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Pedro Rolo Duarte

05
Set09

Sobre as mulheres

Gosto de livros de citações e aforismos. Gosto de frases curtas que condensam, com humor, ironia, ou apenas sabedoria, o que muitas vezes dizemos usando frases longas e argumentações maçadoras. Tenho uma generosa colecção de livros que compilam toda a espécie de citações – das mais óbvias às mais inesperadas -, e não hesito em usá-las sempre que me dão jeito. Como tenho uma memória galinácea, raras vezes consigo ter sucesso. Mas tento...

E às vezes até me lembro da frase e de onde a encontrar. Para esta crónica, interessa-me o mais genial de todos os meus livros de citações, uma edição do jornalista brasileiro Ruy Castro sob o titulo “O Melhor do Mau humor”. São frases assassinas, cortantes, primorosamente seleccionadas, que gozam, ridicularizam ou apenas arrasam os seus alvos. E para os devidos efeitos preciso desta, assinada por Ambrose Bierce: “Dá-se melhor com as mulheres aquele que sabe dar-se bem sem elas”.

Mentira. Redonda mentira. Eu não viveria num mundo sem mulheres, e no entanto não deixo de as admirar. Trabalho com mais mulheres do que homens, dou-me bem trabalhando com mulheres. Reconheço-lhes, em geral, maior dedicação, rigor, criatividade e capacidade de resolver problemas. Aprecio a sensibilidade feminina e a forma como uma mulher leva a água ao seu moinho, mais requintada, discreta e eficaz do que um homem - que deixa o caminho encharcado de água que nunca chegará ao seu sítio.

Ainda assim, tenho a certeza de que viver sem mulheres seria a coisa mais entediante e aborrecida que me poderiam dar. Nem falo do óbvio – falo apenas do que se subentende nas palavras que, lá está, não direi... A frase de Bierce não faz sentido, ponto final.

O mais interessante do tema, no entanto, é que as mulheres são provavelmente as maiores defensoras de um mundo... sem mulheres. Não querendo generalizar, e não pretendendo um debate sobre direitos, garantias e paridade, custa-me reconhecer que seja no campo feminino que se podem encontrar as maiores inimigas do mesmo sexo.

Há poucos meses comecei a moderar um programa de televisão, num canal de cabo, onde só participam mulheres. A ideia era simples: pegar nos temas de actualidade e deixá-los em debate com mulheres de opinião forte e consistente, entre um painel fixo e uma convidada semanal. Não há no programa nada de sexista ou discriminatório, pela positiva ou negativa, mas o reconhecimento de que as mulheres observam o mundo de um prisma especifico – e como a televisão está pejada de programas com homens a dar palpites, podia fazer sentido marcar esta diferença. Tem corrido bem.

Mas o mais interessante tem sido ver como me abordam as pessoas quando me falam da emissão. Há homens que gostam, homens que não gostam, homens para quem “aquilo” é indiferente. E depois, há dois tipos de mulheres que me falam do programa: as que gostam, e as que perguntam “como é que consegues viver naquele galinheiro?”. Em casos mais contidos: “deve ser difícil ouvir tanto mulherio...”. Em casos mesmo muito educados: “é fácil moderar quatro mulheres assim?”.

São elas que depreciam um programa onde as suas pares falam. São elas que colocam a emissão nesse patamar. E são eles, os homens, que “normalizam” tudo falando de um programa, mais um programa, entre tantos...

Volto ao livro das citações: é de uma mulher a frase “Uma mulher sem um homem é como um peixe sem uma bicicleta”.

Eu gosto de moderar um programa onde mulheres inteligentes falam sobre o que aconteceu na semana. Não me sinto um estranho entre elas, mas um profissional a fazer o seu trabalho. E concordo com o homofóbico brasileiro António Maria no livro que acompanha esta crónica do princípio ao fim: “A única vantagem de viver na companhia de uma mulher é a mulher. Aponte outra”.


Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman - e o facto de Manuela Moura Guedes ser a figura da semana é mera coincidência. A minha politica é o trabalho, como diz o povo...

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