto pelas “Chuvas de Estrelas” desta vida, e por uma dinâmica audiovisual que deixou a Eurovisão a falar para o boneco, isto é, a falar sozinha.

Com pena, verifico que a única coisa que se salvou deste Festival foi mesmo o Salvador e sua canção, suave e meiga, simples e inesperada. O resto, foi o salsifré de sempre, espécie de Jogos sem Fronteiras das canções, programa de televisão que anima um sábado anual, ou dois, e que não se renovou nem acordou para o novo mundo, mesmo que tenha havido um Salvador disposto a cortar a sequência inevitável de vitórias politicas, comerciais, ou apenas inexplicáveis.

Assim sendo, e dando o justo valor à vitória portuguesa, acordei do meu “nesting” e noto que o mundo não mudou assim tanto. O Festival continua o Festival, como Fátima continua a ser Fátima, e até o Benfica...

... Bom, o Benfica seria outra história – mas como benfiquista, não me ficaria bem agora meter-me nisso. No fundo, no fundo, o que saiu fora da norma foi mesmo a canção e a atitude do Salvador. Já não é mau.

09
Mai17

Orgulho de pai

.. Mas mérito dele, e dos colegas que ajudaram a criar este excelente jornal. A treta do "Quem sai aos seus..." tem demasiadas excepções para ser evocada e sair da esfera que lhe diz respeito. Não tiro falso proveito do sucesso de um filho que me orgulha pelo seu talento, trabalho, esforço, estudo, inteligência, vontade e resiliência. Dele. Desde sempre. Pai e mãe permitiram, apoiaram, e incentivaram. Orgulham-se até às lágrimas dos seus feitos e conquistas. Mas é tudo - e é tanto que não cabe num coração só: orgulho e apoio incondicional, amor e cumplicidade.

Siga, rapaz! "Gouveia, the driver", aqui está para a risada nocturna, ou a conversa séria. Não esquecendo o mistério da pequena loura desaparecida. O Sr. manda...

 

07
Mai17

Mitos urbanos

Já não sei quando e como ouvi falar, e muito bem, da “Focacceria Pugliese”, mas por isso mesmo não demorei a ir até Campo de Ourique, de propósito, para provar as focaccias largamente elogiadas. Na altura a prometida casa funcionava, se não erro, num discreto espaço da Rua 4 de Infantaria. Tenho a certeza de ter lá ido pelo menos três vezes - e de ter sido mal sucedido, batendo com o nariz na porta. Estava sempre fechada, ainda que o horário anunciado garantisse que estaria aberta, e mesmo depois de uma reclamação na plataforma Zomato (que foi apagada sob a alegação de que não estava a opinar sobre o serviço ou qualidade do estabelecimento – o que seria verdade, não se desse o caso de não ter conseguido sequer experimentá-lo...). Quando desabafei a irritação com clientes amigos dos donos, justificaram tal facto com momentos menos bons que os proprietários atravessavam, ou com falta de pontaria da minha parte. Argumentos pouco aceitáveis, ainda assim plausíveis.

Passado pelo menos um ano sobre a ultima tentativa, verifico que a “Focacceria Pugliese” mudou de lugar e está agora num espaço ampliado, mais central, ainda em Campo de Ourique, na esquina da Tomás da Anunciação com a Coelho da Rocha, e exibe na porta um horário contínuo ao longo do dia. Sabendo da evolução, decidi voltar a tentar a minha sorte. E a meio de uma tarde de sábado, com o bairro de Campo de Ourique bem acordado, lá fui à “Focacceria Pugliese” tentar provar uma (presumivelmente maravilhosa) focaccia.

Pois bem. Apesar do anuncio de serviço contínuo, a recepção foi clara, nas palavras de um funcionário que falava um português dourado a italiano: só havia as focaccias que estavam na montra, duas ou três modalidades, já feitas há algum tempo, a hipóteses de algumas pizzas, mas mais nada do que a ementa prometia. Saladas, perguntei? Agora, não. E podemos sentar-nos? “Melhor aqui na colectiva mesa/balcão da entrada, que a sala não está pronta”.

