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Pedro Rolo Duarte

21
Abr17

E uma vacina contra a ignorância?

(Ontem, na plataforma Sapo24)

 O ser humano tem este dom extraordinário de usar pesos e medidas diferentes para situações semelhantes, dando sentido à expressão “albardar o burro à vontade do dono”, e com isso justificando qualquer espécie de atitude. Até mesmo apanhar sarampo, doença que julgava erradicada do nosso horizonte.

Pelos vistos, não está. E o anormal numero de casos que se estão a registar no nosso país, com a primeira vítima a despertar, lamentavelmente, o pior juiz que há dentro de nós, veio reabrir o debate sobre a vacinação e a sua potencial obrigatoriedade. Há um movimento crescente de cidadãos que, por razões diversas – filosóficas, politicas, éticas, ou apenas vitimado pelo vírus da “teoria da conspiração” -, acha que pode não vacinar os seus filhos. Essas pessoas alegam, evidentemente, a liberdade individual sobre o corpo, e sobre o corpo dos filhos, e alimentam as mais diversas teses sobre a industria farmacêutica e a sua sede de lucro. Chegam a perguntar, como vi numa rede social, quanto ganham dessas empresas aqueles que, como eu, defendem a vacinação... Um alucinado adepto de futebol não faria melhor em relação aos árbitros. Dado que é recomendada mas não é obrigatória, nada acontece a estas pessoas – mesmo que, por falta de vacina, os seus filhos contraiam sarampo e contagiem o vizinho do lado.

Gritam esses anti-vacinas: “Se o vizinho estiver vacinado, não tem de temer o meu filho!”. Errado. Ainda que a cobertura da vacinação seja superior aos 95% que fazem com que se considere o país “imune”, há pessoas que, mesmo vacinadas, podem apanhar sarampo. Ou seja: o que parecia ser uma decisão individual cujas consequências não saiam de casa do inconsciente de serviço, mexe afinal com a vida do vizinho. Deixa, portanto, de ser um problema pessoal, para ganhar domínio colectivo. E é aqui que estamos.

Aceitam-se obrigatoriedades como o cinto de segurança, a proibição do fumo nos espaços públicos; obrigam-se os proprietários de veículos a inspecioná-los de tempos a tempos; os condutores são observados por médicos, a partir dos 50 anos, para poderem guiar; os restaurantes são vigiados pela ASAE e os produtos têm prazos de validade. Aceitamos leis e mais leis, obrigações e mais obrigações – muitas delas pouco ou nada sustentáveis, algumas transformadas em taxas e impostos (já repararam que pagamos um imposto para circular e outro para termos os veículos estacionados? E somos obrigados...). Mas depois debate-se uma questão grave de saúde publica e “ai, jesus”, a liberdade individual está acima do mais elementar bom senso. Dois pesos, duas medidas, para situações em que a nossa atitude pode prejudicar a vida do vizinho do lado ou do incauto com quem nos cruzamos.

Leio na revista “Visão” que, nos anos 90, um estudo de um tal Andrew Wakefield tentou demonstrar a relação entre autismo e as vacinas contra o sarampo, a papeira e a rubéola. Já se provou que era falso, uma fraude, uma invenção. Mas como não há vacina contra a ignorância, continuamos dependentes do supremo “achismo” de quem resiste a vacinar os filhos. Até ao dia.

Confesso a minha perplexidade, ou talvez apenas ingenuidade: não julgava possível que em pleno século XXI estivéssemos a debater os prós e os contras de um medicamento que salvou milhões de vidas no século XX. Não me passaria pela cabeça ler a notícia de uma morte – e não ando à procura de culpados, apenas reconheço o choque e sinto a incredulidade. Não me ocorreria sequer a dúvida sobre esta matéria.

Mas agora percebo por que se reabre o debate. É que falta mesmo uma última vacina. E não é contra o sarampo.

07
Abr17

A verdade às vezes parece a "pós-verdade"...

