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Pedro Rolo Duarte

14
Abr10

Enfim, Nós

 

(E pronto: chega ao final o projecto Nós, Portugueses, que durante 50 semanas acompanhou a edição do sábado do i. Dia 17, o número 50, com esta capa e o editorial que assinala o fim do projecto...)

 

Tenho duas notícias para esta edição final do projecto “Nós, Portugueses” do i – que como se lembram, queria construir um retrato da raça lusa e chegar a conclusões sobre as suas qualidade e defeitos. Uma notícia é boa e outra é má. Como de costume, comecemos pela má: não chegámos a conclusões. E agora a boa notícia: no fundo, não queríamos chegar a lado algum. Quando tudo isto começou, a ideia era simplesmente conceber no projecto desta nova marca de informação, ao fim de semana, uma revista que constituísse um complemento de leitura e um acrescento ao jornal de sábado. Já havia a ideia de fazer uma revista temática, já havia a ideia de explorar características humanas, tendências, e daí ao estudo da Netsonda e à ideia de olhar Portugal e os portugueses pelas suas potenciais características, foi um passo. Foi o passo dado. Tinha um começo e um final. Cumpre-se hoje, com esta edição número 50. Olhando e lendo este conjunto de revistas, páginas, pessoas, histórias, a única certeza é mesmo a de que não chegámos a lado algum. Conseguimos detectar características? Sinais? Uma identidade? Claro que sim. Mas entre os lugares-comuns que já sabíamos fazerem parte deste mosaico e as surpresas que fazem do jornalismo uma profissão apaixonante, o que fica deste olhar sobrevoado sobre o país é a mistura de passados e futuros que tem marcado Portugal nas últimas décadas. Na verdade, ainda somos o país que cospe para o chão e não nota o ruído das chávenas de cafés empilhadas na pastelaria - mas também somos o berço de tecnologias e ideias, de design e de altíssima culinária. Não resistimos a enganar o parceiro, a escapulir ao pagamento voluntário do imposto – mas temos instituições de solidariedade notáveis e soubemos desenvolver sem truques nem esquemas a mais inteligente “via verde” que se conhece. Somos, talvez, um país entre o cá e o lá – entre o que fomos e o que seremos, entre o que queremos ser e o que conseguimos ser. Nessa medida, este projecto foi cumprido – ele contempla tradição e modernidade, tem sinais de futuro e memórias, tem lamentos de passado e sonhos. O melhor de fazer uma revista que tem um começo e um fim é saber antecipadamente o destino – e o pior é pensar no que fica por fazer. E fica. Mas também nesse “fica” está parte deste projecto do i. Porque antes desta revista nunca se tinha concebido e produzido em Portugal uma revista propositadamente desestruturada – ou seja, sem uma só coluna ou secção fixa, sem ordem definida de secções e temas. Este projecto foi concebido semana a semana como se de uma nova revista se tratasse a cada oito dias. E não há duas iguais, mesmo havendo 50 edições que se unem por traços comuns. O desafio era tão difícil quanto juntar o melhor e o pior de um país, o mais antigo e o mais moderno. Hoje, ao chegarmos à edição final, sabemos que foi possível, sabemos que fizemos exactamente a revista que correspondia a estes critérios e vectores, mesmo quando fizemos edições aquém ou além do que pretendíamos. E por aqui regressamos ao começo. Talvez este projecto tenha sido conseguido porque Portugal é ele próprio um país com traços comuns, com elementos de união, com traços, mas no fundo uma soma de partes que se não estruturam de forma clássica. Portugal muda numa esquina do Bairro Alto para o Chiado. Como esta revista mudou. Portugal muda quando no Campo Pequeno há tourada ou concerto rock. Como esta revista mudou. Portugal muda quando é noite ou dia. Como esta revista mudou. Alentejo ou Douro. Revolta ou paixão. Este projecto pretendeu reflectir esse claro/escuro. Essa estrutura por estruturar. Essa felicidade ainda tantas vezes triste. Este projecto está cumprido. Agora venham outros novos sábados para o i. Portugal não muda por causa de nós, mas isso não quer dizer nada.

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