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Pedro Rolo Duarte

27
Jun09

Não sejas Lino…

I hoje é assim, mas desta vez deixo a crónica, ligeiramente editada, que podem ler na revista deste sábado, “Nós Desconfiados”…

 

Estava a olhar para a primeira página do Expresso da semana passada e parece que se acendeu a luz sobre o que queria escrever. Eu queria escrever sobre a “desconfiança óbvia” – ou seja, sobre a repetição sistemática do engano, da trapaça, do dito por não dito, da mentirinha, aquela repetição que começa por ser erro e se transforma progressivamente em traço de personalidade. Ou como costumamos dizer, “não é defeito, é feitio”. E de como a repetição do “acaso” resulta na eternização da desconfiança.

E foi mesmo isso: feitio em vez de defeito, ou defeito passado a feitio. Na primeira página do Expresso, há oito dias: Mário Lino diz que já não tem idade para estar no Governo, não admite vir a ser deputado, mas “não quer ficar parado”. Em circunstâncias normais, eu leria a entrevista e pensaria “bom, é natural, o homem tem 70 anos, está farto disto, bla bla bla”.

Mas o problema é que quem diz isto é Mário Lino. O Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações recordista de gaffes, ditos por não ditos, sapos engolidos e asneiras passadas a ferro nos jornais. Alguém confia naquilo que diz Mário Lino? Alguém lhe compra um carro… novinho em folha?

Eu não. “Jamais!”

Mas isso não é o pior – o pior é que Mário Lino vai alimentar a fogueira com que os portugueses brindam os políticos. Ele passou por este mundo, aterrará em breve, senão num lugar de estado, numa qualquer administração de empresa agradecida, e a vida segue tranquila. Mas do lado de cá fica o seu contributo para a desconfiança generalizada naqueles que governam: o militante do PCP que acaba no PS; o candidato autárquico de Oeiras que nunca exerceu; o ministro que defendia a Ota e engoliu Alcochete; o homem que chamou “um deserto” à margem sul do Tejo, depois de ser responsável pelas finanças do PCP e ter participado na decisão de comprar a Quinta da Atalaia para a Festa do Avante; o homem de Estado que foi a Santiago de Compostela dizer que era iberista; o engenheiro que sublinhou os prazos do TGV e depois engoliu o adiamento…

… Enfim, o homem que esvaziou o sentido das palavras ao ponto limite de ser indiferente o que quer que diga ou queira dizer. Mário Lino é o cartaz da desconfiança nacional – e simultaneamente o seu símbolo. É, a um tempo, a causa e o efeito. Não me espantaria se o seu apelido se tornasse adjectivo:

- Disseste que pagavas o almoço e agora dizes que não tens dinheiro? És cá um Lino…

- Não te armes em Lino e cumpre lá o que prometeste…

É fácil brincar com os efeitos perversos deste tipo de políticos no povo. Gozamos com as frase “são todos iguais!”, “querem todos o mesmo!”, “cambada de chupistas!” - mas elas resultam dos Mários Linos que ao longo de décadas têm passado pelos gabinetes do poder com os “Jamais!” desta vida e as ideias atamancadas em trabalho mal feito ou por fazer.

Não surpreende, por isso, que se possa atribuir aos portugueses esse lado desconfiado e de sobrolho levantado. Afinal, foi exactamente assim que me senti quando vi o Expresso e li “Já não tenho idade para estar no Governo”. Quem disse?

- Quem disse? Mais um Lino qualquer…

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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