Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

10
Mai09

A critica que irritica *

 

Tenho idade que chegue para saber.

Mas há momentos mais dispersos, difíceis, trabalhosos, em que não tenho mesmo tempo para ser livre. Acabo navegando à bolina. Caindo aqui e ali na armadilha de confiar.

E foi assim que ganhei ontem uma carga extra de irritação. Passei na FNAC à tarde e andei pelos discos a ver o que havia de novo. Por duas vezes passei ao lado de “Zii e zie”, o novo de Caetano Veloso, porque pairava sobre ele “má imprensa”. Li critica negativa no “Público”, mais uns gozos nos blogues por causa do tema “Menina da Ria” (que se inspirou na Ria de Aveiro), e tenho ideia de ter lido também notas menos simpáticas na imprensa brasileira online, nomeadamente no Estadão.

Ou seja: fizeram-me a cabeça.

Eu, que nasci fã de Caetano e vivi a minha primeira noite de ao som de “Bicho”. Eu que ouvi fado ao vivo no Sr. Vinho sentado na mesa de Caetano. Eu, que promovi espectáculos de Caetano...

Fizeram-me a cabeça e por pouco ía saindo da FNAC sem o disco.

Mas a FNAC não irrita como a critica, e é o serviço público democrático que se sabe, com todos os defeitos que também sabemos. Bom, pelo menos na FNAC posso ouvir por mim sem depender das estrelas do “Público”.

E à terceira passagem parei para ouvir “Zii e zie”.

Assim, sem rodeios: o disco novo de Caetano Veloso é genial, ou pelo menos muito mais genial que os últimos quatro ou cinco, que foram muito bons mas não mais do que isso. Caetano Veloso regressa às canções, aos manifestos e ao amor. Regressa à melodia. Regressa às frases notáveis: “de onde vem o parar o mar?”. Volta a brincar com as palavras – “Lobão tem razão” – mesmo quando recupera a politica pura e dura em “A Base de Guantânamo”: “O facto de os americanos/ desrespeitarem os direitos humanos/ em solo cubano é por demais forte/ simbolicamente para eu não me/ abalar”.

Caetano recupera a guitarra – o tema “Perdeu” é um monumento... - e o ritmo da bossa nova, na versão por ele mesmo recriada nos anos 70 e 80. Agarra as pontas da sua criatividade passada e volta a cozinhá-las num prato novo. O resultado é um disco outra vez de Caetano Veloso - o Caetano dos seus ouvintes, e não, como vinha sendo hábito, um disco de Caetano a procurar alimentar a expectativa de uma modernidade forçada.

Tornando curta a longa história: ía caindo na esparrela da critica e deixando de fora da minha discografia seleccionada um disco notável de Caetano Veloso. Fui salvo pelo serviço publico da FNAC.

Felizmente, tenho um blog e posso dizer: bardamerda à crítica impressa, o disco novo do Caetano é bom todos os dias do ano. E agora vou dar uma volta a cantar “Eu nunca imaginei que nesse mundo / Alguma vez alguém soubesse quem é”...

 

* O erro é de propósito para a rima...

18 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Blog da semana

Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D