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Pedro Rolo Duarte

06
Fev10

Somos todos Eusébios

(Crónica da revista "i" publicada hoje: Nós, Futebolistas...)


Há um futebolista dentro de nós? Há um seleccionador nacional em todos os portugueses? Somos todos potencialmente Eusébios?

A resposta a estas três perguntas é “sim”. E eu sou a prova viva de tal facto. Se outra forma de conferir não tivesse, provaria com o meu exemplo, que não sendo mais do que isso mesmo – um exemplo – guarda ainda assim a vantagem de ser incomum ou, pelo menos, inesperado.

A verdade é que nasci sem jeito para a bola, e por isso nunca joguei nada a não ser matraquilhos. E ainda hoje jogo matraquilhos com gosto e algum talento, uma mão direita poderosa (daquelas que abre os frascos impossíveis de conserva ou salsichas....), mas quanto a bolas, ficamos assim. Também joguei bem flíperes, mas julgo que não conta...

O que conta e interessa é que passei 30 anos da existência dizendo ser do Benfica, mas sem provas exemplares de tal militância. Não era sócio. Não ligava ao desporto em si. Desconhecia os resultados. Nunca fixei o nome dos jogadores (excepto Eusébio, claro, que entrevistei, a meias, numa mesa do Gambrinus, e me deixou de boca à banda com a sua capacidade de pôr tudo em pratos limpos: “meninas não ficam bem a jogar à bola, é coisa de que não gosto”...).

O primeiro treinador que reconheci foi Artur Jorge, mas a memória só assinala o nome porque se tratava de um intelectual e poeta. Se for rigoroso, o primeiro treinador que efectivamente admirei foi Luís Filipe Scolari, e depois percebi que era da Selecção, que não era exactamente a mesma coisa que ser do Benfica, ainda que para mim fosse óbvia a ligação.

Ou seja: eu era, fui, talvez ainda seja, o tosco e o ignorante desta matéria. Sucede que o meu filho decidiu unilateralmente interessar-se por futebol aos cinco anos, escolher ser do Benfica (a mãe é do Sporting, havia 50% de hipóteses...), jogar futebol entre os 5 e os 12 anos, e obrigar-me, por força das circunstâncias, a entrar nesse mundo fascinante.

Não demorei um ano a perceber as regras, a dominar a lógica, e a ganhar o meu cartão oficial de treinador de bancada, com extensão óbvia para árbitro de bancada, seleccionador de bancada, médico de bancada, até mesmo comentador de bancada.

“Num instante tudo muda”? Ai muda, sim. Descobri que saber de futebol era fácil, ser adepto era óbvio, e até jogar à bola não seria nada do outro mundo – como as horas passadas em relvados de diversas espécies podem comprovar, chutando com o pé direito nas direcções mais variadas, ainda que nem sempre as melhores para atingir o resultado pretendido.

Aqui chegado, não me restam dúvidas: todos temos um adepto dentro de nós, um futeboleiro, um futebolista, um treinador, um apaixonado. Podem dizer que é cultural, que noutros países não é assim, que isto e aquilo. Mas a mim não me convencem. Até Eusébio me disse, nessa entrevista, que queria morrer no estádio da Luz, “já agora num jogo de emoção e com a vitória do Benfica”. Isto explica-se? Não se explica. E dou graças ao meu filho por me ter feito ver a luz. Eu precisava de gostar de futebol para me sentir completo. Já está.

 

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