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Segunda-feira, 28 de Junho de 2010

Tenho lido diariamente as páginas centrais do Correio da Manhã (tem dias que não é nas centrais, mas anda sempre ali perto). Desde há semanas, aquela dupla-página reproduz integralmente as escutas telefónicas do caso PT/TVI. Metódica e organizadamente. Com os nomes, os casos, as sms, os telefonemas. Tudo preto no branco, sem comentários ou interpretações, apenas factos, reproduções de conversas que foram gravadas - e, portanto, não podem ser desmentidas -, numa soma de episódios que parecem mais italianos do que portugueses, e numa cronologia que não permite duvidar ou negar o que ocorreu. Só não vê quem não quer mesmo ver…

A vantagem deste serviço público do Correio da Manhã é que, liberto dos empecilhos habituais dos legalismos que tantas vezes têm impedido que se faça justiça, permite que cada leitor ajuíze, por si, sobre o que está em causa. Aquelas conversas ocorreram, aquelas sms’s foram trocadas. Podem os Tribunais e os Parlamentos fazerem-se de surdos “em nome da lei” e por obediência ao “regimento”, ao ”regulamento” ou ao tão amado “erro processual”, pode a esgrima dos advogados ser mais ou menos feliz sobre as armadilhas do legislador, mas nada disso apaga evidências e factos.

O que resulta da leitura diária do CM é radicalmente divergente do que sucede na praça pública. Trata-se de um insólito caso de inversão da prova: ainda que aquelas páginas nos demonstrem e provem um dos mais graves atentados à democracia e à liberdade de expressão de que tenho memória no pós-25 de Abril (ok, 1975 à parte…), e que se estende bem para lá da TVI e do casal Moniz/Moura Guedes, e estando o escândalo nas páginas do jornal diário de maior expansão, o que sucede é que a Comissão Parlamentar não consegue concluir nada, os mecanismos da justiça não conseguem e/ou não podem “ouvir”, e os procedimentos legais encarregam-se do resto. Os (outros) jornais também não lêem o Correio da Manhã. O Presidente da Republica persiste em não ler jornais. A “Europa” não conta para este insólito acontecimento.

Todas as escutas que exibem tristemente a verdade são, afinal, “nulas” e servem hoje apenas para que saibamos como o sistema está feito para que não funcione. Ou seja: encarregam-se de fazer com que o elefante que se passeia pela sala não seja afinal visto por alguém.

Se quisermos ir mais fundo, este caso mostra o que mudou dos tempos de “O Independente” aos dias de hoje – há 20 anos, este trabalho do Correio da Manhã já tinha feito cair o Governo, já tinha feito algumas pessoas mudarem de vida, e certamente recentrara o mundo político. Nos dias que correm, não apenas nada acontece como a maioria dos envolvidos continua a passear-se em cima do elefante que todos fazem de conta que não vêem.

Já tinha visto muita coisa nestes 46 anos de vida. Nunca tinha visto o visível tornar-se invisível mesmo estando à vista.



publicado por PRD às 11:57
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16 comentários:
jeronimomig
Como é que pode afirmar categoricamente que as escutas "transmitem a verdade" ? Tem a certeza que a transcrição e a selecção efetuada pelo CM é rigorosa e imparcial ? Tem a certeza absoluta de que o que «e dito numa conversa privada é rigorosamente verdade ? Nesse caso para que há tribunais e juizes, quando temos escutas ?
E para concluir, acha que está a ser rigoroso e imparcial neste post ? Quer efetivamente conhecer a verdade ou o que leu até aqui já lhe chega ?

deixado em 28/6/10 às 21:47
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Regime carunchoso

Esse novelo desenrolado
numa cronologia patente,
só não vê quem anda embolado
pela futilidade latente.

São diversas as leituras
que podemos depreender
através destas farturas
do regime a propender.

É tal a singularidade
deste regime carunchoso,
deixando a realidade
com material tão bichoso.

deixado em 28/6/10 às 23:01
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Antonieta Lopes da Costa
Excelente este seu post Pedro, parabéns!
O que é que fará termos chegado a este estado de coisas ?
O que é que faz com que o elefante se passeie pela sala, como diz, e se torne invisível ?
Cumprimentos,
Antonieta

deixado em 29/6/10 às 09:20
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ivone carapeto
Soberbo.