Lá virei costas, uma vez mais, e vim embora. O horário contínuo era, afinal, uma tanga, e a forma como me foi apresentado um espaço em “modo serviço mínimo” foi desanimador, para não dizer enganador.

Saí de Campo de Ourique para um daqueles lugares seguros, onde os horários se cumprem e os serviços são garantidos, pensando na improbabilidade de algum dia chegar a provar as focaccias da “Focacceria Pugliese”. Não por falta de vontade, ou de tentativas – mas por ter entrado na lista dos mitos urbanos que fazem de Lisboa uma cidade tão deslumbrante quanto irritante.

Aquela casa é um capricho de quem a abriu, e uma sorte para quem sobre ela pode falar. Mas um nome a esquecer para quem acredita nas tabuletas das portas, e tem do serviço ao público a ideia de algo mais do que uma loja que se abre, porque é giro e não temos mais que fazer.

É nestes momentos que percebo por que motivo as empresas organizadas e profissionais sobrevivem e crescem na selva da restauração nacional, mesmo que isso nos custe perder alguma espontaneidade, autenticidade, e até a verdade que nos distingue. Não há nada que resista à desilusão de nos prometerem o que não cumprem.

05
Mai17

Profissão: olhar para o lado

(Ontem, quinta-feira. na plataforma Sapo24)

Há melhor do que haver quem nos deixe a pensar, num tempo em que nos desculpamos, por tudo e por nada, com a falta de momentos para “parar e pensar”? Gosto de ler alguns dos escritores, jornalistas, ensaístas, que pontuam a revista de domingo do jornal “El Pais”. As crónicas são quase sempre boas reflexões, ou ideias bem apanhadas, lá está: que nos deixam a pensar.

Domingo passado, o escritor e jornalista Manuel Rivas, no seu “Navegar al Desvío”, recuperava uma frase de uma ex-prostituta, entrevistada no âmbito de uma reportagem sobre escravidão no século XXI. Mais do que deixar a pensar, provocou-me um verdadeiro curto-circuito mental, onde se misturaram alguns dos acontecimentos que marcaram a actualidade nos últimos dias...

A frase: “A profissão mais antiga do mundo não é a prostituição, é olhar para o lado”. Repentinamente, passaram-me pela cabeça notícias tão diversas quanto o confronto entre claques do Benfica e do Sporting, que resultaram numa morte por atropelamento; o jogo online “Baleia Azul”, que torna os jogadores, quase sempre adolescentes, em potenciais suicidas; e por fim, os dez anos sobre o desaparecimento da “pequena Maddie”, e toda a cortina de fumo que ensombrou e ensombra a investigação policial, impedindo qualquer conclusão razoavelmente sustentada. O que liga estes três casos, que chocam qualquer pessoa comum, é a ideia de nos dedicarmos a “olhar para o lado” até que o drama nos bata à porta.

Olhamos para o lado quando perpetuamos, por indiferença e negligência, a impunidade das claques desportivas, que além de serem focos de criminalidade, desvirtuam qualquer principio ético do desporto. Não apenas deixamos arder, como achamos normal que os maiores clubes permitam que as claques persistam na sua actividade. De alguma forma, caucionam e alimentam-nas. E nós com eles: nem que seja por partilharmos o mesmo estádio – e quem diz nós, diz as mais relevantes figuras da nação -, somos de alguma forma cúmplices daqueles bandos de foras-da-lei.

Olhamos para o lado quando deixamos os nossos filhos “à solta” na rede, sem qualquer espécie de pedagogia ou regra. Somos capazes de os impedir de irem sozinhos, depois de anoitecer, ao cinema ali da esquina – mas não nos preocupamos com uma plataforma que, a qualquer hora do dia ou da noite, tem predadores à solta, de cara tapada e impunidade garantida pela própria natureza do meio. É preciso haver mortos e feridos para acordarmos para uma realidade que vive connosco há já muitos anos, e que continuamos a ignorar. A internet é a mais rica criação das últimas décadas, e talvez a mais relevante forma de viver, hoje, com democracia e em liberdade – mas pelas mesmas razões, a que nos deve merecer maior atenção quando estão em causa aqueles que, pela idade e inexperiência de vida, precisam de protecção e cuidado.

