
21 Novembro 2009
Há dois tipos de conservadores no mundo: os que sempre foram, e vivem felizes na sua condição, tranquilos nos blazers espinhados, nos padrões Burberry e nas camisas de xadrez; e os que demoram anos a reconhecer o seu próprio conservadorismo e fazem-no sempre a contragosto, resistindo às evidências.
Pertenço, evidentemente, a estes últimos – razão pela qual persisto na ideia de conviver harmoniosamente com a modernidade, embora só me sinta feliz nos lugares e cenários que já conheço. Uma agenda Filofax. Um disco que já ouvi. Um autor que não me surpreende. Uma bebida que conheço há anos. O eterno Cozido à Portuguesa do Painel de Alcântara. O croquete do Gambrinus. Vergílio Ferreira. Sting. João Gilberto. O pastel de massa tenra do Frutalmeidas.
Gosto do que é novo – mas o confronto cansa-me Gosto de conhecer novas cidades – mas logo que posso volto a Londres e a Barcelona. Defendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo – mas se me falam em adopção, vacilo.
Propositadamente misturo o que não se mistura – para que se perceba que há, no conservador não assumido, algo que está aquém e além da ideologia ou sequer da cultura familiar. Como se tivesse uma marca genética que não se consegue vencer por decreto.
Um exemplo: nasci numa família que se assumia como sendo de esquerda, e que saudou o 25 de Abril de 1974 como o verdadeiro dia de Natal por fundar. No entanto, eu e os meus irmãos tratávamos o meu pai por “você” e a minha mãe por “tu”... Nenhum deles nos impôs a diferença e ambos defenderiam, em teoria, a igualdade no tratamento, até porque dentro de casa eram iguais em direitos e deveres, e ver o meu pai lavar loiça foi o mínimo a que me habituei ao longo do tempo. Mas a marca estava lá – havia qualquer coisa conservadora que me levou a seguir os meus irmãos, e que conduzia a esta diferença num tratamento que nem por isso era menos afectuoso ou respeitoso para qualquer dos dois.
Nos dias que correm, quando alguém olha para o passado e vê os lugares por onde passei – nomeadamente “O Independente”, a “Kapa”, o DNA -, é corrente falar da modernidade associada a estes títulos, da ideia de vanguarda ou inovação. Normalmente, não me excedo no contraditório – mas a verdade é só uma: o que une todos estes títulos de jornais e revista é uma ideia conservadora. A ideia de que os jornais e as revistas se fazem com pessoas que escrevem, fotografam, investigam, imaginam – e cuja força maior é serem elas próprias. Nenhum destes títulos inventou a roda – todos recuperaram rodas já muito rodadas: a entrevista, a reportagem, a fotoreportagem, a crónica, o humor, a notícia, a investigação, a causa, a critica. O grafismo de todos eles foi inspirado no melhor que já se tinha feito. A estrutura foi sempre uma síntese do que de bom víamos fazer noutros lugares. E até o sucesso que estes títulos tiveram resultou da fórmula mais conservadora de comercializar produtos: se dermos ao consumidor o que ele não tem – e, chave do cofre, se tivermos a oportunidade de lhe provar que lhe faz falta o que nem sempre ele tinha consciência da falta que lhe fazia -, é muito provável que ele nos compre regularmente.
Tenho dificuldade em dar o braço a torcer. Mas ele já foi tão torcido e retorcido ao longo da vida que já nem sente a dor quando eu digo, baixinho, timidamente, “sim, conservador, talvez seja...”

Para poder falar na rádio sobre este livro, passei parte da noite de ontem a ler páginas soltas, bocados de tempo que fui escolhendo em função do meu gosto pessoal. Há muito tempo – eu diria, desde o ultimo ensaio histórico de Vasco Pulido Valente – que não tinha tanto prazer a ler um texto de História. Não é só a consistência e a clareza da escrita, é essencialmente a fórmula, a meio caminho entre a investigação e o relato. Tem algo de jornalismo – no que o jornalismo pode e deve ter de vida e mundo.
Vou ler como se lê um romance. E garanto que era coisa que não me passaria pela cabeça se não tivesse sido bem agarrado pelo talento de Rui Ramos, Bernardo de Vasconcelos e Sousa, e Nuno Gonçalo Monteiro.
Duas notas mais: ao contrário do que é hábito, esta História de Portugal chega até aos dias de hoje; e pelo número de páginas pode dizer-se que, em média, cada ano da nossa História teve direito a uma página de texto. Claro que em rigor esta proporcionalidade não se verifica, mas dá para ter uma ideia da concisão da obra e do esforço que foi feito para, ainda assim, manter vivacidade e cor na escrita. Para mim, é o livro do ano.