(Ontem, na plataforma Sapo24)

 

A chamada “pós-verdade” - a que chamo apenas, com maior rigor, mentira - anda de tal forma a cercar-nos, a instalar-se, e a fazer do seu pernicioso carácter um dado a ter em conta, e uma desconfiança permanente, que duvidei daquele vídeo que exibe a joelhada de um futebolista ao árbitro, logo no começo de um desafio regional qualquer. Pior: custou-me acreditar nos militantes das redes sociais que garantiam que o autor daquela alarvidade era não apenas adepto das claques portistas, como tinha estado no jogo, entre Benfica e Futebol Clube do Porto, que animou o fim-de-semana passado. Pelos vistos, o que achei digno de uma “pós-verdade”, ou de uma graça de mau gosto no primeiro dia de Abril, foi verdade, aconteceu, e o juiz que fez a primeira aproximação ao caso entendeu que o arguido não merecia mais do que termo de identidade e residência. Não discuto essa infeliz e parca decisão. Mas discuto o facto e a circunstância de ter ocorrido num tempo em que também se debate a verdade e o que entendemos sobre ela.

Em países como o Reino Unido, o dia 1 de Abril mereceu matérias, como a do Sunday Times, em que se questionava a tradição do dia das mentiras face ao crescente peso das “fake news” nos meios de comunicação. O jornal afirma que Donald Trump popularizou a ideia, ainda que ela tenha ganho corpo bem antes de ser sequer candidato a presidente dos Estado Unidos da América.

“Como vão os jornais sobreviver ao tempo dos factos alternativos?”, interrogava-se, com alguma ironia, o “Times”. Faço minhas as interrogações do jornal. Porém, vejo-as válidas também no sentido contrário: quem nos garante que, por serem assinadas por um jornal, ou relatadas por um canal de cabo dedicado a noticias, os factos correspondem ao que efectivamente ocorreu?

Foi o que pensei quando vi a cena da joelhada – digna de um clube de futebol de um país de terceiro mundo, impossível numa geografia que pretende ser respeitada como país da Europa. Sabendo embora que o futebol tem um lado irracional, em que o imponderável domina, acreditei, até agora, que as autoridades, os serviços de informação, enfim, quem controla claques - e energúmenos que se dedicam a dar cabo do melhor que o futebol pode ter -, saberiam por onde anda esta espécie de pessoas, e do que são capazes, não apenas no dia do mediático encontro entre clubes rivais, mas nos outros dias. E especialmente nos outros jogos - por acaso, o dos medíocres clubes a que fingem pertencer, jogando tão mal que envergonham a claque que lideram...

Afinal, estava enganado. As autoridades vestem a farda no dia do desafio, e depois deixam à solta estes seres, permitindo que se chegue ao cumulo de acharmos que só pode ser mentira o que, afinal, foi mesmo verdade.

O que daqui resulta é mais simples e óbvio do que se julga. “Fake news” e “pós-verdade” não são mais do que o clássico grito de uma qualquer tia: “Eu nem tou a acreditar!”. O problema é que, nos dias que correm, nem a tia acredita, nem eu. Já ninguém acredita. Diria a tia: “vê-se de tudo!”. E tem razão. Às vezes, a pior verdade acontece mesmo. Não é mentira.

31
Mar17

Portas à solta

(Ontem, na plataforma Sapo24)

A semana começou com o regresso ao pedaço de Paulo Portas, directamente da Mota-Engil e da petrolífera mexicana PEMEX (serão assim tão diferentes da Goldman Sachs de Durão Barroso, que aliás o convidou?), para nos iluminar sobre globalização, Trump, referendos, eleições e os caminhos ínvios da Europa.

Com a inteligência e o talento que lhe reconhecemos para o soundbyte, e que vem do tempo das manchetes do bom velho “O Independente”, o ex-líder do CDS deixou provocações, frases cheias de sentido, e mensagens bem dirigidas para dentro e para fora da sua família política. É verdade que não se meteu nos pequenos sarilhos da caserna, mas tudo o que disse foi (também) sobre Portugal, e para os portugueses.

Porém, não foi isso que a “pós-verdade” mais perigosa – a que até parece ser verdade, porque na realidade não é, na aparência, mentira... – veio revelar. Cito o insuspeito “Público”, no texto de Sofia Rodrigues: “Nem uma palavra sobre política nacional. Assim têm sido as intervenções públicas de Paulo Portas desde que deixou a liderança do CDS. São conferências e comentários televisivos (esporádicos) mas sempre sobre assuntos internacionais”. E a seguir: “Quando há um ano passou o partido a Assunção Cristas, Paulo Portas prometeu deixar a política e mudar de vida.”

