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Pedro Rolo Duarte

12
Dez07

Pensamento ocioso

Há muitos anos, quando começaram a entrar nos hábitos nacionais as telenovelas (então apenas da Rede Globo, na monopolista RTP), o meu pai, por dever de ofício, seguia os episódios e as tramas. Um dia, entrou na sala e eu estava a ver, como um extraterrestre, um episódio de uma dessas novelas...
Interrupção...
(Nunca segui uma telenovela. Aliás, nunca segui nada em televisão – e dou graças aos deuses que inventaram o DVD pelo facto de finalmente poder ver séries seguidas sem saltos nem desistências. Não digo isto como evidência de alguma qualidade, mas justamente como defeito que atrapalha as relações sociais: quando toda a gente fala de um episódio de uma série ou de um capitulo excitante de uma novela, eu vou, sei lá, buscar gelo, porque nunca sei do que se fala...).
... Recomeço...
Estava então eu a ver um bocado de uma novela qualquer e perguntei-lhe:
- Saberá explicar-me por que estão sempre todos ao telefone?
Telefone fixo, que estávamos ainda nessa pré-história da existência humana.
O meu pai explicou-me então, sumariamente, as regras técnicas da novela. Não me lembro de muitas dessas regras, mas lembro-me desta: o uso do diálogo telefónico – que muitas vezes é um monólogo, dado que só ouvimos a pessoa que vemos – é uma forma de abreviar a história e reduzir custos. O plano do actor ao telefone é fechado e fixo, não envolve mais cenários do que o existente, e faz a trama andar para a frente. Cria novas tensões, também. Quem fala ao telefone pode descrever cenas que seriam caras ou difíceis de gravar, e que podem por todos ser imaginadas. Além disso, poupa tempo, porque o interlocutor pode estar a descansar ou a preparar outra cena qualquer e o plateau está em uso enquanto se grava aquele momento. Em resumo: é barato e eficaz.
Hoje lembrei-me desta regra enquanto fazia zapping por entre canais de televisão.
E ocorreu-me uma primeira reflexão. A óbvia: com a vulgarização do telemóvel, as novelas devem ser ainda mais baratas e muito mais dinâmicas.
Logo a seguir, o “pensamento ocioso” do dia: um produtor mais afoito pode conceber uma novela toda feita ao telefone. Poupa muito. Tem patrocínio garantido. É inovador (o que pode afundar a coisa, claro). Mas mantém o essencial: intriga, negócio, conversinha, pobres, ricos, amor e traição. No fundo, tudo o que uma novela tem.
Ou melhor: quase tudo. Por qualquer razão o pensamento era ocioso.

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Retrovisor. Quem lia A.B.Kotter no velho Semanário habituou-se a gostar de ler José Cutileiro. Neste blog, a escrita é outra, mas continua a ser uma delícia. Pena que o "Expresso", que o tem como colaborador, não lhe dê mais espaço...

Uma boa frase

“Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más." José Cutileiro, Retrovisor

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