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Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

(Crónica da revista de sábado do "i" dedicada ao tema "Nós, Viciados"...)
 

Se um tipo de Marktest me apanhasse na rua e me pedisse para responder a um inquérito sobre vícios, eu dizia que sim. Sim, eu sou viciado. Em quê? Em tabaco. Cigarros. Fumador.

- E quantos cigarros fuma por dia?, perguntaria o inquiridor.
- Nenhum, responderia eu.

E a partir daqui tínhamos um problema. Eu tinha de explicar o que nenhum quadrado de um inquérito contempla, o que as estatísticas não podem considerar – não é sim, não é não, não é talvez, não é “não sabe/não responde” -, o que não se explica ou não se percebe a não ser que se viva ou se resista.

É o que vou tentar fazer.

Fumei o meu último cigarro às 11 horas da manhã do dia 4 de Abril de 2006. À época, fumava dois a três maços por dia – o que incluía acordar a meio da noite para fumar, violar as normas da aviação e fumar, escolher cinemas com intervalo para fumar, e outras maluquices do mesmo género. A vida, os dias, a forma como escrevia, tudo era definido em função do tabaco. Fazia parte daqueles que defendem que o “fumo indirecto” é uma invenção dos não-fumadores e das companhias de seguros, e nunca dei o devido valor a quem, não fumando, me aturou anos a fio nesta nuvem de fumo, da minha mãe à mãe do meu filho, passando por alguns dos melhores amigos. Nem falando do próprio filho, que passou anos a escrever ao Pai Natal pedindo que o pai deixasse de fumar.

Conseguiu o que queria, e ainda bem. Sou mais feliz hoje por não fumar – e o que custou, e o que passei, não foi bom nem desejo a ninguém.

Passaram três anos e meio. Não tenho saudades de fumar, ainda que a ansiedade tenha ganho uma nova dimensão nos dias e a sensação de que me falta qualquer coisa seja permanente. Como Smint’s como quem fuma – e os 12 quilos a mais na balança persistem em lembrar-me que como e bebo mais, nem que seja água, nem que seja bolacha integral.

Não sei o que me falta, mas sei que me falta sempre qualquer coisa. Deixei de saber o que fazer com as mãos num ambiente que me intimide. Como se não bastasse, os cigarros passaram a constituir um problema – a garganta entope e a tosse renasce sempre que estou em ambientes de fumo, o cheiro do tabaco desagrada-me e sinto-o mais do que os não-fumadores que me rodeiam. Não aguento muito tempo num bar ou discoteca onde toda a gente fume.

No entanto...

No entanto, sempre que a dormir sonho - e me lembro do que sonhei – há cigarros envolvidos. Sonho que fui “apanhado” a fumar, sonho que fumo a marca de cigarros que o meu pai fumava, sonho que experimento alternativas aos cigarros, sonho com charutos, sonho que fui dispensado porque fumava, sonho que sou elogiado porque ainda fumo, sonho com o cheiro do tabaco. Sonho sempre. Sempre.

E acordo sempre num estado de agitação, de ansiedade, que me obrigam a fazer um ponto de situação e, por fim, descontrair: estava a dormir... São sonhos realísticos, muito plausíveis, que despertam complexos de culpa e falhanços inexistente – muito incomodativos, mesmo que a psicologia me diga que são “excelentes indicadores de que está a ultrapassar o estado adicto”...

A verdade é só uma: ainda que dos meus dias esteja arredado o vício que me acompanhou durante 30 anos, ainda que o incómodo que o tabaco hoje me provoca indicie sucesso na empreitada, os sonos agitados e os sonhos obsessivos dizem-me que continuo, três anos e meio depois, o mesmo fumador que era. Apenas me dei ao luxo de me maltratar, impedindo-me de fumar. Felizmente, claro.



publicado por PRD às 00:40
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16 comentários:
Isabel Mota
Bom dia Pedro
Como o entendo!!! Felizmente também deixei de fumar. Foi no dia 25 de Abril de 2007. Escolhi a data para não me esquecer... para conseguir contar melhor o tempo ou talvez para me "libertar" de um vício com mais de 20 anos. Já lá vão dois anos e muita coisa melhorou. Passei a experimentar sabores que agora são muito mais intensos. Nunca tinha reparado na diferença no paladar... ainda me custa, às vezes, sentir o cheiro e resistir à tentação... mas resisto (maltrato-me...) e ainda bem. Também os meus filhos agradecem... embora também eu continue a guardar, bem vivas, muitas recordações de momentos em que cigarro estava em cenas muito excitantes e divertidas. Às vezes, muito raramente, ainda me apetece dar uma passa, confesso. O meu marido fuma, logo... mas quando isso acontece penso no que ganhei em termos de sabores e "psicanalizo-me" trazendo para cima o sabor de uma bela taça de arroz doce... ou uma azevia da D. Bexiga... Boa Semana.
P.s. O Milharado fica entre Lisboa e Mafra... a caminho da Ericeira. Muitos beijinhos.

