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Pedro Rolo Duarte

20
Jul09

A bolha

(Crónica originalmente publicada na revista da sábado do "i" de dia 18 de Julho, "Nós Consumistas")
Sempre que leio análises, perspectivas, editoriais, sobre a crise, consigo perceber nas palavras dos especialistas uma ideia básica: a da bolha. É uma ideia com tradução imagética simples, e isso agrada-me. É possível observar a bolha em crescimento, aquela insuflar metódico e regular, e aferir o caminho que conduz à explosão. Nós sabemos que vai explodir.

Quando brincamos com bolhas de sabão – aos cinco anos, e mais tarde quando os nossos filhos chegam aos cinco anos… -, conseguimos perceber claramente o momento pré-explosão da bolha. Sabemos que daquele instante para a frente, pode ser em qualquer momento. Os nossos filhos adoram a surpresa – e nós passámos pela surpresa há muitos anos e, vá lá saber-se porquê, não esquecemos. É uma questão de tempo.

Ainda assim, às vezes enganamo-nos. Pelo menos, no meu caso, é de engano que se trata: há mais ou menos 30 anos que espero uma explosão que, afinal, não ocorre. Uma bolha que cresce mas não rebenta. Uma borbulha sem fim à vista. E se digo 30 anos, talvez pudesse dizer 35 ou mesmo 40. Trata-se apenas de definir o momento em que me apercebi que as marcas eram como os filhos: não paravam de crescer. O Nestum com mel da minha infância já tinha sido acrescentado ao Nestum base, ao Nestum com Figos, ao Nestum com Maçã. Depois veio o Nestum iogurte, o Nestum em barras, o Nestum com Smarties, o Nestum com farinheira, o Nestum em vinha de alhos…

Como antigo consumidor de Nestum, segui a “carreira” do produto – mas com o passar dos anos, e com a colaboração da condição de pai, comecei a ver crescer outras bolhas: as dos iogurtes, dos leites, das manteigas, das águas, das cervejas. O que antigamente era linear – havia cerveja Superbock e Sagres, mini, preta e algumas marcas importadas -, tornou-se um inferno para o consumidor: há cervejas que pretendem imitar imperial, minis que não são Sagres, cervejas para substituir vinho tinto. Há águas que contrariam a única vantagem efectiva da água – não ter sabor -, exibindo-se com “travo” a morango - e até há margarina sem colesterol, como se alguém que voluntariamente compra margarina queira, de alguma forma, que ela seja livre dos seus tão saborosos venenos… O molho dos “bifes à meu pai” que o diga.

Ir ao supermercado, nos dias que correm, tornou-se tão difícil quanto viver: nunca se sabe o que se pode estar a perder, e menos se sabe quando se está a ganhar.

O problema é que a bolha nunca mais explode. Cada vez que vou às compras, tenho a esperança sonhada de um regresso ao começo: a bolha explodiu e…

… E no corredor dos lacticínios há leite, nas manteigas há manteiga, nos iogurtes há iogurte natural, de morango, banana e chocolate; há queijo com queijo e cerveja com álcool; há chá preto; há açúcar: há ovos e fiambre e bacon. A bolha explodiu a já não há espaço para ovos injectados com ómega 3 e bacalhau sem espinhas e pele, ou Smints em barra energética, ou cozido à portuguesa em flocos sem açúcar e 0% de gordura. Não, isso não acontece. Nunca vai acontecer.

Sei que é apenas um sonho. Mas também é certo que o verdadeiro consumista sonha com o dia em que se possa queixar de já não ter por onde escolher. Porque o consumista quer a escolha – mas também quer quem escolha. Lá está, é português de certeza: nunca está satisfeito.

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