Foi um miúdo com 12, 13 anos, turco, que de escopro e martelo em punho me perguntou quantos pedaços do muro queria eu, a troco de meia-duzia de marcos alemães. Fiz as contas aos familiares e amigos - e contei comigo, claro. Trouxe uma mala de pedras para Lisboa. Fiquei com o bocado maior que, há tempos, numa manobra menos feliz de quem então me limpava a casa, se repartiu em quatro pedaços. Mas eles resistem na minha vida: são mesmo retirados, “à frente do cliente”, do Muro de Berlim, ainda a quente, há 20 anos, quando tudo voltou a estar em causa e a felicidade estampada no rosto daquele povo me iluminou.
Quem testemunhou o encontro entre a civilização do Trabant e do BMW, entre a luz velada da noite e o néon feliz e feérico, nunca mais foi capaz de acreditar nos tais “amanhãs que cantam”. Já não acreditava – mas deixei-me embebedar noite dentro com a alegria de confirmar os meus equívocos passados...
Ainda hoje me emociono quando recordo aqueles dias que por ali passei, já o muro estava quase desfeito...