deixado em 7/12/09 às 09:36
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Rita
Aconselho a leitura deste livro: O Método Fácil de Parar de Fumar de Allen Carr, pois dá uma perspectiva um pouco diferente dos livros deste género e é uma boa ajuda para quem, como o PRD, ainda não se conseguiu libertar totalmente.
Boa sorte!

deixado em 7/12/09 às 09:38
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Isabel Mota
Desculpe mas no seguimento do comentário anterior quero deixar-lhe o convite. Quando passar para a Ericeira, ou se for até Mafra... terei imenso gosto em recebê-lo. Um grande abraço, Isabel Mota

deixado em 7/12/09 às 09:40
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Adriana Coutinho
sempre especial.. :)

deixado em 7/12/09 às 11:11
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Não é a primeira pessoa que se auto-intitula de "fumador" mas sem fumar. Porque a vontade continua lá. Mas eu digo-lhe que, a melhor prenda de Natal que o meu pai me poderia dar, era deixar de fumar os três maços por dia que fuma.

deixado em 7/12/09 às 13:03
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soberbo texto!
agora percebo o nervoso dos sábados de manhã ...às x
e os quilinhos a + (integrais ñ Pedro,só acrescentam....)
e ainda às x ,as palavras ditas tão depressa q se atropelam...mas o tom da voz continua a ser impecável!
mas... p/ler este texto... é preciso perdoar isso tdo!
foi bem fundo, como eu sei q os do signo do Touro conseguem ir, com a sensibilidade ao rubro!

já valeu a semana... este Post!

sim porq a i continua a portar-se mto mal na distribuição.....

deixado em 7/12/09 às 18:08
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Anónimo
Também deixei de fumar no dia 3 de Julho de 2008, há pouco mais de um ano, mas à data, não me sinto uma fumadora sem fumar, ou seja, muito, mas muito raramente me apetece um cigarro, e isso só aconteceu quando me encontrava rodeada de fumadores activos, naquela situações em que os cigarros sempre eram "tão saborosos", como à frente de um café, após uma refeição.
O curioso, e o que me fez comentar este post, foi exactamente o facto de, que nunca tinha ouvido a nenhum outro ex fumador, fumar nos meus sonhos!!
E como me sabem bem aqueles cigarros, que nos sonhos fumo sempre às escondidas, e com sentimentos de culpa, e idéias perdedoras, derrotistas, e vicios retornados...
... e a aflição que me acompanha sempre naqueles instantes entre o sonho e a realidade, só aumentam a minha alegria e satisfação de poder continuar a afirmar, sem escondidas, que sou uma ex fumadora convicta!
Que tenhamos a coragem de continuar todos ex... fumadores.

deixado em 7/12/09 às 23:24
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Patricia
Eu não sei a data exacta em que decidi deixar de fumar, mas foi antes de engravidar, já a pensar nisso mesmo e o meu filho mais velho tem quase 7 anos.
Mesmo assim, às vezes ainda me apetece fumar umzinho, apesar de concordar com o Pedro quer agora o cheiro é insuportável. Não tenho coragem para fumar um de vez em qdo porque esta foi a segunda tentativa e só eu sei o que me custou.
Será que vou ficar sempre com vontade de fumar mais um? Será tipo alcoolicos que passam o resto da vida em recuperação?

deixado em 8/12/09 às 00:32
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isa
Ora muito bem! Verdade, é mesmo assim. De vez em quando o que fazer com as mãos, ou no fim de uma conversa (de qualquer tipo) acender um silencioso cigarro. Acabou.:)) Mas, em vez disso, de vez em quando ainda surgem sabores a nicotina, que permanecem encerrados nos pulmões, a titulo de lembrança. Lembras-te? Pois é verdade, ainda cá estás. Em vez dos 8 kg compensadores ganhos, agora corre-se com pernas e braços, e perdem.se. E sobem-se escadas a um só folego, ou nenhum. Whatever! Não fumo desde 2007!! BOA, dizem os músculos e a cabeça.

deixado em 8/12/09 às 02:18
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bom...dia,

li ontem o seu texto e pareceu-me o enredo para um trainspotting em versão light(s).
a ansiedade, o sonhar acordado, o "fumei o meu último cigarro às 11 horas da manhã do dia 4 de Abril de 2006", but who's counting...?
não se inquiete.
há males que vêm e questões que a estatística não contempla.
é só isso e nada mais.

eduardo

ps: no smint, no kiss!

deixado em 8/12/09 às 03:39
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