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Pedro Rolo Duarte

07
Jun10

Um crime, entre tantos

Passo a vida a criticar o que se passa na costa alentejana – os atropelos à legislação, os atentados ao bom senso e ao ambiente, os abusos de poder, as “interpretações livres” da lei. Vejo boa parte da área que, em teoria, é protegida, ser varrida pelo superior interesse do negócio, da especulação, e do lucro a qualquer preço. Mas todas as minhas observações se desvanecem e perdem sentido quando um acaso do destino me faz embater de frente com algo ainda pior.

A velha frase: e agora, para algo diferente...

Passei recentemente por Miramar, Esmoriz, Cortegaça, Furadouro... Em vez de me limitar aos vagos passeios ordenados (onde agora há sempre uma ciclovia, por ridícula que seja), tentei descer do Porto para Lisboa, em automóvel, pela costa. Desisti à chegada a S. Jacinto, quando ainda concedi que aquela língua de terra entre mar e rio (feia, porém mais ou menos organizada...) se salva do caos geral.

... Porque é de caos e crime que estamos a falar. O mais absurdo e inexplicável desordenamento do território junta-se a uma lixeira a céu aberto com parques de campismo que parecem favelas do Rio de Janeiro, bairros sociais degradados que julguei impensáveis 35 anos depois de 1974, equipamentos fabris abandonados a que ninguém pôs ordem, improvisados parques de automóveis velhos, golfes pelados, campos de futebol de uma baliza só, e muros que até se tentam explicar: “fim do mundo”, dizia um; “cuidado crianssas”, assim escrito, dizia outro.

A isto juntam-se aldeias sem rei nem roque e estradas vagamente sinalizadas (em geral, a sinalização é no sentido de fugir: auto-estrada mais próxima...). E gente nas ruas a olhar para o vazio. Um quadro de miséria que, se houvesse justiça em Portugal, seguramente enviaria para a cadeia uns tantos autarcas.

Como é possível Esmoriz e Cortegaça? Como é que os partidos políticos vivem tranquilos enquanto a mais miserável realidade é por eles caucionada nas suas redes autárquicas? A que Europa pertencem os desgraçados que vivem naqueles lugares (e cultivam, sim, em tranquilidade, que a ignorância nem lhes permite o queixume, aquele estado de sitio)?

Tenho a certeza que, de quatro em quatro anos, PS, PSD, CDS, PC, BE, andam por ali a caçar votos. Tenho a certeza de que sabem do que falo. Infelizmente, também tenho a certeza do que resta nos seus blocos de notas no dia a seguir a cada eleição: nada. O chamado “resto zero”.

Nesta viagem aos infernos (uma reportagem por fazer...), digo-vos, tive vergonha, muita vergonha. Porque àqueles lugares, àqueles crimes, àquelas negligências e indiferenças, também se chama Portugal.

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