Ora, lendo o que Paulo Portas veio a Lisboa dizer, seja criticando o que entende ser um “excesso” de referendos, eleições primárias e directas, seja afirmando que a Europa é um “continente com graves problemas demográficos, sistemas políticos muito vulneráveis, que sai para a rua a toda a hora a defender direitos adquiridos, e agora ainda é contra o livre comércio”, do que se trata é, sem margem para dúvidas, de política nacional, no que tem de mais relevante e fracturante. Deixámos há muito de ser uma nação “independente” – logo, quando se fala da União e do seu estado, fala-se de Portugal e da forma como as diferentes forças conjugam o verbo europeu. Não seria preciso ir muito longe: a “geringonça” e o modo de gerir a economia foi radicalmente diferente da que a coligação PSD/CDS adoptou – e os resultados, também conhecidos esta semana, foram igualmente divergentes.

A História dos últimos 30 anos do nosso país recomendariam que se deixasse de ver Portugal à margem do continente onde se insere – mas a nossa atávica forma de estar persiste em empurrar-nos para o “fingimento”. Tanto fingimos que somos diferentes, como fingimos que somos iguais. Tanto nos achamos os reis do desenrasca como acordamos “europeus” e “nórdicos”. Tanto nos sentimos insultados por um holandês tolo como tomamos por elogio o marialvismo que tanto mal nos tem feito. Seremos bipolares?

Não sei responder. Mas tenho a certeza de que Paulo Portas não veio a Lisboa pelos lindos olhos de Durão Barroso... Veio marcar território, fingindo não falar de política nacional, e deixar rastilhos para os pequenos fogos que tanto gosta de atear. Nem mudou de vida nem deixou a política – adaptou o estilo aos novos tempos, tornou-se “conveniente”, e moderou a paixão pela intriga. Apenas isso.

Pior: afirmar criticamente, como fez, que gostamos (nós, europeus) de sair à rua para defender direitos adquiridos, é uma daquelas sentenças que mais parece uma acendalha na fogueira do descontentamento geral - em vez de constituir, como aparenta, uma tirada paternalista e ligeira de quem troca, por momentos, a sede do CDS pelo hotel de luxo que normalmente acolhe os ex-governantes bem-sucedidos. Ou que conseguiram passar pelo temporal desabrido sem uma molhadela, suave que fosse, ou um único pingo de chuva.

Paulo Portas vive no melhor dos mundos. Pode fazer de conta que anda longe, estando sempre por perto. Parece reflectir sobre generalidades, quando marcou alvos bem precisos. E até consegue que o levem a sério, na distância em relação à política nacional, quando apenas trocou a pequena trica pela grande angular da intriga “internacional”. Há vidas piores, mas não prestam...

24
Mar17

Lisboa, 2017

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Quando Pedro Passos Coelho confirmou o nome de Teresa Leal Coelho para a candidatura do PSD à Presidência da Câmara Municipal de Lisboa, garantiu uma série de premissas que podiam estar a escapar aos analistas: que Fernando Medina ganhou a “passadeira vermelha” para mais um mandato; que Assunção Cristas pode sonhar com um honroso segundo lugar; e que Pedro Santana Lopes fez bem em não se chegar à frente. Seria uma guerra dura para quem já foi Presidente - e enfrentar um actual Presidente que herdou “gratuitamente” o lugar, sem votos nem notoriedade, e chega ao acto eleitoral com uma cidade de sucesso oferecida de bandeja, ainda por cima “alindada” como há muito os lisboetas reclamavam, até se pode afirmar que seria injusto para Santana.

Na verdade, Lisboa está hoje mais “arranjadinha” que nunca. Confesso que tenho alguns receios sobre a factura a pagar, e sobre quem a pagará. Porém, há uma conta que já ando a receber: os eixos centrais da cidade tornaram-se, desde que António Costa mexeu no Marquês de Pombal, nas avenidas circundantes, e a coisa seguiu para bingo com as obras de Medina, insuportáveis para os automobilistas. Nunca mais me desloquei por essas vias, contornando a coisa pelas Praças de Espanha desta vida ou mesmo pelas desgraçadas Almirantes Reis do antigamente. O Presidente da Câmara responde, e bem, com o reinado do transporte público – mas a Carris e a confusão dos números dos seus autocarros, os caóticos percursos, os desfasados horários (os fins de semana são trágicos, parece que vivemos num deserto), os permanentes atrasos, e a disfuncionalidade operacional (basta ver os gigantes autocarros que circulam em ruas mínimas, em vez dos minibuses que a empresa também possui...), são suficientes para se perceber que o edifício, uma vez mais, começou a ser construído pelo telhado.

