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Sábado, 28 de Novembro de 2009

Crónica publicada hoje na revista do "i", "Nós, Rurais"...  Continuam as reclamações de que jornal e/ourevista não chegam a muitos pontos de venda (incluindo em Lisboa...), reclamações para revista@ionline.pt ou geral@ionline.pt ...

 

Passei a sala principal do “Café Pinto”, o corredor que dava acesso ao pátio traseiro, subi umas escadas e a Dona Luísa, ao entrarmos numa cozinha misturada com varanda-entretanto-marquise, olhou para o Sr. Abílio, sentado numa cadeira a olhar o vazio, e disse assim:

- Pois ali está ele, entregue aos seus pensamentos.

Dona Luísa queria que eu ditasse sentença sobre o seu marido anestesiado, porque eu era um miúdo dotado que já tinha dado à Dona Olímpia explicações suficientes que lhe permitiram tirar a quarta classe, e daí a carta de condução. Mas, aos 12 anos, de psicologia percebia o mesmo que percebo hoje, aos 45. Nada.

Bom. Quem ali estava entregue aos seus pensamentos era o Sr. Abílio, o mais habilidoso condutor de carros de burros do Penedo e arredores, o homem que garantia que o “Café Pinto” era o sinal vital da aldeia, no televisor a preto e branco ou nos matraquilhos cá fora, nas cartas para a sueca ou na malha lá atrás. E aquele Sr. Abílio era, citando os Gato Fedorento, “um animal como a galinha, não podia estar bem; tinha asas mas não voava…”

Foi no café do Sr. Albino que soube que o francês - com quem organizava os Jogos Olímpicos do Penedo com medalhas feitas com caricas de garrafas -, roubava galinhas e limões para consumo individual e de família.

Foi no café do Sr. Albino que percebi que a ida do homem à Lua era desenho animado – e pela primeira vez o meu pai me surpreendeu, ao dizer que sim, que era tudo mentira, tudo animação televisiva. O meu pai trabalhava para a RTP e aquela gente acreditou. E cá fora ele riu, e rimos, e ainda hoje lembramos, entre os que ficaram, o corolário da história, que era o Sr. Abílio a contar o seu momento de horror no alto de uma “esgalha de uma árvore”, quando uma rabanada de vento o fez temer pela vida e ele percebeu, por fim, que nem os aviões voavam bem nem o homem chegava à Lua com aquela meridiana facilidade.

Na verdade, o Sr. Abílio “estava entregue aos seus pensamentos” porque um médico lhe notou excessiva agressividade e tendências pouco simpáticas em relação à raça sua semelhante - e vai daí, deu-lhe um potente calmante que o punha nas nuvens, bem mais flutuantes do que a esgalha da árvore que o fez duvidar da aventura humana.

Aqui chegado, eu terei comentado com a Dona Luísa algo como “a vida é mesmo assim”, e ela terá respondido: “o que é preciso é saudinha”.

E fomos às nossas vidas. Até aos dias de hoje, persisto em ser este falso rural que quer o campo com as luzes da cidade, quer na cidade o silêncio que só há no campo, e nem sabe dar conselhos decentes a quem se confronta com doenças urbanas.

Anos volvidos, no lugar do Sr. Abilio está outro qualquer Abílio – com a mesma delicadeza e profissionalismo, entregue ou não aos seus pensamentos, já sem burro mas certamente “montado” numa Toyota Hiace ou numa Hiunday a suaves prestações.

Anos volvidos, também mantive a ruralidade limitada aos fins-de-semana, ao cheiro a lareira, e às saudades dos matraquilhos no café do Sr. Abílio. Mas sempre que me perguntam, não minto: saudades do cheiro do campo, das palavras ditas no campo, do cheiro das lareiras e fogões de chão que há no campo. Acima de tudo, saudades de sonhar com um tempo que sempre me pareceu maior e melhor no campo. Mesmo quando tinha a certeza de ser igual. Há tempos que não vale a pena comparar.



publicado por PRD às 14:31
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5 comentários:
A respeito do facto do i ainda não chegar a todo o lado... eu já o procurei na minha cidade, e nunca consegui encontrar à venda.

deixado em 28/11/09 às 15:14
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Isabel Mota
Olá Pedro, Bom dia

Este não é um comentário mas sim que um pedido para que comentasse esta ideia tão simples e tão original. Se achar bem, claro e se achar que pode ajudar na sua divulgação. Boa? Obrigada, Boa semana.

http://gato-pintado.blogspot.com/2009/11/arvore-de-natal-espera-de-tempo.html

deixado em 30/11/09 às 10:20
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Caro Pedro,

Possuo todos os «nós» e nunca tive dificuldade nenhuma em adquirir o «I» completo (já o devo ter adquirido para aí em cerca de dez distritos).

Quanto ao texto já no sábado o achei muito confuso.
O senhor Pinto (1.ª linha/1.ª coluna, versão papel) trespassou o café ao senhor Albino (30.ª linha/1.ª coluna) que por sua vez o trespassou ao senhor Abílio (31.ª linha/2.ª coluna) foi isso?

deixado em 30/11/09 às 21:01
responder a comentário | discussão

Tem o leitor parcialmente razão: o café chamava-se realmente Pinto, presumo que apelido do sr. Abílio. Albino não havia lá nenhum - ou o computador decidiu corrigir sem me perguntar, ou por momentos envolvi na história o homem-forte do eterno bar Snob...

deixado em 1/12/09 às 00:36
responder a comentário | início da discussão

Isabel Mota
Bom dia Pedro
Lamento que não tenha tido sequer tempo para, caso achasse interessante, divulgar a ideia da árvore de Natal que está a "crescer" na minha aldeia e que não é ideia minha, logo não pretendia qualquer tipo de publicidade pessoal. E lamento também que tenha publicado palavras que não eram sequer, como referi, um comentário. Fica a sensação de puro desinteresse... a sensação de uma autorização de comentário "automática". Lamento mesmo assim como o facto de ter publicado um endereço de blog quando o que pedia era apenas que olhasse para uma ideia, para um projecto original e que, repito, não é meu.
Isabel Mota

deixado em 1/12/09 às 12:11
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