Olhamos para o lado quando aceitamos, sem maior reclamação do que a clássica frase “são todos iguais”, que a justiça tenha filhos e enteados, e que haja investigações sem fim, suspeitos sem culpa formada, e casos que se arrastam por tempo indeterminado.

É preciso que nos bata à porta a tragédia, “o que só acontece aos outros”, para acordarmos para realidades que deviam envergonhar toda a gente e obrigar a agir, a reagir, em vez de adormecer. Já não acredito que mudemos a tempo de eu ver – mas morrerei a pedir que o tempo do meu filho, dos meus netos, seja outro. Sabendo olhar de frente e acabando de vez com a mais antiga profissão do mundo.

29
Abr17

O livro aberto, o livre arbítrio

(Quinta que passou, no Sapo24)

 Li por estes dias “O Imenso Adeus”, de Raymond Chandler, um dos clássicos que tinha falhado, e para o qual a reedição da colecção “Vampiro” (renovada e recriada...), me acordou. Em boa hora e por menos de dez euros...

Foi no meio dessa leitura – que tem tanto de policial quanto de poética... -, que soube, pela imprensa espanhola, que os nossos vizinhos estão a recuperar bem da crise do universo editorial, voltando a números de vendas de 2008. O que me chamou a atenção foi o titulo da matéria do El Mundo: “Se Espanha tivesse 100 livros... 75 seriam em papel”. O pretexto era o Dia de San Jordi, que em Barcelona é “recheado” a livros e rosas, transformando a cidade na mais romântica e bonita do planeta - e além dessa boa nova de recuperação económica, junta-se-lhe o facto da edição em papel não sofrer grandemente com os livros digitais e os kindle’s e outros eBooks desta vida. Gosto disso. Como militante do papel, em todas as suas frentes, não leio em ecrã mais do que a profissão me exige, ou o mercado me obriga, e espero que resista com saúde no que lhe resta viável: livros, revistas, publicações que escapem à voragem dos dias. Da mesma forma que reconheço, com tristeza, a efectiva falência do jornal diário em papel – tão anacrónico como o pão de ontem -, não deixo por mãos alheias o prazer de uma revista impressa, um artigo longo que se lê devagar, às vezes em dias seguidos, numa esplanada, sem falta de bateria nem riscos no ecrã. Ou a superior impressão de uma fotografia do nosso mais querido autor.

As notícias do mercado espanhol inspiram, mas é área em que podemos responder à altura. Sem saber dos números mais actuais (ainda que seja claro e oficial que, nos últimos 30 anos, foi de quase 200% o aumento do numero de livros publicados em Portugal!), parece evidente que este é seguramente o mais dinâmico dos sectores da cultura nacional, com um generoso numero de editoras a publicar dezenas de livros por semana, mesmo com tiragens pequenas. Os queixumes são os de sempre, mas a verdade é que o preço de editar um livro, entre nós, é baixo, o que torna a margem de risco editorial aceitável, e razoável a convivência entre os grandes editores, conglomerados de chancelas já existentes, e os pequenos independentes.

O livro foi, para o bem e para o mal, dessacralizado. Há quem veja nisso um crime de lesa-cultura, traduzido na frase “qualquer bicho-careta publica em livro” – mas confesso que, ainda que também me façam confusão algumas edições, que juntam receitas de beleza à base de frutas e enchidos, ou conselhos sobre criação de tartarugas e outros animais anfíbios, prefiro um mercado que tem espaço para todos, do que aquele que conheci, quando comecei a trabalhar, dominado por meia-duzia de editores que decidiam o que merecia ser editado, e nessa decisão deixavam de fora muitas das que seriam, então, as revelações que faziam falta.