Se passarmos ao Metro, não é preciso recuar muito no tempo para lembrar a crise dos esgotados cartões “Viva Lisboa”, ou as sardinhas em lata em que o serviço se transforma pela manhã e ao fim da tarde. Como cliente regular do Metro, posso elogiá-lo, fora das horas de ponta, pelas estações cuidadas, na evolução inteligente ao longo dos anos, na clareza da sua sinaléctica, e até nas ideias que abriga, seja um concerto inesperado ou mesmo o muito criticado patrocínio comercial das estações, que achei sempre uma ideia feliz... Já não lhe perdoo as avarias sistemáticas nas escadas rolantes de estações “impossíveis” (como a baixa/chiado), ou a limpeza duvidosa das carruagens...

Carlos Barbosa, presidente do ACP, que nunca deixa o crédito por mãos alheias e diz sempre o que pensa, escreveu na sua página de Facebook, a propósito do renovado Cais do Sodré: “Bonito está, mas os sentidos de trânsito são mais uma borrada completa! Será que na CML não há nenhum Engenheiro de Trafego que tenha coragem para ir contra a "ditadura dos arquitetos"?”

Tem razão. E construir a casa a começar no telhado passa também por aqui. Além da melhoria e efectiva racionalização dos transportes públicos ser prometida para depois das mudanças que nos impedem de circular, parece que esta reforma de Lisboa, sem dúvida necessária e de aplaudir, foi determinada mais por desenhos de computador 3-D, lindinhos e perfeitos, do que por práticas de quem diariamente tem de andar pela cidade. Até mesmo de bicicleta.

Medina ganhará – mas espero que alguém o confronte com a pergunta mais simples de todas: depois da fachada, quanto tempo vamos esperar pelo interior do edifício que é a nossa cidade de todos os dias? Sim, aquela cidade onde há viadutos provisórios com 40 anos, que de vez em quando ameaçam o pior...

18
Mar17

Do poder ao pântano

(Quinta-feira, na plataforma Sapo24)

 

A entrevista que o Dr. Pedro Santana Lopes deu à TSF e ao “Diário de Notícias”, no fim de semana passado, tem momentos hilariantes – ou de chorar, conforme queiramos olhar a política “à portuguesa” -, mas é tudo menos insignificante (junta com a de Assunção Cristas ao “Público”), para perceber o que se passa à direita do PS.

O sucesso (pelo menos, até agora) da “Geringonça”, a forma “hábil” como actua o primeiro-ministro – a palavra “hábil” é bastas vezes usada por Santana para caracterizar António Costa - e a chegada de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência, com o formato que adquiriu e a surpreendente mão dada ao Governo, deixaram o PSD confundido, perdido, enredado num conjunto de nós que ninguém ousa desatar. A sensação de falta de rumo nota-se em Pedro Passos Coelho – a começar na pose, algures entre primeiro-ministro que se recusa a deixar o cargo, e líder da oposição que consegue ser mais trauliteiro do que se esperava de um ex-primeiro-ministro... -, nos tiros nos pés dos seus acólitos, e resulta em entrevistas como esta, onde Santana Lopes parece um analista independente e não um militante do PSD, mais preocupado com o poder do que com o país, e mais incomodado com Marcelo do que com António Costa...

A questão que ele coloca é mesmo a do poder: “Como é que o PSD e o CDS regressam ao poder? Parece que há aqui falta de diálogo ao meio, do sistema partidário. É a sensação que eu tenho às vezes, porque PSD e CDS fazerem por voltar ao poder sem algo de novo - não estou a falar de lideranças -, é complexo”.

Repare-se que Santana Lopes não fala em projectos nem ideias para Portugal, ou reformas por fazer – fala apenas de regresso ao poder, deixando-nos a sensação de que esse é o único desígnio que o PSD consegue afirmar. Pelos vistos, sem grande sucesso.