Lá se voltou a falar do que sente Cavaco – e lá veio Cavaco desmentir. As fontes de Belém, afinal, não secaram.
O que ninguém me diz, o que parece ter caído de vez no esquecimento da agenda dos jornais, é por onde anda Fernando Lima. Está com Cavaco Silva? Faz o quê? Está a escrever outro livro? Voltou ao Diário de Notícias? Ninguém quer saber? Já não tem telemóvel?
Sobre ele caiu aquele manto da invisibilidade que tanto jeito deu no começo da saga Harry Potter. Não surpreende que a memória me devolva histórias de feitiços e aprendizes de feiticeiros – talvez porque, neste caso, os feitiços se têm virado quase sempre contra os feiticeiros. Quem escuta e quem é escutado, quem é negligenciado e quem negligencia, parece uma brincadeira de crianças. Em lugares muito sérios.
Ando a reler Victor Cunha Rego n’Os Dias de Amanhã e sorrio quando descubro a expressão que usou para denominar um “centrão” que não se entende mas também não se consegue libertar. Era o tempo de Guterres e de um PSD aos papéis, e ele chamou-lhe “O pudim central”.
Como noutro momento, e sobre Cavaco, deixou esta ideia tão actual: “O silêncio não é a encenação. É o embaraço”.
A falta que Cunha Rego nos faz todos os dias num bom jornal.

Este blog faz hoje dois anos. Ao notar a efeméride, lembrei-me de como nasceu – mas lembrei-me mais de uma crónica do meu grande e generoso amigo Miguel Esteves Cardoso sobre o tempo. Uma crónica em que ele desafia os “mestres-relojoeiros” a criarem o relógio ideal...
“Este relógio com que sonho seria eterno – como já há por aí -, mas marcaria a passagem das horas conforme a alma de quem passasse por elas. Aquelas sestas que me obrigavam a dormir quando era pequeno podiam tecnicamente ser de duas horas, mas que conforto seria ter um instrumento que nos confirmasse que tínhamos aguentado um dia inteiro de inquietude debaixo dos malditos lençóis!
O mecanismo básico deste relógio ideal seria um princípio que não é menos sólido do que qualquer das leis da física: quando estamos a divertirmo-nos, o tempo passa depressa; quando estamos aborrecidos ou a sofrer, o tempo passa devagar. E aqui chegamos à dúvida que me levou a partilhar este meu sonho, na ânsia de algum leitor poder esclarecer-me.
Pois se quanto mais envelhecemos, mais depressa passa o tempo, isto não quererá dizer que, quanto mais velhos, mais felizes nos tornamos?”
E termina a crónica assim: “o tempo, desde que bem pensado e medido, é a única coisa que vale mesmo a pena – ou o prazer – passar”.
Foi nisso que pensei também quando me apercebi que este blog nasceu há dois anos.
Ou de como o link é quem mais ordena...
O amor é lindo, mesmo que possuído por alguma agressividade.
Namorar é publico ou privado, conforme quem namore com quem
Mas quem namora também tem opinião
Ai tem, tem
Tudo o que se passa e é notícia anda demasiado perto do primeiro-ministro.
Por exemplo, a licenciatura...
Ou as escutas das conversas entre José Sócrates e Armando Vara...
Ou a embrulhada de Manuel Godinho
É tão bom estar na oposição.
Socrates mentiu mesmo que não se possa ouvir o som da mentira...
É tão bom estar na oposição (parte II)
É verdade, e os submarinos, alguém se acusa?
Estamos sempre a aprender.
Vai ser mesmo assim...
Num país de marialvas, mais corrupto menos corrupto, é só uma questão de trocar o cavalo pelo automóvel de luxo e saber andar a trote e a galope pelos corredores do poder... Vejamos então:
Portugal desde menino
Foi cavaleiro e campino
Deu cartas com calção
A cavalo venceu mouros,
A cavalo picou toiros
Foi destemido e pimpão.
A nossa história
É toda de lés a lés
Uma vitoria do ginete português
Eu cá para mim
Não há oh não maior prazer que o selim e a mulher...
Rédeas na mão, sorrir amar, trotar esquecer,
E digam la se isto é descer!
Rapaziada de agora,
Voltem à bota e à espora
Com orgulho e altivez
Deixem as coisas modernas
Arranjem força nas pernas
Trotar é que é português
Quem anda a trote em cima de um bom alter
Leva no bote a mais difícil mulher...
Letra do Fado de Estevão Amarante, também na revista do i de amanhã...