Hoje, não há quem não tenha oportunidade de publicar, há livros para todos os gostos, graus de exigência, níveis de conhecimento. Ler já não é um verbo de elite – e por mais que me incomodem alguns títulos, algumas abordagens, alguns aproveitamentos de fenómenos de moda e popularidade, prefiro este caos editorial (que leva, no limite, à injustiça de termos edições que estão poucas semanas disponíveis, dada a escassez de espaço para armazenar stocks), à plutocracia cultural que durante dezenas de anos dominou a edição.

O prazer de ler um policial de Chandler, ao lado de uma revelação do Prémio Leya e de um livro de receitas de ceviches, é um dos melhores dados sobre o estado da Nação. Que bom, por instantes, poder ser optimista e acreditar neste “nosso Portugal”, sem cair na tentação da frase banal: “se fosse lá fora...”. Cá dentro, neste caso, é que é.

21
Abr17

E uma vacina contra a ignorância?

(Ontem, na plataforma Sapo24)

 O ser humano tem este dom extraordinário de usar pesos e medidas diferentes para situações semelhantes, dando sentido à expressão “albardar o burro à vontade do dono”, e com isso justificando qualquer espécie de atitude. Até mesmo apanhar sarampo, doença que julgava erradicada do nosso horizonte.

Pelos vistos, não está. E o anormal numero de casos que se estão a registar no nosso país, com a primeira vítima a despertar, lamentavelmente, o pior juiz que há dentro de nós, veio reabrir o debate sobre a vacinação e a sua potencial obrigatoriedade. Há um movimento crescente de cidadãos que, por razões diversas – filosóficas, politicas, éticas, ou apenas vitimado pelo vírus da “teoria da conspiração” -, acha que pode não vacinar os seus filhos. Essas pessoas alegam, evidentemente, a liberdade individual sobre o corpo, e sobre o corpo dos filhos, e alimentam as mais diversas teses sobre a industria farmacêutica e a sua sede de lucro. Chegam a perguntar, como vi numa rede social, quanto ganham dessas empresas aqueles que, como eu, defendem a vacinação... Um alucinado adepto de futebol não faria melhor em relação aos árbitros. Dado que é recomendada mas não é obrigatória, nada acontece a estas pessoas – mesmo que, por falta de vacina, os seus filhos contraiam sarampo e contagiem o vizinho do lado.

Gritam esses anti-vacinas: “Se o vizinho estiver vacinado, não tem de temer o meu filho!”. Errado. Ainda que a cobertura da vacinação seja superior aos 95% que fazem com que se considere o país “imune”, há pessoas que, mesmo vacinadas, podem apanhar sarampo. Ou seja: o que parecia ser uma decisão individual cujas consequências não saiam de casa do inconsciente de serviço, mexe afinal com a vida do vizinho. Deixa, portanto, de ser um problema pessoal, para ganhar domínio colectivo. E é aqui que estamos.

Aceitam-se obrigatoriedades como o cinto de segurança, a proibição do fumo nos espaços públicos; obrigam-se os proprietários de veículos a inspecioná-los de tempos a tempos; os condutores são observados por médicos, a partir dos 50 anos, para poderem guiar; os restaurantes são vigiados pela ASAE e os produtos têm prazos de validade. Aceitamos leis e mais leis, obrigações e mais obrigações – muitas delas pouco ou nada sustentáveis, algumas transformadas em taxas e impostos (já repararam que pagamos um imposto para circular e outro para termos os veículos estacionados? E somos obrigados...). Mas depois debate-se uma questão grave de saúde publica e “ai, jesus”, a liberdade individual está acima do mais elementar bom senso. Dois pesos, duas medidas, para situações em que a nossa atitude pode prejudicar a vida do vizinho do lado ou do incauto com quem nos cruzamos.

Leio na revista “Visão” que, nos anos 90, um estudo de um tal Andrew Wakefield tentou demonstrar a relação entre autismo e as vacinas contra o sarampo, a papeira e a rubéola. Já se provou que era falso, uma fraude, uma invenção. Mas como não há vacina contra a ignorância, continuamos dependentes do supremo “achismo” de quem resiste a vacinar os filhos. Até ao dia.