Mas o mergulho no charco não fica por esta “confissão” da falta de GPS quando o partido não está no governo. Vai mais longe quando praticamente ignora o estado da nação e prefere observar o social-democrata Marcelo na Presidência. Diz Santana, com alguma arrogância, para não dizer soberba, sobre um homem que fica, politica, cultural e eticamente, a anos-luz do presidente da Misericórdia: “É manifesto que Marcelo, às vezes, tem exagerado e, muitas vezes, tem feito de primeiro-ministro nas intervenções que faz, o que dá imenso jeito ao dr. António Costa”. E ao ser-lhe pedida uma nota para o Professor, a lata persiste: ”14,5. Entre o bom pequeno e o bom grande, mas acho que é mais bom grande. É 15, na prática. Eu só não digo que é muito bom por esse excesso e pelo equilíbrio com a oposição. Mas acho que tem feito um bom mandato, um bom primeiro ano. Mas também levo em linha de conta o facto de ser um primeiro ano”.

Estivesse Pedro Santana Lopes na liderança do PSD e eu diria que tinha perdido a cabeça. Estando afastado, mas “andando por aí”, como gosta de dizer, pensa o PSD com tal desdém e menosprezo que se dá ao luxo de sugerir que falta “algo de novo” (quem sabe outro Partido...), e que o Presidente da República, ainda que social-democrata, não cumpre a missão como seria expectável. Ou seja: perdidas as referências e o poder, está esvaziado o PSD, e com ele as ambições de quem por lá anda. Outro tiro no pé, e mais uma acha para a fogueira onde arde lentamente o fantasma em que o partido se tornou.

A resposta a tudo isto podia estar em Assunção Cristas. Mas a longa entrevista que deu ao “Público”, essencialmente preenchida com um “não tenho nada com isso, eu até ía a caminho da missa”, sobre o passado, o PSD e Marcelo, não ajudou à festa. Foi uma tentativa de fuga para a frente, que acabou por ter o amargo sabor de quem assobia para o lado.

É exemplar (no pior sentido) o estado em que está a oposição, e de como tal facto é meio-caminho andado para surgir quem, à direita, saiba aprender os efeitos do vazio. Não augura nada de bom. E isto, sim, é o pântano em todo o seu esplendor.

15
Mar17

Assim, de repente, ouvindo Sócrates na TV...

Sempre que oiço José Sócrates queixar-se da lentidão da justiça e das demais injustiças a que tem sido submetido, pergunto-me: este homem não foi primeiro-ministro de Portugal durante seis anos? O que fez para que a justiça deixasse de ser o que, pelos vistos, continua a ser? Ou está apenas a reconhecer que, desde 1987 (ano em que foi eleito deputado pela primeira vez), esteve mais preocupado consigo do que com aquilo para que foi sucessivamente eleito?

O homem é tão cheio de si que nem se apercebe de que dispara tiros nos pés sempre que critica o que ele próprio devia ter mudado e não mudou.

Esteve lá a fazer o quê, além do que é agora suspeito de ter andado a fazer?

10
Mar17

Números quadrados

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Sempre que se fala da pós-verdade, que mais não é do que a vontade de tornar factual o que é mentira, e se exibem as “notícias” inventadas por Donald Trump e a sua claque, tenho tendência a recuar no tempo e recordar que, no Liceu, umas das raras lições que me ficou da matemática (a que era péssimo aluno), foi a explicação de uma professora sobre estatística. Era mais ou menos isto que a senhora contava: tenho em casa um belo frango assado; cheia de fome, enquanto o meu marido estaciona o carro e sobe ao nosso apartamento, decido comer o frango inteiro. Sobram batatas fritas e pão... Porém, para efeitos estatísticos, naquela casa cada frango é dividido por dois; ou seja, cada um dos elementos do casal terá comido meio frango. Mesmo que o meu marido tenha, em bom rigor, ficado esfomeado!

Esta ideia primária, muito aplicada na politica conforme o jeito que vai dando, constitui a antecâmara da tal pós-verdade. É usada para mascarar números sobre desemprego ou o investimento, como serve para as interpretações que demonstram o estado lamentável da nação.

O mesmo algarismo pode servir uma tão variada gama de interesses que é praticamente impossível encontrar um denominador comum numa operação aritmética. Onde está a verdade? Algures, a meio caminho entre todas as mentiras...

Talvez por isso, ando há algumas semanas a tentar digerir, sem sucesso, uma sondagem (da Intercampus, divulgada pelo jornal Público), que tentou “perceber” os jovens portugueses através de uma série de perguntas que vão do mais sério ao mais fútil. E se acredito que a maioria dos sub-34 escolha Marcelo Rebelo de Sousa como o mais sexy de entre os homens públicos – a longa distancia da mulher mais sexy, Assunção Cristas, ou de Joana Amaral Dias, a segunda classificada... -, parece-me pouco crível ou sequer aceitável que haja 48,8% de jovens a declararem interessar-se por politica, a que se acrescentam 15,7% de “muito interessados” na matéria...

