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Pedro Rolo Duarte

11
Jun09

O romance culinário

Aqui há dias, num daqueles inquéritos que os jornais e as revistas fazem quando manifestamente lhes falta assunto, perguntaram-me que livros andava a ler. Sou um leitor desorganizado, caótico, e muito pouco ortodoxo – e na mesa-de-cabeceira acumulam-se romances que comecei a ler e não acabei, livros sobre jornalismo que nunca abri, e até mesmo o famoso guia da dieta de South Beach, que por diversas vezes tentei aplicar, sempre sem sucesso, sempre sob o pretexto de que ainda não acabara de ler o livro, logo não fazia sentido iniciar a dieta…

Além disso, sou sincero: há períodos da existência em que o excesso de trabalho me deixa esgotado e sem paciência para a essencial e saborosa meia hora de leitura antes de adormecer. Não tenho a pretensão de ser um intelectual encartado…

Estava então a pensar nas respostas ao tal inquérito e fui ver quais eram os últimos livros em que tinha pegado. É fácil fazer esse levantamento: na pilha ao lado da cama, os que estão no topo são os mais recentemente manuseados.

Havia dois, ambos cheios de post-its colados. Tinham sido objecto de atenção há duas semanas, durante três ou quatro noites. Eram…

… Eram dois livros de receitas. Um, de cozinha indiana. Outro, de tapas espanholas (na realidade, bascas). Num primeiro momento, achei que não fazia sentido responder ao inquérito dizendo que os livros que andava a ler eram sobre temas culinários. Mas depois pensei melhor e aceitei esta realidade, que partilho hoje: ler livros de receitas, livros sobre gastronomia, constitui para mim um prazer comparável à leitura de um romance, de um conto, às vezes até de um poema.

Desde que descobri os prazeres da cozinha, há dez anos, a vida ganhou um novo ponto de apoio, uma espécie de rumo alternativo. Eu era apenas um apreciador da boa mesa, um amante do sabor apurado – mas à medida que me fui aventurando nos tachos e nas panelas, tornei-me um “especialista amador”, um apaixonado pelos sabores, um militante dos cheiros, dos temperos, dos condimentos. Estou longe de ser um cozinheiro, ou de ter com a confecção a relação de confiança que tenho com as palavras e a escrita, mas esse caminho é cada vez mais óbvio para mim e sinto uma felicidade difícil de descrever quando dou mais um passo, quando descubro um segredo, quando vejo pessoas felizes à mesa lá de casa. Cozinho praticamente todos os dias, e é um dos momentos sublimes dos meus melhores finais de tarde - chegar a casa, entrar na cozinha e perguntar-me, sem sequer pensar se sou só eu à mesa, se somos dois, se somos seis: o que vou fazer para o jantar?

Este “novo” amor que se instalou no meu mundinho teve consequências para lá de visitas frequentes às lojas especializadas: fez aumentar brutalmente a biblioteca de livros sobre estas matérias. E esse aumento fez nascer uma nova paixão: a leitura dedicada de receitas, de truques, de dicionários sobre especiarias, molhos, culinárias de todo o planeta.

Quando leio uma receita, vou imaginando o seu resultado, pensando em alterações possíveis, adaptações ao meu paladar ou aos condimentos que estão disponíveis. Muitas vezes imagino também as pessoas para quem cozinharia, ou as circunstâncias. Como se costuma dizer, “viajo na maionese”…

… E nessa viagem percebo que um livro de receitas pode ser tão rico, emocionante e, vá lá, “saboroso”, como o romance mais fascinante. Foi por isso que, na resposta ao tal inquérito preguiçoso de jornal, não hesitei - à pergunta “que livro anda a ler?” eu respondi sumariamente, mas de peito cheio: um excelente romance cheio de receitas culinárias…

 

Crónica originalmente escrita para a revista Lux Woman.

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