Confesso a minha perplexidade, ou talvez apenas ingenuidade: não julgava possível que em pleno século XXI estivéssemos a debater os prós e os contras de um medicamento que salvou milhões de vidas no século XX. Não me passaria pela cabeça ler a notícia de uma morte – e não ando à procura de culpados, apenas reconheço o choque e sinto a incredulidade. Não me ocorreria sequer a dúvida sobre esta matéria.

Mas agora percebo por que se reabre o debate. É que falta mesmo uma última vacina. E não é contra o sarampo.

07
Abr17

A verdade às vezes parece a "pós-verdade"...

(Ontem, na plataforma Sapo24)

 

A chamada “pós-verdade” - a que chamo apenas, com maior rigor, mentira - anda de tal forma a cercar-nos, a instalar-se, e a fazer do seu pernicioso carácter um dado a ter em conta, e uma desconfiança permanente, que duvidei daquele vídeo que exibe a joelhada de um futebolista ao árbitro, logo no começo de um desafio regional qualquer. Pior: custou-me acreditar nos militantes das redes sociais que garantiam que o autor daquela alarvidade era não apenas adepto das claques portistas, como tinha estado no jogo, entre Benfica e Futebol Clube do Porto, que animou o fim-de-semana passado. Pelos vistos, o que achei digno de uma “pós-verdade”, ou de uma graça de mau gosto no primeiro dia de Abril, foi verdade, aconteceu, e o juiz que fez a primeira aproximação ao caso entendeu que o arguido não merecia mais do que termo de identidade e residência. Não discuto essa infeliz e parca decisão. Mas discuto o facto e a circunstância de ter ocorrido num tempo em que também se debate a verdade e o que entendemos sobre ela.

Em países como o Reino Unido, o dia 1 de Abril mereceu matérias, como a do Sunday Times, em que se questionava a tradição do dia das mentiras face ao crescente peso das “fake news” nos meios de comunicação. O jornal afirma que Donald Trump popularizou a ideia, ainda que ela tenha ganho corpo bem antes de ser sequer candidato a presidente dos Estado Unidos da América.

“Como vão os jornais sobreviver ao tempo dos factos alternativos?”, interrogava-se, com alguma ironia, o “Times”. Faço minhas as interrogações do jornal. Porém, vejo-as válidas também no sentido contrário: quem nos garante que, por serem assinadas por um jornal, ou relatadas por um canal de cabo dedicado a noticias, os factos correspondem ao que efectivamente ocorreu?

Foi o que pensei quando vi a cena da joelhada – digna de um clube de futebol de um país de terceiro mundo, impossível numa geografia que pretende ser respeitada como país da Europa. Sabendo embora que o futebol tem um lado irracional, em que o imponderável domina, acreditei, até agora, que as autoridades, os serviços de informação, enfim, quem controla claques - e energúmenos que se dedicam a dar cabo do melhor que o futebol pode ter -, saberiam por onde anda esta espécie de pessoas, e do que são capazes, não apenas no dia do mediático encontro entre clubes rivais, mas nos outros dias. E especialmente nos outros jogos - por acaso, o dos medíocres clubes a que fingem pertencer, jogando tão mal que envergonham a claque que lideram...

Afinal, estava enganado. As autoridades vestem a farda no dia do desafio, e depois deixam à solta estes seres, permitindo que se chegue ao cumulo de acharmos que só pode ser mentira o que, afinal, foi mesmo verdade.

O que daqui resulta é mais simples e óbvio do que se julga. “Fake news” e “pós-verdade” não são mais do que o clássico grito de uma qualquer tia: “Eu nem tou a acreditar!”. O problema é que, nos dias que correm, nem a tia acredita, nem eu. Já ninguém acredita. Diria a tia: “vê-se de tudo!”. E tem razão. Às vezes, a pior verdade acontece mesmo. Não é mentira.

31
Mar17

Portas à solta

(Ontem, na plataforma Sapo24)

A semana começou com o regresso ao pedaço de Paulo Portas, directamente da Mota-Engil e da petrolífera mexicana PEMEX (serão assim tão diferentes da Goldman Sachs de Durão Barroso, que aliás o convidou?), para nos iluminar sobre globalização, Trump, referendos, eleições e os caminhos ínvios da Europa.

