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Terça-feira, 5 de Janeiro de 2010

Começou por ser o penteado e a roupa. Quando dei por mim adolescente, era este o primeiro sinal que distinguia as pessoas, que separava classes e géneros e estilos: o penteado, a roupa. Em alguns casos, o perfume também contava – tive até uma amiga de Verão, na Praia Grande, que era conhecida como a “Sofia Johnson’s”, porque despejava frascos da água-de-colónia infantil dessa marca sobre si própria...

Nesses tempos longínquos, havia palavras que também identificavam origens – enterro ou funeral, vermelho ou encarnado, prenda ou presente – e crescia a absurda dicotomia entre um beijinho e dois beijinhos. Ainda hoje dou um beijinho a umas, dois a outras, e fico na dúvida com muitas pessoas...

Os anos passaram. Muita coisa mudou. A roupa e o penteado democratizaram-se de tal maneira que é praticamente impossível usar esse critério para distinguir géneros. Ter um visual próprio deixou de ser extravagância, ganhou estatuto de personalidade. E bem.

O problema é que nem por isso se quebraram barreiras definidas por aparências. A vida virtual encarregou-se de criar os novos códigos – e hoje são bem claros, como nos anos 80 eram as roupas e os penteados.

Se num qualquer Facebook desta vida alguém se me dirigir perguntando “kdo tas lvr p kfee?”, reconheço claramente de onde pode vir tal pergunta, e sei que há anos de distancia entre mim e quem me interpela. Se numa mensagem de telemóvel o texto chegar ao pormenor do “Desculpa incomodar-te a esta hora, certamente estás a almoçar...”, também estou certo de poder adivinhar a origem.

O toque de um telemóvel é hoje um sinal exterior de personalidade – até quando é banal, o toque permite-nos aferir da negligência do dono do aparelho face às tecnologias ou, simplesmente, da sua irrelevância no mundo... Há pouco tempo, descobri uma afinidade improvável com uma colega do jornal onde trabalho – o toque de telemóvel dela é uma das canções de sempre da minha vida. Ela não sabe de tal facto – nem tenho intimidade suficiente para lhe dizer... -, mas ouvir o seu telefone tocar é mais ou menos como encontrar mais alguém para quem o “Até ao Fim”, do Vergílio Ferreira, seja o livro de uma vida. São escolhas improváveis, incomuns, e um toque de telemóvel com Sakamoto e David Sylvian pertence certamente à mesma categoria...

Mas há mais. O ecrã de um computador é um diário, onde a existência se inscreve sob a forma de “wallpapers”, sons, pastas e fotografias – e a forma como se escreve um mail constitui em si um livro de estilo do seu autor. Há pessoas que começam pelo clássico “Olá, bom dia”, mas também há quem vá directo ao assunto sem sequer um cumprimento, há quem não responda ou quem presuma que aquele é o único mail que recebemos num dia.

Na ingenuidade de quem viu a chegada do computador como o começo de uma uniformização da vida, achava que a evolução da tecnologia nos tornaria cada vez mais iguais, cada vez mais indistintos. Desatento, nem me apercebi que o simples facto de, logo nas primeiras versões do “Word”, podermos escolher escrever em “courier”, “areal” ou “times new roman”, era apenas o sinal da revolução que aí vinha.

E veio. Foi tudo ao contrário. Com as roupas e os penteados havia apenas os freaks, os betos, os punks e mais um ou dois subgrupos.

Agora, cá para mim, nem há grupos: há uma espécie de corrente contínua de rios, afluentes e ribeiras que se juntam e afastam, confluem e se desfazem, para desaguar todas no mesmo mar. O da imensa liberdade de se exibir o mais próximo possível do que se é. E eu gosto de pensar que é mesmo assim.

