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Sábado, 29 de Dezembro de 2007
É talvez a frase mais irritante dos tempos modernos: «não tenho tempo para nada». Ouvimo-la diariamente, até à exaustão, parece um eco absurdo que se passeia pelos nossos dias como uma daquelas moscas moles de Verão. Toda a gente diz que não tem tempo, toda a gente se desculpa com a falta de tempo, o tempo escasseia mais do que a vida. O tempo é uma merda, em resumo. Ou a falta dele. Ou o jeito que nos dá a desculpa do tempo.
São três da manhã e estou a começar agora a escrever. Atrasado. Sem tempo. «Não tenho tempo para nada». Não tenho? Quem disse que não tenho? Por que estou agora a começar a escrever e não, como era suposto, a acabar de escrever? Porque me faltou o tempo?
Observo o dia que passou, o tempo «que gastei». Trabalhei, comprei um candeeiro, almocei uma sanduíche, bebi um chá e conversei com uma amiga ao fim do dia, tive um jantar em casa da Adriana, fui ver o pátio forrado a azulejos da Maria João e voltei para casa. Não tive tempo para nada? Não, tive tempo para o que quis, organizei e distribui o tempo em função dos meus interesses, da minha vontade e, vá lá, no limite, de um inesperado final de dia. Houve um momento inesperado, é verdade, mas eu aceitei-o. Não foi falta de tempo – foi outro tempo, foi o meu modo de organizar o tempo. Ninguém tem nada com isso – mas eu não tenho o direito de dizer que me faltou o tempo.
O tempo é a desculpa dos tempos modernos – falta-nos tempo para os amigos, para a família, para aquele projecto que ficou na gaveta, para organizar as fotografias, «para nós», para ler, para escrever, para telefonar, para comer, para sair, para entrar, para ver, para estudar. O que nos falta de tempo sobra-nos onde? Em quê?
É absurda a ideia, é irritante a desculpa. Nós temos, como na novela, «todo o tempo do mundo» - o problema é pequeno e simples: gastamo-lo com o que mais queremos ou precisamos, e naturalmente que não nos sobra mais para aquilo que efectivamente dispensamos mas não temos coragem para assumir que deixamos de lado.
Incomoda-me a eterna escusa do tempo por ser injusta para com o bem mais precioso da nossa vida. O tempo não para de passar, nem se cansa de andar à nossa volta, e é um conceito nobre e uma palavra bela. O tempo inspira os poetas, os escritores, sobre ele há ensaios e imagens, o tempo domina e é dominado, tem o poder de avançar sem pedir licença e jamais recuar. O tempo não volta para trás, como a canção pedia.
Como se pode usar um bem desta natureza para desculpar as opções que tomamos? Se são três da manhã e me falta tempo para escrever, isso deve-se ao tempo que decidi tomar para uma palavra, um beijo, um abraço, ou apenas um olhar pausado numa montra. Eu não «o perdi» - eu ganho-o no momento em que corro ao seu lado, que o uso, que me aproveito dele para o meu prazer, a minha felicidade, ou apenas o corrente uso diário. Um «compasso de espera» pode ser a solução, um olhar prolongado pode ser o futuro, um abraço longo pode ser a saída. O tempo é extraordinário – isto quer dizer que, por não ser ordinário, não deve ser usado como argumento para as nossas faltas, ausências, falhas.
Passa das quatro da manhã e eu não dei o meu tempo por perdido. Ganhei o meu tempo usando-o como bem entendi, provavelmente melhor do que saberia julgar – o tempo o dirá. Escrevi 33 vezes a palavra tempo em menos de uma página de jornal. A relevância que ele tem é o número de vezes que perdi tempo (34...) a escrever o seu nome. É um nome belo, intenso e vivo. Não quero perder mais tempo (35...) com ele, mas gostava que soubessem que não me importo de o perder: é o melhor que tenho para dar. Numa palavra, num sorriso, num beijo. Ou numa crónica de jornal. Há tempo para tudo, até para o perdermos a pensar no que faríamos com ele se o tivéssemos de sobra.
 
Ao sábado, reedições. Publicado no DN, algures em 2002.
 


publicado por PRD às 00:49
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5 comentários:
Cayetana
O único tempo real que existe é o presente, e é excelente, quando o ocupamos com coisas que nos dão prazer fazer. A isso chamamos saborear a vida, estarmos bem comnosco e com o mundo, aproveitando bem cada instante que passa e ao mesmo tempo dando-nos bem estar interior, momentos de felicidade.
Ficou feliz não ficou? Espero que sim, fico feliz se a resposta tiver sido afirmativa. Além do mais conseguiu fazer um artigo fantástico, mais um, às 3 da manhã. Significa que teve tempo para tudo.
Um beijinho

deixado em 29/12/07 às 04:22
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Marco Rafael Rodrigues
Parabéns pela lucidez na abordagem ao tema que nunca temos tempo para abordar...a falta de tempo.
O tempo, disse alguém (e lembrava-me a minha avó), é o que dele fazemos...

Cpts
Marco Rafael Rodrigues

deixado em 29/12/07 às 08:36
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A questão aqui não tem a ver com o tempo que dizemos não ter, mas sim com as prioridades que estabelecemos para nós. A questão tem a ver com a má ou a boa gestão que fazemos da nossa vida. O tempo chega para tudo. E querer [ainda] é poder, não?

deixado em 29/12/07 às 12:57
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Marta
O tempo pergunta ao tempo,
quanto tempo o tempo tem?
O tempo responde ao tempo,
que o tempo tem tanto tanto quanto o tempo, tempo tem! ;0)

Quando queremos fazer alguma coisa arranjamos sempre tempo e fazemo-lo de forma positiva. Porque é que ao aparecer coisas que temos e/ou devemos fazer, não o fazemos também da mesma forma? Por vezes para se ter tempo, basta organizrmos o nosso próprio tempo.

Obrigada pelo excelente post.

deixado em 29/12/07 às 14:07
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Isabel Maria
Pois é Pedro, de facto a "falta de tempo" já passou a ser desculpa para aquilo que se não quer ou apetece fazer. Como costumo dizer, o dia tem 24 horas, e cada um faz delas o que entender........ se tivesse 26 ou 30 horas ainda haveria alguém a dizer que "não teve tempo". Chegará o dia que terá todo o tempo do mundo, mas aí já não lhe servirá para nada.
Bj

deixado em 30/12/07 às 01:04
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