Com a inteligência e o talento que lhe reconhecemos para o soundbyte, e que vem do tempo das manchetes do bom velho “O Independente”, o ex-líder do CDS deixou provocações, frases cheias de sentido, e mensagens bem dirigidas para dentro e para fora da sua família política. É verdade que não se meteu nos pequenos sarilhos da caserna, mas tudo o que disse foi (também) sobre Portugal, e para os portugueses.

Porém, não foi isso que a “pós-verdade” mais perigosa – a que até parece ser verdade, porque na realidade não é, na aparência, mentira... – veio revelar. Cito o insuspeito “Público”, no texto de Sofia Rodrigues: “Nem uma palavra sobre política nacional. Assim têm sido as intervenções públicas de Paulo Portas desde que deixou a liderança do CDS. São conferências e comentários televisivos (esporádicos) mas sempre sobre assuntos internacionais”. E a seguir: “Quando há um ano passou o partido a Assunção Cristas, Paulo Portas prometeu deixar a política e mudar de vida.”

Ora, lendo o que Paulo Portas veio a Lisboa dizer, seja criticando o que entende ser um “excesso” de referendos, eleições primárias e directas, seja afirmando que a Europa é um “continente com graves problemas demográficos, sistemas políticos muito vulneráveis, que sai para a rua a toda a hora a defender direitos adquiridos, e agora ainda é contra o livre comércio”, do que se trata é, sem margem para dúvidas, de política nacional, no que tem de mais relevante e fracturante. Deixámos há muito de ser uma nação “independente” – logo, quando se fala da União e do seu estado, fala-se de Portugal e da forma como as diferentes forças conjugam o verbo europeu. Não seria preciso ir muito longe: a “geringonça” e o modo de gerir a economia foi radicalmente diferente da que a coligação PSD/CDS adoptou – e os resultados, também conhecidos esta semana, foram igualmente divergentes.

A História dos últimos 30 anos do nosso país recomendariam que se deixasse de ver Portugal à margem do continente onde se insere – mas a nossa atávica forma de estar persiste em empurrar-nos para o “fingimento”. Tanto fingimos que somos diferentes, como fingimos que somos iguais. Tanto nos achamos os reis do desenrasca como acordamos “europeus” e “nórdicos”. Tanto nos sentimos insultados por um holandês tolo como tomamos por elogio o marialvismo que tanto mal nos tem feito. Seremos bipolares?

Não sei responder. Mas tenho a certeza de que Paulo Portas não veio a Lisboa pelos lindos olhos de Durão Barroso... Veio marcar território, fingindo não falar de política nacional, e deixar rastilhos para os pequenos fogos que tanto gosta de atear. Nem mudou de vida nem deixou a política – adaptou o estilo aos novos tempos, tornou-se “conveniente”, e moderou a paixão pela intriga. Apenas isso.

Pior: afirmar criticamente, como fez, que gostamos (nós, europeus) de sair à rua para defender direitos adquiridos, é uma daquelas sentenças que mais parece uma acendalha na fogueira do descontentamento geral - em vez de constituir, como aparenta, uma tirada paternalista e ligeira de quem troca, por momentos, a sede do CDS pelo hotel de luxo que normalmente acolhe os ex-governantes bem-sucedidos. Ou que conseguiram passar pelo temporal desabrido sem uma molhadela, suave que fosse, ou um único pingo de chuva.

Paulo Portas vive no melhor dos mundos. Pode fazer de conta que anda longe, estando sempre por perto. Parece reflectir sobre generalidades, quando marcou alvos bem precisos. E até consegue que o levem a sério, na distância em relação à política nacional, quando apenas trocou a pequena trica pela grande angular da intriga “internacional”. Há vidas piores, mas não prestam...

