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Pedro Rolo Duarte

16
Ago09

Saudosista, eu? Nem por isso

(Há crónicas de que gosto. A que saiu na revista do “i” de ontem foi uma delas, nos últimos tempos…)

 

Saudades de ontem. Saudades de há bocado. Saudades do que não vivemos. Do que vivemos. Do que o meu melhor amigo viveu. Saudades tuas. Saudades de viver daquela forma. Sem telemóvel. Ou com telemóvel, mas pouco. Saudades sem fax. Saudades do fax. Saudoso desse tempo em que as pessoas se olhavam nos olhos. Saudades de quando só falava pelo Messenger. Saudades dos “bip’s”, que eram twitters decentes e criteirosos. Saudades do “i” quando nasceu, era um jornal totalmente diferente. E a revista de sábado, era óptima no começo – mas agora perdeu a graça, sempre igual, aquelas capas e assim.Saudades do jornal que nunca comprei mas lamentei quie tivesse morrido., Saudades do canal 2 da RTP, que nunca vi mas sempre disse que via sempre. Saudades da SIC “com o Rangel, no começo”. Saudosista, eu? Nem por isso.

Bom, na verdade saudades da galinha corada da Dona Emilia, esposa do Sr. Pinto, dono do café onde aprendi a jogar matraquilhos, onde vi o homem chegar à Lua, e onde ouvi a história do primeiro voo não tripulado do Sr. Pinto, na ponta de um ramo de numa árvore qualquer. Tudo no Penedo.

Saudades do meu pai. Do meu irmão.

Saudades de quando tinha a certeza que alguns amigos eram meus amigos. Saudades de me apaixonar como já me apaixonei.

Saudades das sombrinhas de chocolate, dos cigarros de açúcar branco, dos gelados bola de futebol da Olá. Saudades do cheiro da estrada depois de chover na Serra de Sintra.

Saudades de ler “Como Ser Bom”, do Nick Hornby, e perceber o sentido que fazia o que eu sentia e não sabia que raio de sentido podia fazer. Saudades de não ler nada. De ler tudo. De pensar no que os os outros pensam de nós. Ou não.

Saudosista, eu? Nem por isso.

Apenas saudoso do cheiro das borrachas e dos lápis e da madeira das mesas do Externato Santa Joana a Princesa. Do cheiro que vinha da cozinha pelo meio-dia, quando se aqueciam as refeições e sabíamos que a seguir havia recreio.

Saudades dos autocarros de dois andares e da minha irmã a dizer “vamos lá para cima, cá em baixo cheira a gente”. Ou do meu irmão fazer ataque aéreo sobre as minhas cidades de Lego.

Saudosista, eu? Nem por isso.

Convocando, de raspão, a primeira noite a dormir numa tenda no deserto, o calor húmido da chegada a Havana, o jantar japonês a centenas de metros de altura em São Paulo. Ou, na verdade, a primeira noite sob o tecto da Boavista.

Não sou saudosista, nada disso. Recordo coisas do passado e evoco-as porque, como Neruda, “Confesso que Vivi” - e gosto de saber que vivi dizendo e voltando a dizer que vivi, contando e recontando o mesmo episódio, lembrando como se nada deixasse de me pertencer, como se nada me deixasse da mão. Como se construísse a minha Torre do Tombo - aquela onde seguramente me vou asfixiar de passado e memória, de cheiros e papel, quando menos esperar. Seguramente, quando menos quiser. Como no conto de Patricia Higsmith em que o coleccionador de caracóis morre asfixiado pelo excesso de espécies de que se rodeou….

Não sou saudosista, nada disso. Mas às vezes lembro-me de coisas e falo disso.

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Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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