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Pedro Rolo Duarte

12
Mar10

Adeus tristeza

(Actualizando o blog com calma: esta foi a crónica publicada na revista do i, Nós Tristes, da semana passada... Amanhã sai a Nós, Viajantes... Countdown para o final deste projecto..)
 

Estava a ver, domingo passado, o espectáculo que a SIC produziu para ajudar a reconstrução da Madeira, e às tantas detive-me na letra de “Adeus Tristeza”, de Fernando Tordo, que cantou ao lado do notável Hélder Moutinho. Tordo escreveu e canta qualquer coisa como “adeus tristeza, até depois/ sinto-te triste por sentir que entre os dois / não há mais nada para dizer ou conversar / chegou a hora de acabar”.

Foi na relação entre quem canta e a quem se dirige a canção que fiquei a pensar. A ideia de tratar a tristeza como uma pessoa, com quem não há mais conversa, cuja relação chegou ao fim e é essencial gritar esse fim, é muito bonita e romântica. Dava imenso jeito nos momentos menos bons que todos vivemos.

Porém, não existe para lá do criativo e talentoso momento de Fernando Tordo (que, tanto quanto sei, compôs a canção nos Açores, num período de isolamento especial da sua vida). Bem podemos gritar aos quatro ventos que não há mais conversa com a tristeza, que nos caiu a ficha e não há moedas, que a bateria do telemóvel acabou – nada disso resolve as passagens da vida em que efectivamente nos sentimos tristes, em que a vida não nos sorri, em que o cinzento toma conta da paisagem e a única ideia firme e hirta é esta: “não há nada a fazer”.

Se eu fosse interrogado para aquela maravilhosa página da revista Esquire que reúne mensalmente o “que a vida me ensinou”, e onde figuram os maduros que os editores decidem entrevistar, talvez falasse sobre a tristeza – porque fui descobrindo, com o passar dos anos, que a tristeza muda com o tempo que passa. Que a tristeza convoca paralisia numa idade infantil, quando não sabemos sequer conviver com aquele sentimento; depois, puxa pela revolta, na adolescência, no tempo em que tudo se mede pela intensidade e nada pela profundidade, e reagir é o verbo mais comum; por fim, a tristeza ganha os seus contornos e sentidos finais, mais calmos, mais pantanosos, porventura mais próximos da verdade.

É quando aceitamos que estamos tristes. Que estar triste é em si um estádio – uma passagem, certamente, mas algo que se não vence por um simples acto de revolta ou reacção. A tristeza também é um direito que nos assiste – e há momentos em que dá um jeito do caraças. Porque estar triste é respeitável. Porque estar triste é como passar por um mau momento e ele ser uma porta giratória, que rapidamente dá a volta, que isola o passado do futuro.

Gosto de portas – mas gosto ainda mais da ideia de portas que cortam fogo, que isolam, que separam. E nessas suas funções primordiais, dão sentido à tristeza. Algo que vem, mas não fica. Algo que se vive e se resolve. Uma doença com cura.

Quando voltei a ouvir a canção “Adeus, tristeza”, pensei nessa ideia da tristeza personificada, a quem se diz “vai-te embora, não te quero mais”. Mas depois caí em mim e nesta edição. E concordei logo com o poeta que ficou na página 46: “triste é viver na solidão”. Triste é o que quisermos, nunca querendo.

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