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Pedro Rolo Duarte

23
Dez09

Quando um homem quiser?

É o meu presente de Natal aos leitores do blog: a crónica de sábado na revista do i, em antecipação. Mas dia 26 lá está nas bancas: Nós. Religiosos...
E agora um Bom Natal, para mim a festa da familia.
 

Não é Natal quando um homem quiser – é Natal agora, estes dias, esta semana. E não adianta resgatá-lo da sua tradição religiosa, como tentou Ary dos Santos (com talento, mas obviamente a mando dos seus camaradas), escrevendo “Natal é em Dezembro / Mas em Maio pode ser / Natal é em Setembro / É quando um homem quiser / Natal é quando nasce uma vida a amanhecer / Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher”.

Estávamos em 1975 e o PCP pretendia dessacralizar a vida portuguesa ao ponto de transformar uma das mais sentidas tradições religiosas num momento pagão para os que viam “Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei”. Mais um ano de poder e o Natal era na Festa do Avante e o bolo passava a ser bolo-presidente ou mais prosaicamente bolo-camarada…

Nada disso. Natal é agora. Só agora – assinala o nascimento de Jesus, e é uma festividade cristã. O que Ary e os comunistas, em geral, não conseguiram, nesse tempo de todas as tentações - tornar o Natal uma época de toda a gente – encarregou-se o capitalismo de o fazer, com a sua doce forma de nos enfeitiçar. Hoje, independentemente do sentido da fé de cada um, este é um momento de união, seja simbolicamente cristão ou ateu, pretexto para unir a família, também uma época de dádiva e solidariedade.

Sem querer, o Natal encerra em si o paradigma da humanidade: ao pretender respeitar a individualidade, reconhece-se com mais frequência no que é comum a muita gente e aceita apagar-se em nome de uma ideia partilhada por muitos. Fica bem, depois, dizer que o pior da economia de mercado tomou conta da época, que a fúria consumista se sobrepõe aos profundos sentimentos de solidariedade, que o capitalismo tomou de assalto o Natal.

Fica bem, mas essa é a sua verdade nos tempos modernos – bem representada pelo Pai Natal que a Coca-Cola abocanhou, transformou e globalizou… -, facto que nenhum estandarte com o Menino Jesus vai conseguir contrariar. O espírito da época é o do consumo, o da festa, o da união – mas hoje isso significa negociação, diálogo, entendimento. Não mais união pura e simples.

Substituímos as cartas pelos mails, e os mails pelos sms, e agora os sms por bonecos e presentes do Facebook – e nesta sucessão de facilitações aferimos como os tempos e os seus ícones vão tomando conta do evento. Mais do que perder religiosidade, a quadra tornou-se uma espécie de Cimeira de Copenhaga: tenta-se o mínimo denominador comum – pode ser o bacalhau ou a missa do galo, um estandarte ou um Pai Natal a trepar estupidamente por uma varanda… -, para conseguir ultrapassar todas as diferenças, todos os hiatos, todas as faltas. Negoceia-se para chegar ao acordo que é a noite de dia 24, quando a paz é convocada por todos. Por minutos que seja.

Dois dias depois, ou seja, dia 26, a tenda começa a ser desmontada. O divino, o transcendental, os rituais mais ou menos adquiridos para expressar fé e crença, vão dando lugar ao “back to reality”. Daqui a pouco é ano novo, passas e champagne. Ary dos Santos tinha razão quando falava do “sabor amargo em cada doce que eu comprei”.

Nós, religiosos? Com certeza que sim. Mas aí sim, “quando um homem quiser”, ou seja, muito de vez em quando.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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