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Pedro Rolo Duarte

11
Abr10

Papel com datas

(Crónica para a Lux Woman, edição do 9º aniversário. Com beijo de parabéns, claro)

 

Dizem que os homens ligam mais aos gadjets do que as mulheres. Não sei se está cientificamente provado – mas confesso que me perco um bocadinho por um novo telemóvel, uma máquina fotográfica, e no dia em que aderi ao I-Pod nunca mais deixei de observar colunas e amplificadores, para tirar o máximo partido daquele objecto mágico. Demorei tempo a render-me ao GPS no carro – mas agora que o aparelho atingiu a maturidade, lá ando feliz da vida a desbravar caminhos sem olhar para mapas e indicações rabiscadas à mão.

A vida numa praia deserta é maravilhosa – mas com um leitor de música, um telefone, um portátil e internet, acho sinceramente que melhora e pode atingir a perfeição...

Dito isto, há sempre um velho conservador dentro de um pretenso homem moderno. E o conservador que resiste dentro do meu corpo não desilude os nostálgicos – na verdade, não conseguiu, até hoje, adaptar-se e aderir a qualquer formato de agenda electrónica. Nem no computador nem no telefone, nem no PDA nem nas diversas agendas informatizadas que, desde a invenção do velho “Psion”, têm sido lançadas. Nada. Nos idos de 1989, um bom amigo passou uma tarde a mostrar-me o seu sistema organizativo, e eu achei que aquela “coisa” era a minha cara. A “coisa” chamava-se Filofax e não era mais do que uma agenda tradicional, em papel, muito bem pensada, num formato conveniente, e com um sistema de substituição de páginas perfeito. Aderi na hora. E até hoje sou um militante da Filofax - um fiel da agenda em papel, onde escrevo e preencho os dias, planifico trabalho, guardo informação útil.

A Filofax tem renovado a imagem e amplificado a agressividade comercial. O número e variedade de agendas disponíveis, e até as ligações para uma potencial “cumplicidade” com o computador, crescem regularmente. Mas a essência da agenda, os clássicos “seis furos” e o formato “personal”, são implacáveis – e se eu tentei alternativas...

Um dos meus prazeres, no que diz respeito ao ritual da Filofax, é a passagem para a agenda do ano seguinte dos aniversários que me interessam. Como sou um homem de datas, anoto casamentos e baptizados, dias importantes dos que me são próximos, momentos marcantes (lançamentos de projectos, estreias de programas...). António Lobo Antunes escreveu, numa genial crónica, sobre os que “morrem completamente”, que são aqueles que para lá de morrerem fisicamente desaparecem também da memória, do interesse, da existência. A ideia é notável, mas tenho tendência a pensar que na minha vida ninguém “morre completamente” – na medida em que sobrevive nem que seja na folha de uma agenda dos dias. E se, num qualquer momento menos feliz, não passo para a agenda do ano seguinte uma data, um aniversário, não é bom sinal. Porque é como se – aí sim... – algo ou alguém morresse completamente. Não quero. Não gosto.

Gosto de abrir a agenda e lembrar alguém – mesmo que o tempo tenha criado distância ou a vida nos tenha afastado. Gosto de saber que cada dia “pertence” a uma pessoa, ou a um facto. Nascer, morrer e viver. É isso, afinal, o que anualmente passo para a agenda do ano que se segue, e me devolve imagens, memórias, palavras, às vezes até cheiros e paisagens. E esta sensação, este tempo tão bem perdido todos os anos, não há telefone ou computador que me devolva. Sou moderno, sim – mas tenho limites. E ainda não há nada como escrever num papel uma mensagem de parabéns. Como esta, que aqui fica impressa, sem virtualidades, para a Lux Woman, na edição do seu aniversário...

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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