Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Aqui há uns tempos, o Ferreira Fernandes disse-me algo que ficou a pairar sobre a minha existência. Foi taxativo: para ele, o Maradona era o único autor de língua portuguesa realmente inovador desde Miguel Esteves Cardoso.

Quem conhece o Ferreira Fernandes sabe que ele é atento e emotivo – duas condições essenciais para se poder exagerar um pouco. Agora, que ando mais atento ao que se escreve e a quem escreve, estou tentado a dar-lhe razão.

Maradona, que tem escrito de vez em quando na revista de sábado do “i”, tem realmente esse golpe de asa (estilo, substancia, forma, jeito, tudo junto e mais umas botas...) que distingue alguns – e em geral os separa daqueles que já existem.

Era nisso que estava a pensar há bocado quando li, na Sábado, a crónica de Alberto Gonçalves “A Tremura dos Quarenta”, modestamente dedicada à idade a que está a chegar. O sociólogo escreve bem e chega a ter graça – mas quem lê há 30 anos Vasco Pulido Valente só pode esboçar um sorriso: Alberto Gonçalves é o VPV dos pequeninos. E nem sequer evita que se note a colagem: escreve aos 40 anos, pobremente, a crónica sobre si próprio que o Vasco escreveu magistralmente aos 50 (“Eu sempre fui assim”, na revista “K”). Impressiona este encosto ao estilo do Vasco, à sua ironia ácida, e até a alguns tiques e manias que Alberto Gonçalves exibe como sinal exterior de uma idade que não tem.

Mas isto não tem mal nenhum – mais vale ter um estilo, neste caso um estilo VPV dos pobrezinhos, do que não ter estilo algum, que é mais o que sinto quando, por saber fazer revistas e jornais, me dão a oportunidade de também publicar umas crónicas.

O que é triste verificar é que há estilos que se copiam, repetem, aperfeiçoam, desenvolvem – tudo bem... -, mas continuamos a sentir falta de novos estilos, novas maneiras, novas formas de construir ideias e as transformar em prosa.

Tinhas razão, Ferreira Fernandes: temos o Maradona. Mas precisamos de descobrir mais um ou dois para a próxima década...




Comentários:
De Blondewithaphd a 24 de Julho de 2009 às 09:08
Estou com enorme pressa, senão comentava melhor. Mas... nem só de inovações se fazem as gerações de autores e a cada um o seu estilo. Um MEC escreve na voragem das palavras, um MST suaviza um estilo literato, um PRD envereda pela lucidez jornalística, agora vem este Maradona. Sim, ando curiosa, acho que tem o talento da mistura "impromtu", se é que isto se pode dizer (aquela crónica dos caracteres tem a ideia do ovo de Colombo, tão simples e afinal quem se lembraria, não é?).
Já ia, de qualquer modo ler a Sábado no comboio para o Porto, agora começo a leitura pelo Alberto Gonçalves, just to check:)
Ó Pedro, gostei imenso deste post!!


De patrícia a 24 de Julho de 2009 às 10:01
Ó Pedro, mas confesse lá... VPV ou sem VPV, v. não se importaria nada de escrever como o Alberto Gonçalves, pois não!?


De Margarida a 24 de Julho de 2009 às 18:39
Se calhar o Pedro só leu agora o Alberto. Vou esperar que sim; que tenha andado distraído há uma meia dúzia de anos. Sucede. Também não leio muita boa gente e sei pouco sobre uma quantidade imensa de coisas.
Ele pode até ter um estilo “à la VPV” – que o admira muito, sabemos – e que melhor elogio a alguém, do que seguir-lhe o estilo? Há linhas teóricas, directrizes e horizontes nas abordagens temáticas. Há género.
Tantos ‘aprenderam’ com o VPV e com o MEC e com outros, fora de fronteiras.
Aprender é glorioso, apesar de criar parecer mais valoroso.
Respeito as outras opiniões e, mesmo quando contrárias às minhas, procuro entender mais, comparar melhor. Mas, no caso, além de conceder que o estilo deliciosamente ácido, e a verrinosa crítica levem a inspiração ‘vasquiana’, não posso concordar com mais nada. O estilo que gaba é bizarro – mas talvez seja um preconceito que terei de combater, e isso são contas de outro rosário – e o Alberto Gonçalves é o melhor cronista da imprensa nacional.
Sim, percebo o quão absurdo uma afirmação taxativa destas pode parecer, mas garanto que leio outros, muitos outros, que gosto imenso deles - um até ‘de paixão’-, mas a clareza é mesmo esta: o Alberto é o melhor.
Leia mais. Retroactivamente. O livro de crónicas, inclusive.
Se o fizer, até acedo a fazer o mesmo com o blogue do ‘Maradona’ (“amor com amor se paga”).
A semana é contada pelos seus dias (D.N.) e a “Sábado” começa a ler-se pelo fim.
Eis o mundo do Homem.


De PNEIRA a 25 de Julho de 2009 às 09:50

BATEM-LHE MUITO.
POR QUE SERA'? ...
ESTOU CONSIGO NAS CONSIDERAÇOES SOBRE A ESCRITA DO TAL GONÇALVES.SO' PENACHO...

QUEM LE O PEDRO TEM DE ESCLARECER SE GOSTA DE O LER OU SE O LE APENAS PARA O ATACAR.




De acatar a 29 de Julho de 2009 às 00:21
O maradona já não me surpreende há muito tempo.

anda demasiado preguiçoso...

um dia passa-lhe.


De Ricardo a 4 de Agosto de 2009 às 11:04
Leio um e outro e não creio que sejam parecidos. Quando muito partilham um certo ethos snobe e naturalmente maledicente. No resto: estilo, assunto das crónicas, "tipo de visão" sobre as coisas, em nada me parecem semelhantes sequer.


Comentar post



Ler mais

Ler mais
2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


 





i num instante...
Antena 1
Janela Indiscreta em texto
Janela Indiscreta em rádio
O novo programa na Antena 1 (com o João Gobern), Hotel Babilónia
O meu momento de glória no Biography Channel