deixado em 29/6/10 às 22:29
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Paulo Ribeiro
Concordo Pedro. Aliás, penso mesmo, que devíamos substituir os tribunais, os juízes , toda a Justiça, por um sistema publicista de cariz jornaleiro. Assim, os jornalistas seriam munidos de ferramentas de auscultação de conversas privadas, publicitariam essas conversas, sem comentários ou interpretações, "apenas factos" (ok, uma conversa não é facto jurídico-penal , mas facto em si que é
a conversa), reproduções de conversas que foram gravadas, etc. Imaginem a quantidade de crimes que se poderiam evitar. Exemplo: dois tipos à conversa e um deles a armar ao pimgarelho , diz: ah, eu, vou fazer isto e aquilo e os gajos nem vão saber. Quando derem por ela já eu fiz isto e aquilo e aqueloutro (tudo, suponhamos, ilegalidades). Esta conversa daria, logo, prisão aos meliantes mesmo antes do putativo crime. Ainda bem. Nós e o Pedro ficaríamos , certamente, mais descansados. O quê? O tipo está a delirar? Não tem capacidade para fazer o que tenciona fazer? Ora, é certo que a mera intenção não é punível desde, digamos, sempre? Mas pode vir a ser, que diabo! Eu, por mim, já sei quem escolheria para ministro da justiça: o Pedro Rolo Duarte. Conclusão disto tudo é que Portugal está podre. E a podridão deste país começa na sua elite. A elite dos que escrevem e debitam verbalmente o seu nédio pensamento e subida estultícia em tudo quanto é órgão de comunicação. É certo que estas pessoas que não têm uma profissão e um emprego seguro vivem constantemente ao sabor e interesses daqueles que lhes dão o pão. A simples enunciação de eventuais proveitos futuros assim como as agruras porque passam com este ou aquele decisor faz com que mais depressa do que o vento embiquem a sua agulha (pensamento público) para um determinado objectivo (fim). Nesse sentido não me venha falar de serviço público, ok? Já vi tudo.

deixado em 1/7/10 às 08:33
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Excelente post, se houvesse mais gente com a sua coragem o aventesma que, governando-nos, se governa, já se tinha ido embora.

Para as virgens púdicas que têm dúvidas sobre as escutas, é só pedirem ao "engenheiro" e aos seus boys que autorizem a sua publicação na íntegra e que a comentem - quem cala consente.

Aliás com os comentários deles ela ficava ainda melhor - e há que dar os parabéns ao CM por ter coragem de enfrentar a Máfia...

deixado em 1/7/10 às 12:11
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Paulo Ribeiro
Gostava de saber que tipo de coragem fala? A mesma que utiliza no seu comentário depreciativo ó inefável Fernando? É que coragem para escárnio e maldizer é típica do portuguesinho, desde sempre. Esse tipo de coragem temo-la e em subida dosagem. Agora, amigo, coragem a sério é não enfiar princípios na gaveta (ainda que esses sejam incompreensíveis ), tais como os do Estado de Direito. Se coragem para si é revelar conversas privadas onde um tipo pode dizer as coisas mais incríveis julgando estar a coberto da sua, julgo eu, inalienável privacidade (que raio é essa coisa de se abrirem processos, ainda que de natureza jornalista com conversas privadas?) , só porque o visado é pessoa publica, e se para si ser corajoso significa ler essas conversas num jornal que normalmente se ocupa de assuntos igualmente importantes, tais como, com quem é que fulana dormiu, ou com quem é que beltrano foi visto, se para si ser corajoso é ler e comentar essas fofocas, vexa pode até estar satisfeito consigo mesmo e encher o peito: eu sou corajoso e tal. O Pedro Rolo Duarte é corajoso e tal. Sim pode fazê-lo, está no seu direito e faça bom proveito, mas, eu direi: Vexa, não passa de um portuguesinho. Lamento. O portuguesinho não é nada de especial, mas ainda assim em versão limitada. O portuguesinho é aquele tipo que se assemelha a um adepto de um clube, sendo invariavelmente adepto mesmo. Trata tudo a eito como se estivessem a tocar no seu clube do coração. Ora, do portuguesinho não se espera grande coisa, pois não?


É curioso que alguém que assina mas não tem a coragem de dizer quem é (eu linkei o meu nome...) venha para aqui arrotar postas. As escutas foram autorizadas por um Juiz, a pedido de um Procurador e segundo um grande especialista na matéria, que lecciona na Universidade de Coimbra, são válidas e não deviam ser destruídas (e não vi o PGR ou PSTJ ou meninos de coro do PS dizerem nada sobre os argumentos de Costa Andrade - porque será?).

