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Pedro Rolo Duarte

29
Ago09

A vida sem “smirting”...

(Já saiu a Lux Woman deste mês, onde escrevo uma carta à Bibá Pitta.... Esta foi a crónica do mês passado, e gostei dela...)

 

Três anos depois, de volta a uma redacção de um jornal diário, noto diferenças. Não são grandes, mas são diferenças: a Internet tornou-se o recurso primeiro, o que diminui o ruído (embora aumente o risco de asneira...), os horários são menos degradantes da relação entre os jornalistas e as horas de Sol, os telefones tocam cada vez menos (e até se estranha quando há vários a retinir ao mesmo tempo). Parece que o jornalismo está ligeiramente mais asséptico. Não sei se é bom ou mau, mas registo o facto.

Para mim, no entanto, a grande inovação é outra e tem nome: “smirting”. Chega a Portugal tarde, à medida que as leis assim o forçaram. Já lá vou. Devo começar por confessar que o “smirting” deixou-me de fora num jornal que, por ser novo, foi feito com um generoso grupo de pessoas que não se conheciam, muitos estagiários, cruzamentos de diferentes gerações. Tento recuar no tempo e pensar como se aproximavam ou afastavam as pessoas nos outros jornais que nasceram do nada? Como é que era antigamente?

Era assim. Pela proximidade física ou temática (a mesma secção, trabalhos em curso, ódios e amores de estimação), as pessoas começavam a partilhar conversas ligeiras, hora do café, transportes públicos, depois almoços, e por fim noitadas. A ordem não fugia muito a isto. Daí para a frente, cada um por si e as relações chegavam onde fatalmente tinham de chegar. Seria outra crónica.

Para esta interessa-me que, na redacção onde passo parte dos meus dias, parece-me que antes e depois das aproximações clássicas, que também incluem o reencontro de colegas de escola, houve algo que distinguiu desde o começo este “grupo de trabalho”, como diriam no futebol: os que fumam, os que não fumam.

E os que fumam têm de vir à rua, ou subir à varanda, o que garante o mais puro “Smirting” – ou seja, a fina mistura de “smoking” com “flirting”. Fumar e “flertar”, se o verbo “flertar” existisse – não existe, mas por mais que procure alternativas, não encontro. Os brasileiros é que sabem: dizem “paquerar”. Fui claro? Muito bem: isso é “smirting” e é assim que hoje se conhecem pessoas, nascem amizades, cumplicidades, paixões. Vejo os meus colegas passarem por trás de mim a caminho da rua, cigarro na mão, isqueiro, às vezes até lhes noto a ansiedade da falta de nicotina...

Eu estou fora desse grupo que pratica “Smirting”. Deixei de fumar há três anos e meio, como é público, e não me arrependo - mas sinto-me de alguma forma excluído. De quando em vez ainda me perguntam se tenho “lume”, mas por que raio haveria de ter?

Vejo na net que um irlandês, David Lowe, terá escrito um livro com truques e conselhos sobre “a arte” de “smirting”, recordando que quando há chuva (e frio, e neve, e gelo...) a probabilidade de sucesso (no romance, óbvio...) é maior, que fumar também é uma arte que exige estilo e pose (ele sugere o estudo de Marlene Dietrich e James Dean, de cigarro na mão...). Há um momento nostálgico que me invade: logo eu, que sabia tudo sobre fumo e tabaco, profissional do vício, dois a três maços por dia... Estaria na frente dos militantes da porta de trás.

Não estou. Conheço menos gente nesta redacção de jornal. E com isso posso perder boas amizades, quem sabe um romance escaldante. Só posso ter uma certeza: continuo a vencer todos os dias a guerra que declarei em Abril de 2006. Sem “smirting”, mas a respirar fundo sem tossir. E sem stress na hora de escrever esta crónica sem um cigarro ao lado.

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