






Adoro assistir a casamentos para os quais não fui convidado.
Ou seja: passar por uma Igreja, de jeans e ténis, e perceber que está a decorrer um casamento. Entrar. Observar. E depois ir à minha vida, sem transpirar com o fato e a gravata, sem me sujeitar à boda de três pratos e seis horas, seguindo directo para a praia ou para o cinema.
Lembrei-me disto quando tropecei, aqui no computador, nesta fotografia que tirei há uns anos em Barcelona. Lá está: ía a passar, e havia casório. Fui ver.
(algures em 2006)
Num dossier publicado na revista “Notícias Magazine” encontrei um provérbio chinês que deveria estar colocado em todas as repartições públicas, em todas as casas de Portugal, nas lapelas dos casacos, nos vidros dos carros, talvez até mesmo em permanência nos rodapés das televisões. Diz assim:
“Se tem remédio, porque te queixas? Se não tem remédio, porque te queixas?”.
Assim, com a irónica mas certeira serenidade oriental, ali estão as duas perguntas que nos devem ser colocadas diariamente. Repetidamente. Até à exaustão. Só pelo cansaço venceremos os nossos eternos complexos. Eu, por exemplo, já estou farto de ouvir queixas. E também de me queixar. E no fim deixar andar...
A notícia é a que se sabe: “O homem de 25 anos que foi detido no domingo passado em Elvas por difamar o Presidente da República, Cavaco Silva, foi condenado em tribunal a uma multa de 1300 euros”.
Parece um fait-divers mas não é um fait-divers.
Parece uma notícia de segunda, mas é uma notícia relevante. Tanto mais relevante quanto é certo que ocorre duas semanas depois do episódio “palhaço”, que envolveu Miguel Sousa Tavares e o Presidente da Republica.
Interessa pouco se os agentes da autoridade agiram antes ou depois de consultarem a Presidência da Republica.
Interessa mesmo é notar que foi preciso chegarmos a 2013, e termos Cavaco Silva na Presidência, para um homem ser julgado e multado por ousar gritar a sua indignação na rua, chamando dois ou três nomes menos razoáveis ao Presidente e, de passagem, mandando-o trabalhar.
Tudo o que qualquer de nós, em algum momento, alto ou baixo, na rua ou em casa, já fizemos. Com este Presidente, com os anteriores, com Governos e governantes de qualquer área.
O insulto na rua, ou o beijinho na feira, a indignação ou a lambe-botice, fazem parte do “pacote” da actividade pública de qualquer político. Todos o sabem, é o jogo da política. Mesmo que juridicamente um impropério gritado na rua possa ter consequências, não há quem se queixe, condene, ou reclame. Nem José Sócrates, o tal animal selvagem, tentou entrar por essa noite escura.
Foi com Cavaco Silva que se abriu o precedente. Em duas semanas, por duas vezes, o espectro do medo pairou sobre a nossa liberdade de expressão. Não bastava a crise.
Está aqui ao lado, em destaque, mas tem de estar aqui também: Depressão Colectiva. Um blog OBRIGATÓRIO nos dias que vivemos. Repito: OBRIGATÓRIO. Mesmo quando, ao ler, nos dói na alma.