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Pedro Rolo Duarte

02
Out09

Carta aberta à Bibá Pitta

Originalmente publicada na revista Lux Woman, há poucos meses.
Cara Bibá:

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que falámos. Não nos conhecíamos de parte alguma, ainda que eu soubesse quem era – sou um consumidor de revistas sociais… Coincidimos numa estreia de cinema e a Bibá ficou sentada uma fila à minha frente. Chegou em cima da hora, cumprimentou-me, pediu desculpa pela súbita confusão causada pela chegada ruidosa com marido e filhos. Disse uma ou duas banalidades, eu devo ter respondido na mesma moeda, e ficámos assim.

De si, tinha a ideia de uma dondoca cuja actividade principal consiste em aparecer em revistas e rir e mostrar a casa, a família e o periquito. Não lhe conheço profissão, e sempre me causou espécie o generoso número de pessoas que existe socialmente sem ter qualquer actividade conhecida ou obra que se visse. A Bibá, para mim, estava nessa prateleira onde abundam nomes estranhos e apelidos compostos. Lilly, Vicky, Pequenina, enfim…

É certo que se distinguia no meio da “multidão” que os fotógrafos perseguem por uma pose mais descontraída, ou apenas histriónica, que acaba por ganhar protagonismo. Mas isso não distinguia a árvore da floresta. Até ao dia 28 de Junho do corrente ano.

Nesse dia, um domingo, dei comigo a ler uma matéria numa revista cujo título era este: “Bibá não tem medo da palavra mongolóide”. E na entrada da matéria Bibá passava a Maria Gabriela de Viterbo Pitta Gouveia. E contava-se a história do livro escrito com a jornalista Inês de Barros Baptista sobre o cromossoma da Trissomia 21 que marcou um dos seus filhos - a Madalena, hoje com 11 anos.

Li o trabalho da jornalista Ana Rute Silva, que recolheu o testemunho e o transformou numa espécie de depoimento extenso, quatro páginas, sempre pontuadas pelo seu sorriso e o da sua Madalena.

E sabe o que senti, Bibá? Senti um misto de vergonha e de constrangimento. Por mim e pelos meus preconceitos. Especialmente pelos meus preconceitos – os mesmos que levam qualquer um de nós a fazer julgamentos prévios sobre pessoas que não conhecemos, os mesmos que nos empurram para a frases taxativas e as condenações sumárias. Agora, ao ler o seu testemunho, engulo as lágrimas que levam com elas esse olhar ligeiro e leve com que a sociedade nos vai ensinando a viver.

Todos os dias, por todos os lados, no autocarro ou num blog, num jornal ou no barbeiro, ouvimos os julgamentos sumários, os palpites, ouvimos até noticias que nunca ninguém viveu. Raramente pensamos que, por detrás de um sorriso ou de um vestido esvoaçante, está uma pessoa igualzinha a nós. Que se mostra? Que gosta de sorrir? Que tem uma vida social? E daí? Quem somos nós para catalogar, crucificar, menosprezar ou idolatrar os outros?

Cito-a, Bibá: “Costumo dizer que a minha filha foi feita com tanto amor que nasceu com um cromossoma a mais”. A frase até podia parecer tonta, se não viesse acompanhada de uma reflexão profunda, de um desabafo despojado sobre a tristeza e o luto, sobre a realidade com que se confrontou: “quem acredita que um bebé diferente é obra e graça de Deus está enganado”; “Com a Madalena, aprendi a ter objectivos e não expectativas. Cada dia é um dia”.

Claro que quero ler o livro. E claro que esta carta serve apenas par lhe dizer: bem haja, Bibá, por existir e ser como é. Mais ou menos histriónica, mais ou menos “socialite”, mais ou menos sempre em festa. O que fez com a sua Madalena, pela sua Madalena, e por todas as Madalenas deste mundo, chega e sobra para justificar as páginas de revista sem história e responde a quem vê o Mundo apenas com uma cor. E não consegue sequer sorrir.

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