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Pedro Rolo Duarte

19
Set09

Por falar nisso: Benfica

(Hoje, sábado, na revista do i, dedicada à fidelidade: "Nós, Fiéis")
Queria escrever sobre o facto de não me reconhecer nas esquerdas que se dizem de esquerda, ainda que não me sentisse à direita. E então comecei um post, no meu blog, assim: “Nasci do Benfica e de esquerda. Quanto ao Benfica, nada a fazer: é qualquer coisa que vem de dentro, e que não sai com o tempo, nem convoca mudança de opinião. Nem opinião sequer. É um facto. Quanto à esquerda, ainda que haja matrizes de pensamento que não mudam, ao assistir a um debate entre esquerda e ainda mais esquerda, não consigo deixar de confessar que não me reconheço naquelas esquerdas”.

E lá me expliquei. O mundo dos blogues tem esse fascinante submundo dos comentários, onde as pessoas tratam o autor de um blog umas vezes com amizade, carinho, admiração, mas também com ódio, como se ele fosse funcionário do Estado, como se fosse criado do leitor, como se tivesse “obrigações”, “deveres” para com aqueles que frequentam o blog. É divertido, embora muitas vezes seja apenas patético.

A respeito deste post, e da frase fatal – “Nasci do Benfica e de esquerda” – uma leitora, também ela autora de um blog, escreveu um comentário onde às tantas diz o seguinte: “Afirmar isso é apenas um exercício de ignorância muito mal conseguido, no que concerne a questões políticas. Quanto ao Clube de futebol nem me pronuncio sequer. Eu não nasci de Direita nem nasci sob o signo de qualquer Clube de futebol. Triste de mim se assim fosse, mas isso sou eu que gosto de me debruçar demoradamente sobre algumas questões”.

Associou a minha frase à ideia da “liberdade condicional”. E eu, que por regra não respondo a comentários, sorri. A leitora não percebeu até onde vai a profundidade desta frase: “Nasci do Benfica e de esquerda”...

... Ela radica justamente na mais pura e ingénua ideia de fidelidade. Porque a matriz de cada um de nós é modelada pelo ambiente em que crescemos, até quando optamos por divergir. E qualquer reflexão sobre a fidelidade – em qualquer dos seus patamares e modelos – não é mais do que a extensão da nossa existência primordial.

É claro que nasci “nada” – mas qualquer miúdo português, lisboeta, filho de jornalistas da classe média, que tenha feito 10 anos em 1974, sente que nasceu de esquerda. E muito provavelmente, do Benfica. É por uma questão de fidelidade – mesmo quando essa fidelidade passa pela tentação de contrariar a família e ir radicalmente parar ao lado oposto – que ao longo dos anos desenvolve esse afecto, ou descobre o equívoco.

O que eu pretendia distinguir era a fidelidade irracional, de um domínio incompreensível e tantas vezes frustrante – e que me leva a persistir em dizer que sou benfiquista, quando devia há muito ter desligado o botão do universo do futebol... -, da outra fidelidade, que só a estupidez e muita casmurrice podem alimentar para lá das evidências.

Que, em 2010, eu ainda seja do Benfica, trata-se de uma fidelidade compreensível e aceitável. Que, ao mesmo tempo, eu mantivesse os dogmas da esquerda que nos anos 70 se me colaram à pele, seria não apenas absurdo, como pouco inteligente. É entre estas fronteiras que me encontro, enquanto fecho esta edição e confesso preferir um fiel amigo, o bacalhau, a um infiel desertor do Benfica. Pior seria apenas eu não ter percebido que esquerda era aquela onde nos anos 70 do século passado eu vivi e me diverti numa inocente e ingénua adolescência.

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