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Pedro Rolo Duarte

24
Out09

Palavras que mudam

(Crónica de hoje na revista do i, “Nós, Resistentes”)

 

Todas as palavras têm um sentido próprio conforme o tempo em que são usadas. Não é igual dizer “romantismo” se falamos do século XVIII ou do ano 2009 – o adjectivo romântico para Chopin está a anos-luz do “cantor-romântico” que há num qualquer Marco Paulo.

Sendo a língua portuguesa, como bem sabemos, muitíssimo traiçoeira, a discussão interminável – e aqui entre nós, vagamente absurda – sobre o sentido de determinadas palavras não pode obedecer à regra simples do significado. Nessa medida, a palavra resistência tem muito que se lhe diga. Tem tudo. Quem cresceu a rir à gargalhada com a série “Allo Allo” tem em René, modesto proprietário de um café na França ocupada pelos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, uma ideia diferente do “resistente” que terão os comunistas que, em Portugal, nos anos da ditadura, lutaram contra o regime em circunstâncias difíceis, sofrendo com o exílio, a deportação ou a clandestinidade, uma vida praticamente por viver. Quem, como eu, resiste estoicamente ao vício do tabaco, há já mais de (ridículos...) três anos, não sente o verbo resistir como aquele que se desintoxicou da heroína há vinte anos. São pesares diferentes do mesmo pesar – são registos diversos das mesmas (tristes) formas de vida. Em todos os casos, no entanto, é algo comum: a ideia de não ceder. Resistir é ser capaz de não ceder – e num tempo em que tudo se negoceia e o diálogo é palavra de ordem, resistir pode ser, a um tempo, um sinal de atraso ou uma luz que ficou felizmente acesa do século passado.

Se há tempo em que resistir foi palavra de ordem, o século XX parece poder constituir manual de instruções, do princípio ao fim. Ou melhor dito: do princípio ao meio. Quando o século terminou, ainda não sabíamos que havia mais resistências a testar para lá das que abalaram os cem anos passados. Talvez por isso, o fim desse princípio que vem de 1900 esteja agora nas mãos de todos nós. Fechar o ciclo das resistências para poder abrir o ciclo das novas aberturas.

Da tolerância mil. Não é preciso ser fundamentalista do optimismo – basta não ser absolutamente resistente à mudança. Não é preciso abraçar vegetais e dar as mãos – basta não ser intransigente sobre o optimismo. Não é preciso viajar na maionese da tolice – basta admitir que a resistência, por si só, não é nada. Ou é apenas energia – mas não tem fundamento próprio, não é ideologia nem fé, não é corrente de opinião nem teoria provada.

A resistência é o que faz sentido quando nos impõem um modo de vida, uma escola, um modo de estar. A resistência é tudo quando nada se tem. A resistência é o valor superior de quem não tem liberdade.

No nosso mundo, a resistência é apenas um direito. Quando sentimos que é dever, o nosso mundo está errado. Temos então de contribuir para o mudar. Porque a necessidade de resistir, em si, é um sinal vermelho do regime que escolhemos.

Lá está: em cada tempo, um significado diverso para as mesmas palavras.

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