 

Crónica publicada na última edição da revista Lux Woman. Daqui a dias sai uma nova...



publicado por PRD às 17:11
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17 comentários:
Deixo um sorriso, a uma crónica deveras simpática. Gosto de crónicas assim :):)

deixado em 5/1/10 às 18:29
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Desculpa, e há também as Blondes (com mais ou menos sotaque) que nunca sabem em Portugal se é para dar um ou dois beijinhos e que, invariavelmente, não distinguem tias de não-tias e, na dúvida, se socorrem de um germânico aperto-de-mão ou se ficam paralíticas sem fazer qualquer gesto corporal não vá haver códigos linguísticos escondidos, que, normalmente, até há. :)
Pois... "Até ao Fim" não é o livro de uma vida.
:)

deixado em 5/1/10 às 18:45
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Belo texto! bjs

deixado em 5/1/10 às 19:12
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sofia
You and 0 others (until now) like this

deixado em 5/1/10 às 19:51
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Paula Salema
O fenómeno que acompanha a evolução tecnológica é o da Personalização, isto é, o indivíduo pode e deve dar carácter ao objecto, tornando-o confortável, adaptando-o às suas necessidades. Através de um objecto podemos descodificar uma personalidade; podemos formatar com o pensamento a alma do outro; os objectos falam ao mesmo tempo que nós. É assim que os optimistas encaram estas evoluções. Aos pessimistas cabe-lhes o gosto amargo de não se prolongarem nem que seja num simples objecto.
Acho este texto muito optimista.
Os meus parabéns.
Paula Salema

deixado em 5/1/10 às 21:31
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http://www.youtube.com/watch?v=x1YkHJJi-tc
acho q tem de lhe dizer q essa é 1 das canções da s/vida...
por acaso tbém faz parte do m/cofre musical...e depois ,qual é o problema?
a nossa "impressão digital " está nos dias de hoje íntimamente-ligada- à nossa" impressão digitalizada" e é sem dúvida alguma, nos detalhes q afirmamos a diferença.
adoro os pormenores q fazem a diferença, q nos imprimem -a unique touch-!

deixado em 5/1/10 às 22:47
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Maria Santos
Pois é isso mesmo " Todos diferentes, todos diferentes"! É politicamente correcto dizer "todos diferentes, todos iguais"....mas uns mais iguais que outros, digo eu.
Como sempre, a sua escrita é de um bom gosto que me transporta sempre a dimensões que fazem toda a diferença no meu quotidiano rotineiro!
Não imagina como lhe estou grata!
É felicíssima aquela imagem do mar da" imensa liberdade de se exibir o mais próximo possível do que se é" por traduzir tão subtilmente a contradição implícita que "o mais próximo possível" traduz.
Partilho ainda a vontade de querer persistir na atitude que "eu gosto de pensar que é mesmo assim".
Um abraço


deixado em 5/1/10 às 23:29
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Pedro, gostei muito deste texto. É verdade que as diferenças se democratizaram um pouco, mas também é verdade que consoante a região do país onde se está elas ainda se notam ou já não se notam tanto. Os beijinhos são um dilema realmente. É uma questão de se tentar fixar quem quer 1 e quem quer 2 ou simplesmente "marimbar" para o gosto de quem os recebe e oferecer-lhe os dois da praxe...mais vale a mais do que a menos...
De mim para si, um beijo!

deixado em 6/1/10 às 11:10
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Caro Pedro Rolo Duarte…)

Cumprimento-o sem qualquer hesitação com dois beijos… deixo-lhe escrito com as letras todas, e sem capas e xis a fazer de cê agá….,que gostei muito do que li, e que também eu me “enfrascava” com aromas de adolescente (belos tempos…) apesar de não me chamar Sofia…

Belo texto!

beijinho
Clarice

deixado em 6/1/10 às 11:19
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Anónimo
Gostei muito desta reflexão. O facto de referir que descobriu “uma afinidade improvável” é uma prova do desaparecimento do conceito de “grupo”, no sentido em que existia na minha adolescência. É verdade que a utilização que se faz das novas tecnologias pode dar-nos informações que nos ajudam a conhecer os outros, mas, cuidado! Nem todos sabem usar “a imensa liberdade de se exibir o mais próximo possível do que se é” e continuará a existir quem use todos os meios para parecer aquilo que não é.

deixado em 6/1/10 às 14:06
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