24
Mar17

Lisboa, 2017

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Quando Pedro Passos Coelho confirmou o nome de Teresa Leal Coelho para a candidatura do PSD à Presidência da Câmara Municipal de Lisboa, garantiu uma série de premissas que podiam estar a escapar aos analistas: que Fernando Medina ganhou a “passadeira vermelha” para mais um mandato; que Assunção Cristas pode sonhar com um honroso segundo lugar; e que Pedro Santana Lopes fez bem em não se chegar à frente. Seria uma guerra dura para quem já foi Presidente - e enfrentar um actual Presidente que herdou “gratuitamente” o lugar, sem votos nem notoriedade, e chega ao acto eleitoral com uma cidade de sucesso oferecida de bandeja, ainda por cima “alindada” como há muito os lisboetas reclamavam, até se pode afirmar que seria injusto para Santana.

Na verdade, Lisboa está hoje mais “arranjadinha” que nunca. Confesso que tenho alguns receios sobre a factura a pagar, e sobre quem a pagará. Porém, há uma conta que já ando a receber: os eixos centrais da cidade tornaram-se, desde que António Costa mexeu no Marquês de Pombal, nas avenidas circundantes, e a coisa seguiu para bingo com as obras de Medina, insuportáveis para os automobilistas. Nunca mais me desloquei por essas vias, contornando a coisa pelas Praças de Espanha desta vida ou mesmo pelas desgraçadas Almirantes Reis do antigamente. O Presidente da Câmara responde, e bem, com o reinado do transporte público – mas a Carris e a confusão dos números dos seus autocarros, os caóticos percursos, os desfasados horários (os fins de semana são trágicos, parece que vivemos num deserto), os permanentes atrasos, e a disfuncionalidade operacional (basta ver os gigantes autocarros que circulam em ruas mínimas, em vez dos minibuses que a empresa também possui...), são suficientes para se perceber que o edifício, uma vez mais, começou a ser construído pelo telhado.

Se passarmos ao Metro, não é preciso recuar muito no tempo para lembrar a crise dos esgotados cartões “Viva Lisboa”, ou as sardinhas em lata em que o serviço se transforma pela manhã e ao fim da tarde. Como cliente regular do Metro, posso elogiá-lo, fora das horas de ponta, pelas estações cuidadas, na evolução inteligente ao longo dos anos, na clareza da sua sinaléctica, e até nas ideias que abriga, seja um concerto inesperado ou mesmo o muito criticado patrocínio comercial das estações, que achei sempre uma ideia feliz... Já não lhe perdoo as avarias sistemáticas nas escadas rolantes de estações “impossíveis” (como a baixa/chiado), ou a limpeza duvidosa das carruagens...

Carlos Barbosa, presidente do ACP, que nunca deixa o crédito por mãos alheias e diz sempre o que pensa, escreveu na sua página de Facebook, a propósito do renovado Cais do Sodré: “Bonito está, mas os sentidos de trânsito são mais uma borrada completa! Será que na CML não há nenhum Engenheiro de Trafego que tenha coragem para ir contra a "ditadura dos arquitetos"?”

Tem razão. E construir a casa a começar no telhado passa também por aqui. Além da melhoria e efectiva racionalização dos transportes públicos ser prometida para depois das mudanças que nos impedem de circular, parece que esta reforma de Lisboa, sem dúvida necessária e de aplaudir, foi determinada mais por desenhos de computador 3-D, lindinhos e perfeitos, do que por práticas de quem diariamente tem de andar pela cidade. Até mesmo de bicicleta.

Medina ganhará – mas espero que alguém o confronte com a pergunta mais simples de todas: depois da fachada, quanto tempo vamos esperar pelo interior do edifício que é a nossa cidade de todos os dias? Sim, aquela cidade onde há viadutos provisórios com 40 anos, que de vez em quando ameaçam o pior...

Blog da semana

O Diplomata. Dez anos de blog é obra. Alexandre Guerra festeja, e com razão, um espaço de reflexão, análise e opinião do mundo político internacional. Merece o bolo.

Uma boa frase

“Se isto fosse no tempo do Sócrates, a esta hora o Trump já tinha em cima da mesa uma proposta da Mota-Engil para a construção do muro. Com financiamento do BES e projecto do Siza Vieira." Rui Rocha, Delito de Opinião

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