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Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Originalmente publicada na revista Lux Woman, há poucos meses.
Cara Bibá:

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que falámos. Não nos conhecíamos de parte alguma, ainda que eu soubesse quem era – sou um consumidor de revistas sociais… Coincidimos numa estreia de cinema e a Bibá ficou sentada uma fila à minha frente. Chegou em cima da hora, cumprimentou-me, pediu desculpa pela súbita confusão causada pela chegada ruidosa com marido e filhos. Disse uma ou duas banalidades, eu devo ter respondido na mesma moeda, e ficámos assim.

De si, tinha a ideia de uma dondoca cuja actividade principal consiste em aparecer em revistas e rir e mostrar a casa, a família e o periquito. Não lhe conheço profissão, e sempre me causou espécie o generoso número de pessoas que existe socialmente sem ter qualquer actividade conhecida ou obra que se visse. A Bibá, para mim, estava nessa prateleira onde abundam nomes estranhos e apelidos compostos. Lilly, Vicky, Pequenina, enfim…

É certo que se distinguia no meio da “multidão” que os fotógrafos perseguem por uma pose mais descontraída, ou apenas histriónica, que acaba por ganhar protagonismo. Mas isso não distinguia a árvore da floresta. Até ao dia 28 de Junho do corrente ano.

Nesse dia, um domingo, dei comigo a ler uma matéria numa revista cujo título era este: “Bibá não tem medo da palavra mongolóide”. E na entrada da matéria Bibá passava a Maria Gabriela de Viterbo Pitta Gouveia. E contava-se a história do livro escrito com a jornalista Inês de Barros Baptista sobre o cromossoma da Trissomia 21 que marcou um dos seus filhos - a Madalena, hoje com 11 anos.

Li o trabalho da jornalista Ana Rute Silva, que recolheu o testemunho e o transformou numa espécie de depoimento extenso, quatro páginas, sempre pontuadas pelo seu sorriso e o da sua Madalena.

E sabe o que senti, Bibá? Senti um misto de vergonha e de constrangimento. Por mim e pelos meus preconceitos. Especialmente pelos meus preconceitos – os mesmos que levam qualquer um de nós a fazer julgamentos prévios sobre pessoas que não conhecemos, os mesmos que nos empurram para a frases taxativas e as condenações sumárias. Agora, ao ler o seu testemunho, engulo as lágrimas que levam com elas esse olhar ligeiro e leve com que a sociedade nos vai ensinando a viver.

Todos os dias, por todos os lados, no autocarro ou num blog, num jornal ou no barbeiro, ouvimos os julgamentos sumários, os palpites, ouvimos até noticias que nunca ninguém viveu. Raramente pensamos que, por detrás de um sorriso ou de um vestido esvoaçante, está uma pessoa igualzinha a nós. Que se mostra? Que gosta de sorrir? Que tem uma vida social? E daí? Quem somos nós para catalogar, crucificar, menosprezar ou idolatrar os outros?

Cito-a, Bibá: “Costumo dizer que a minha filha foi feita com tanto amor que nasceu com um cromossoma a mais”. A frase até podia parecer tonta, se não viesse acompanhada de uma reflexão profunda, de um desabafo despojado sobre a tristeza e o luto, sobre a realidade com que se confrontou: “quem acredita que um bebé diferente é obra e graça de Deus está enganado”; “Com a Madalena, aprendi a ter objectivos e não expectativas. Cada dia é um dia”.

Claro que quero ler o livro. E claro que esta carta serve apenas par lhe dizer: bem haja, Bibá, por existir e ser como é. Mais ou menos histriónica, mais ou menos “socialite”, mais ou menos sempre em festa. O que fez com a sua Madalena, pela sua Madalena, e por todas as Madalenas deste mundo, chega e sobra para justificar as páginas de revista sem história e responde a quem vê o Mundo apenas com uma cor. E não consegue sequer sorrir.



publicado por PRD às 12:54
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12 comentários:
Silvia Cardoso
Caro Pedro,
Ao ler o seu post, veio-me à memória aquela frase tantas vezes citada d' "O Principezinho" : "O essencial é invisível para os olhos"...
Sabe, é um mal muito comum: nós só olhamos para o que está à superfície, e nunca nos damos ao trabalho de olhar com um pouco mais de atenção. Eu ´já fui assim preconceituosa como o Pedro ( também nesse contexto), e também já fui vítima desses proconceitos...As pessoas conhecem-nos mal, não se dão ao trabalho de nos conhecer melhor, ficam com uma ideia bastante distorcida acerca de nós, e... é doloroso, e profundamente injusto...

Silvia Cardoso

deixado em 2/10/09 às 15:35
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Ze Maria B
Grande texto. Obrigado

deixado em 2/10/09 às 17:40
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Obrigada Pedro. MUITO.
Obrigada, Bibá. Muitíssimo, obrigada. Pelo livro.

deixado em 2/10/09 às 20:58
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POis é Pedro! Eu também tinha o mesmo tipo de preconceito contra a Bibá. Ainda por cima, vivendo na mesma zona que ela e tendo quatro filhos, sou muitas vezes confundida com ela (há mtª gente que nos acha parecidas...). Nunca a conheci pessoalmente, apesar de já me ter cruzado com ela e com a Madalena. Ainda não comprei o livro, mas vou comprar de certeza!

deixado em 4/10/09 às 17:41
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João M
Parabéns Pedro

Um texto que me tocou.

Bem haja também por pensar assim.

deixado em 4/10/09 às 22:33
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-Fala com Elas-
merci!!!!
tá a ver como fica mto melhor c/ o 2º botão da camisa desabotoado... tamos aqui tamos completamente radicais!!!!
agora ...podíamos deixar crescer 1 pouco esses caracois tão apertados p/ os tornar + soltos,
sei lá ....
ñ?

deixado em 4/10/09 às 23:50
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Juca
O Pedro tem andado mesmo distraído. A situação da Bibá e a sua luta tem anos. Que é que tem feito nos últimos tempos?

deixado em 5/10/09 às 16:48
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Penso que todos nos "reduzimos" à nossa humanidade quando nos revemos naquilo que podem ser as "desgraças" dos outros.
A profunda humanidade do outro vem ao de cima e os preconceitos desvanecem-se.
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Penso que todos nos "reduzimos" à nossa humanidade quando nos revemos naquilo que podem ser as "desgraças" dos outros. <BR>A profunda humanidade do outro vem ao de cima e os preconceitos desvanecem-se. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Bibá</A> Pitta "lembrou-nos" a todos da existência do síndrome de Down e de como convive bem com essa realidade. "Humanizou-se", portanto. <BR>Obrigado por este texto, Pedro. <BR>

deixado em 7/10/09 às 17:47
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Maria Santos
Caro Pedro, acabei de ler este texto magnifico e resplandecente de VERDADE!!!! E foi esta VERDADE sua que me fez pensar nos meus preconceitos, também. Obrigada pela estatura da sua moral
Um abraço

deixado em 11/10/09 às 15:56
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Olá Pedro,
há uns tempos que não o visito. adorei ver o texto que a bimby_girl 'começa a falar' com o bimby_boy.
Arrancou-me um sorriso.
A 'bimby_girl' tem andado um bocadito mal do coração, as miúdas às vezes têm destas coisas...amores! E os miúdos que são uns casmurros e não querem sofrer? Escreva sobre isso qualquer dia...
Hoje mesmo se for à Fnac vou comprar o livro da Bibá que quero muito ler.
bjinho e bom fdsemana
uma_bimby_girl_que_parece_que_tem_o_coração_na _velocidade_7

deixado em 16/10/09 às 14:52
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