Sempre que um caso judicial aparentemente relevante começa a tropeçar na nulidade dos documentos ou das acções, no arquivamento das certidões, nos recursos e nos subterfúgios da lei, nos estado de pendência, nas imunidades e nas excepções – por mais legais que sejam… -, eu sinto que mergulhou no pântano e de lá não volta a vir à tona…
No pântano nacional jazem milhares de processos que, acredito, a terem sido concluídos em tempo util, fariam de Portugal um país um pouco melhor. E mais justo. E mais sério.
Foi um miúdo com 12, 13 anos, turco, que de escopro e martelo em punho me perguntou quantos pedaços do muro queria eu, a troco de meia-duzia de marcos alemães. Fiz as contas aos familiares e amigos - e contei comigo, claro. Trouxe uma mala de pedras para Lisboa. Fiquei com o bocado maior que, há tempos, numa manobra menos feliz de quem então me limpava a casa, se repartiu em quatro pedaços. Mas eles resistem na minha vida: são mesmo retirados, “à frente do cliente”, do Muro de Berlim, ainda a quente, há 20 anos, quando tudo voltou a estar em causa e a felicidade estampada no rosto daquele povo me iluminou.
Quem testemunhou o encontro entre a civilização do Trabant e do BMW, entre a luz velada da noite e o néon feliz e feérico, nunca mais foi capaz de acreditar nos tais “amanhãs que cantam”. Já não acreditava – mas deixei-me embebedar noite dentro com a alegria de confirmar os meus equívocos passados...
Ainda hoje me emociono quando recordo aqueles dias que por ali passei, já o muro estava quase desfeito...
Sobre o tema do referendo ao casamento homossexual, ocorrem-me os seguintes pontos:
Um. As eleições legislativas realizaram-se há mês e meio, ou seja, os seus resultados parecem-me válidos e longe de se considerarem desactualizados.
Dois. 54,23% dos eleitores votaram nas três forças que apoiam a alteração legislativa que permitirá o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Tal facto não foi evitado nem escamoteado durante a campanha eleitoral.
Três. Mesmo tendo em consideração a taxa de abstenção nesse acto eleitoral, estamos a falar de 3 milhões, mais 82 mil, mais 751 portugueses. Que votaram no PS, no Bloco de Esquerda e na CDU.
Quatro. Tendo a Assembleia da Republica legitimidade política e legal para legislar sobre esta matéria, como cidadão apenas espero que cumpra a sua obrigação. Defraudar a expectativa de mais de 3 milhões de portugueses parece-me tão absurdo quanto perigoso.
... Dito isto, acho a ideia do referendo, neste caso, uma espécie de piada de mau gosto sobre a essência da democracia. Ou um atestado de menoridade ao Parlamento e ao voto dos portugueses. Ou, pior ainda, uma batota típica de mau perdedor.
Não me fica mal lembrar, qual disclaimer, que desta vez não votei em qualquer daquelas 3 forças politicas que representam os tais 54,23%...
"Com que então, morreu António Sérgio. Ora muito obrigado. Obrigado, Deus, por teres decidido. E obrigado, António, por te teres deixado levar. Veio mesmo a calhar a tua morte. O teu trabalho aqui na terra estava mais do que acabado e, graças a Deus, há centenas de novos Antónios Sérgios para te substituir. Que grande pontaria.
O que andam vocês todos a tramar na afterlife? A afterlife é a mais cool de todas as after hours. Não é música toda a noite e todo o dia: é música toda a cabrona da eternidade. Já lá estava uma redacção de sonho: o Rolo Duarte, o Fernando Assis Pacheco,o Cáceres Monteiro, o Manuel Beça Múrias, o Afonso Praça, a Edite Soeiro, o Eduardo Guerra Carneiro. Com uns colaboradores que já não existem e cujos nomes são tantos e tão grandes que não nomeio sequer um, com medo de vos deprimir com a comparação com a lista dos que ficámos vivos.
Que jornal; que revista; que estação de rádio estão vocês a fazer aí no pós-vida? Não lá em cima, no céu, mas aqui ao lado, paralelamente, no after, no depois, no enquanto estamos a dormir e a viver.
A morte de tanta gente boa faz-me acreditar que, quando cada um de nós morrer, seremos bem recebidos. Haverá bons inéditos; bons jornais; boa música; bom cinema. Imaginem só Bach, Wagner, John Lennon, Ian Curtis, Stockhausen - e, para apreciar e descobrir o resultado, António Sérgio.
Como sempre, adiantaste-te. E nós vamos atrás de ti. Está certo. Foi sempre assim."
Texto de Miguel Esteves Cardoso, no Público de ontem.
Ia começar a copiar a crónica, porque não está disponivel online - mas ao ver que o Maradona já o tinha feito, zás: copy-paste. É pirata, mas eu sei que o Miguel deixa e o António Sérgio gostaria...