Sejamos sérios: se fossem interessados na matéria, não teriam deixado à porta de uma Faculdade Jaime Nogueira Pinto, e uma conferência seguramente interessante, mesmo para quem com ele estivesse em desacordo.

A abstenção em actos eleitorais, e o caldo morno em que se movem estes mesmos jovens, diz ainda mais do desinteresse e indiferença que nutrem pelo mundo que os rodeia – facto confirmado por outra questão da sondagem, que revela uma maioria de 57% que confia nada ou muito pouco no Governo.

Não confiam em quem governa mas interessam-se por politica? Por um lado gostam, por outro lado ignoram sistematicamente as regras mais básicas? Há qualquer coisa que não bate certo.

E o que não bate é a tal ideia de verdade que dá jeito, conveniente, que estando na moda é um perigo letal. Faz lembrar a bomba de neutrões, num tempo de guerra fria que escaldava: mata por dentro deixando tudo intacto por fora.

Os números redondos, os números que justificam sucessos e fracassos, não são nem verdades absolutas nem mentiras descaradas. São quase sempre quadrados. São dados que, desde há muito, os especialistas desconstroem e os media, na sua função “tradutora”, explicam e esclarecem. Nesse quadro, é fácil perceber porque andamos tão perdidos, sem encontrar correspondência entre o que nos dizem que vivemos e o que efectivamente sentimos, entre o real cinzento dos dias e o sol que nos vendem, ou a tempestade que nos anunciam.

Nem os números são redondos nem os factos são óbvios – e não precisávamos que nos “dessem” um qualquer Trump para saber que, como na história do frango comido por um só, na sala onde estão dois, também 10% de desempregados, ou 2% de crescimento económico, não traduzem uma vida melhor nem garantem um desanuviado futuro. São apenas dados a ter em conta numa aritmética sempre duvidosa e pouco ou nada rigorosa.

Tal como a sondagem sobre os jovens, se a olharmos sob o prisma de quem impediu Nogueira Pinto de falar: eles podem até parecer, mas não são. Nem interessados nem interessantes...

06
Mar17

As mãos que ardem no fogo

(quinta-feira passada, na plataforma Sapo24)

 Há uma expressão popular, muito usada para demonstrar a nossa confiança nos outros, que receio possa entrar em desuso para todo o sempre, seja em relação àqueles em quem acreditamos - mesmo sem conhecer, apenas por intuição e currículo -, seja em relação aos nossos familiares e amigos. É a clássica “ponho as mãos no fogo por...”.

Todos nós já pusemos as mãos no fogo por alguém – e nem todos nos queimámos, acredito. Mas os últimos tempos têm demonstrado que é pouco seguro brincar com o fogo, porque quase todos os dias aparece alguém por quem poríamos a arder as mãos – e o problema é que, subitamente, se o fizéssemos, ardiam mesmo.

Não brinco. O assunto é sério. Estou a falar de quando a excepção ameaça tornar-se regra, e de quando o que parecia ser uma ovelha fora do rebanho é afinal parte integrante do rebanho.

Deliberadamente, não vou referir um único nome. Não quero manchar suspeições, nem alimentar suspeitas por provar nas instancias competentes. Quero apenas notar que não há praticamente dia em que não nasça um novo suspeito, um novo arguido, um novo condenado - que vem juntar-se a uma lista cada vez mais vasta de figuras de todas as áreas politicas e profissionais -, quase sempre envolvido em praticas ilícitas que invariavelmente desembocam em corrupção, fraude, e acima de tudo no aproveitamento de cargos de poder e influência em beneficio próprio, com ou sem conluio e cumplicidade.

Durante anos, habituámo-nos à ideia de uma classe de gestores, empresários, empreendedores, cuja ousadia, inovação, competência e conhecimento deram ao nosso tecido empresarial uma dinâmica e uma imagem que teriam de uma vez por todas enterrado o passado de pequenez e contas de mercearia que marcara a ditadura (e mesmo algum tempo pós 25 de Abril...). Não foi há muito tempo que assistimos à renovação da banca nacional, à criação de marcas inovadoras em todas as frentes (lembram-se da “Nova Rede”? Do “BCI”? Da “TMN”?), às iniciativas de empresários que queriam “aconselhar” os Governos sobre os desígnios de Portugal, e ao lançamento permanente de novos nomes que orgulhavam a gestão, faziam as capas das revistas, e davam as entrevistas de fundo dos jornais. Sobre todos eles recairia sempre a pequena inveja em relação aos fabulosos rendimentos – mas, ao mesmo tempo, reconhecia-se que a competência e os lucros gerados justificavam os ganhos e as mordomias e o que mais houvesse.

Pior: acreditámos que tanta competência e saber, tanta boca cheia de “responsabilidade social”, e obviamente tão extraordinários vencimentos, eram mais do que suficientes para podermos “por as mãos no fogo” por eles. Não precisavam de mais...

Os anos passaram. Como numa peça de teatro que chega ao fim, o palco esvazia-se e já só mostra o vazio. Os actores despem os seus fatos e mostram-se como são. Somos repentinamente surpreendidos com a mais crua verdade: afinal, nada do que os podia distinguir, os distingue. Nada do que aparentou a diferença foi diferente. E o fogo fátuo que exibiram, se não nos queimou, também nunca chegou a arder...

Aqui chegados, sobra em desilusão e desencanto o que faltou em tudo o resto. No crédito que lhes demos sem merecerem, no exemplo de seriedade que todos os dias se põem em causa, e acima de tudo numa ideia de Portugal que, uma vez mais, era uma ilusão. Parecida com aquela que enganou os nossos pais, os nossos avós. Numa sina a que não chamo fado por respeito à canção – mas chamo tragédia, porque não é mais do que teatro. De vão de escada.

23
Fev17

Portugal moderno

(Hoje, quinta, na plataforma/newsletter Sapo24)

Nos últimos dias, os media deram-nos conta de factos que, de uma vez por todas, comprovam que Portugal chegou ao primeiro mundo. Uma ex-agente da CIA, cá das nossas, foi detida, para cumprir pena já decretada, por ter participado no rapto de um líder religioso egípcio, em 2003, em Itália. É certo que a senhora tem agora 61 anos e se chama Sabrina, mas isso interessa pouco – é um momento alto da nossa capacidade de espiar e raptar. Ao mesmo tempo, perigosos fugitivos chilenos conseguem fugir da prisão de “alta segurança” de Caxias, sem rasto nem lastro. Na semana passada, um assalto em pleno dia no Centro Comercial das Amoreiras veio mostrar que, em matéria de roubo à mão armada, estamos à altura dos americanos (ou, pelo menos, das series televisivas americanas...). E já tinham sido apanhados em território nacional traficantes de primeira do mundo da droga. Uma vista de olhos diária ao Correio da Manhã prova o que falta para chegar onde quero: não é apenas no sistema Multibanco, Via Verde, no turismo de Lisboa e Porto, ou na queda dos números do desemprego, que Portugal marca pontos e está na cabeça do pelotão do desenvolvimento – também no reverso da medalha começamos a dar cartas. Temos entre nós malandros de estatura internacional, crimes de peso, e um Carnaval (a imitar cada vez melhor o brasileiro...) a animar as ruas nos próximos dias.

Perante este conjunto de incontornáveis factos, recordo ainda que era Donald Trump uma criança e já nós convivíamos com Alberto João Jardim, que havia família Salgado quando a realeza espanhola se revelou, e que a nossa banca não deve nada às estrangeiras em matéria de vulnerabilidade por evidente má gestão.

Ou seja: somos tão bons como os outros, da mesma forma que somos tão maus ou piores do que eles. Com uma ligeira desvantagem para nós: a escassa dimensão, a eterna pequenez, e uma tendência inata para o “logo se vê”.

Talvez por isso, no momento em que o Governo vem vangloriar-se dos progressos conseguidos, dos números e das estatísticas, do progresso e da “geringonça”, o espectador comum, como eu, duvida e pergunta-se: será assim, ou vamos esperar sentados a próxima desagradável surpresa? Vivemos, como escreveu João Miguel Tavares, na “bolha da inconsciência”, ou chegámos por fim a um patamar de equilíbrio em que, como escrevi, também o crime chega a níveis internacionais?

Até há uns anos, tínhamos a imprensa – que nos ajudava a perceber a relevância e hierarquia de tudo isto. Hoje temos cada vez menos imprensa – ou, como dizia há dias o director do Washington Post, mais evidências de que a imprensa pode acabar, e menos de que continue... -, e cada vez mais títulos soltos nas plataformas que dominam a informação. E esta dispersão baralha-nos ao ponto de podermos achar que uma ex-expiã da CIA, por fim detida, nos coloca na linha da frente do desenvolvimento, apenas pelo facto de ser portuguesa...

Algo me diz que o mundo, mais do que perigoso, está baralhado e confuso. Já ninguém percebe o que se passa, parece-me. Mas uma coisa é certa: não é pelas redes sociais nem pelos googles desta vida que vamos saber mais e melhor.

Saudades de uma coluna de Victor Cunha Rego, ou de uma primeira página “desenhada” por Mário Bettencourt-Resendes...

17
Fev17

O “abismo” numa fotografia

(Ontem, na plataforma Sapo24)

Há polémica sobre a fotografia do ano do World Press Photo. A foto, como já é sabido, é um instante do momento dramático em que um atirador isolado, Mevlut Mert Altintas, dispara sobre o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, na inauguração de uma exposição na Galeria de Arte Contemporânea de Ancara. O autor da imagem é o turco Burhan Ozbilici, da Associated Press, que terá decidido passar pela Galeria sem serviço marcado. Todos vimos o vídeo que captou o momento, mas a imagem fixa, parada, do atirador a erguer a pistola, com o corpo do embaixador inerte no chão, tem qualquer coisa de ainda mais negro – nem que seja pelo instantâneo que se revela pela falta de enquadramento, a surpresa que toda a composição mostra, e a loucura que o quadro exibe cruamente. Uma imagem definidora de um tempo e da forma como o podemos ver.

Há quem ache que a imagem mistura sensacionalismo com publicidade aos efeitos do terrorismo, e que ter ganho, num ano em que estão também a concurso fabulosas imagens do drama dos refugiados, e da emigração na Europa, é injusto.

Os argumentos podem ser razoáveis, mas são pobres. Aquela fotografia revela o estado em que estamos nos dias de hoje, a imprevisibilidade dos dias, o parco valor da vida, o confronto entre culturas e forma de vida – ou de morte.

As palavras de João Silva, o fotógrafo luso-descendente que foi premiado, e agora é jurado, do World Press Photo, dizem tudo sobre a escolha do júri: “Vejo o mundo a caminhar em direcção a um abismo. Este é um homem que claramente chegou a um ponto de ruptura”. É essa ruptura com que nos confronta Burhan Ozbilic (cujo sangue frio e a coragem não é demais sublinhar), como se fosse uma prova, uma testemunha, uma evidência.

De resto, a imagem é também simbólica para os momentos que o jornalismo vive, e para responder de forma meridiana, mas exemplar, às “não-verdades” que por aí andam: os que a acusam de promover o terrorismo pretendem que não se veja o que efectivamente acontece? Num instante me lembro de, até ao 25 de Abril de 1974, serem cortadas pela censura todas as notícias que revelassem suicídios, para não contagiar a população nem mostrar realidades incomodativas.

Não me parece, de todo, um bom caminho para voltar a ter a verdade ao serviço do jornalismo e os factos verificados e confirmados por quem os testemunha. O que o fotógrafo da AP fez foi justamente servir o jornalismo, mostrando um facto tão incómodo e chocante quanto verdadeiro, e raras vezes visto no momento em que ocorre; foi denunciar o tal “abismo”, a que chamo loucura, que varre o planeta e nos deixa diariamente aturdidos e confusos sobre os caminhos que levamos; foi registar, correndo risco de vida, o instante preciso em que o atirador se revela barbaramente satisfeito com o crime que acaba de cometer.

É bom que tenhamos a noção de que vivemos lado a lado com pessoas como esta, e que amanhã esta imagem nos pode bater à porta sob a forma de um facto inesperado, daqueles que achamos que “só acontecem aos outros”. Nessa medida, esta fotografia é a um tempo um grito e um sinal. Sem encenações. Sem filtros. Sem recurso a dramatismos exteriores ao que os factos já encerram.

Como se estivéssemos a voltar a um qualquer começo, é o jornalismo na sua essência. Puro e duro. Surpreendente e chocante. Mas sempre verdadeiro. No momento que vivemos, em que a verdade se inventa e os factos se esfumam, isso vale mais. Para não dizer que vale tudo.

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