As escutas apenas provam que o PM (sigla que significa Primeiro Ministro e não Primeiro Mentiroso) se equivocou por diversas vezes quando jurou aquilo que não era verdade; mostra que o PS e a sua boysada joga a um nível que põe o Nixon e sus muchachos numa III divisão; mostra um país caído, cheio de mentirosos, trafulhas e aldrabões, que assobiam para o lado e põem o aparelho a atacar quem lê o que passou neste caso. Porque não processam o Correio da Manhã ou dão autorização para a totalidade das transcrições das escutas sejam publicadas?

É triste chegarem tão baixo...


Paulo Ribeiro
Desculpe? (Ponho o monóculo) aonde é que o amigo me leu a criticar a existência de escutas? Aonde? Repare o seguinte se quiser e tiver a cabecinha limpa: o problema não são as escutas, nem nunca foram, ok? O problema a é sua divulgação, certo? Isto já foi mais do que falado mas ainda assim veja bem: imagine que Vexa é escutado pela PJ porque suspeitam que anda a trair a sua mulher. Vexa de facto tem mantido uma conversas "picantes" e brejeiras com um amigo, sim amigo. Chame-lhe menina, diz que lhe vai beliscar o rabo e outros quejandos. Bom, vai daí, o Juiz de Direito que mandou gravar as conversas, decide abrir uma investigação, na qual, os inspectores chegam à conclusão de que tudo não passava de palinódia entre dois heterossexuais casados. Que faz o senhor Juiz? Destrói ou manda destruir as gravações e conclui o inquérito com um despacho de arquivamento. Ou seja, a sua mulher e Vexa, nem sequer chegarão a tomar conhecimento que uns quantos marmanjos consideravam-no um ganda maluco homossexual e adultero, certo? Nem ninguém (a comunidade). Caso em que Vexa poderia continuar a aparecer no trabalho e no café de cabeça levantada, certo? Agora, imagine que antes da investigação ou inquérito, a PJ ou o Juiz ou quem quer que seja, colocava as referidas escutas na praça pública, ou, melhor, imagine que depois de arquivado o inquérito, ainda assim, se colocavam as escutas na praça pública. Aí eu pergunto ao portuguesinho curioso que Vexa é: conseguiria convencer a sua mulher e o seu vizinho de que não andava a atracar por trás? Conseguiria? Talvez sim. Talvez a sua mulher acreditasse em si (com uma pontinha de dúvida), mas, o seu vizinho, aquele com quem às vezes troca algumas atoardas, esse, trataria de elogiar o trabalho de quem divulgou as escutas e de quem a amplifica. Por fim, deixe-me dizer-lhe uma coisa complexa. A liberdade e o Estado de Direito são ambas categorias frágeis. Quando defendemos princípios e valores não podemos olhar para as pessoas, não podemos personalizar. Sabe porquê? Porque nos arriscamos a confundir a frigideira com a refeição preparada nela.


jeronimomig
Parabens pela sua lucidez, Paulo Ribeiro.
Mas não deixa de ser triste a quantidade de gente que aceitaria a existência de uma Stasi que só atacasse quem detestam. Os princípos e os valores para esta gente, onde se inclui o autor do post, são secundários ou irrelevantes.


Entrámos no domínio do insulto... Só aprovei este post para se perceber o que digo abaixo...

deixado em 2/7/10 às 14:15
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Caro "Paulo Ribeiro":

Acima do direito à privacidade está a Lei e o seu cumprimento.

Não me interessa nada se um qualquer "senhor engenheiro" foi passar férias para Espanha na companhia de um brasileiro, se praguejava, se insultava ou traía a mulher (estas partes poderiam e deveriam ser retiradas das escutas ou das suas transcrições).

Tudo o resto, que prova que temos primeiro ministro mentiroso e que está rodeado de uma máfia político-económica capaz de fazer corar de vergonha Itália nos anos 80 ou Chicago nos anos 20 e 30 do século passado. já me interessa e devia interessar V. Ex.cia.

E foi aí que chegámos porque a malta dos aventais e o grupo dos Juízes engajados politicamente assim quis. E não se queixe do resultado, queixe de ter um chefe que é tão parvo ao ponto de mentir aos tribunais, ao Parlamento e aos meios de comunicação sobre coisas que facilmente se comprovam - nem era preciso o Correia da Manhã dar ao trabalho.

Como está a fazê-lo e ninguém o processa (é curioso...), caro anónimo, há que recordar a porcaria que é e faz José Sócrates e a máfia que o rodeia.


Paulo Ribeiro
Caro Pedro Rolo Duarte, tenho para mim que vexa é um bom tipo. Agora, tem revelado tiques de parcialidade. Que saiba e é visível , os meus comentários são acirrados e combativos mas nada ofensivos. Já o comentário deste amigo Fernando é ofensivo e caluniador de gente que ele mal conhece. Creio e penso não estar enganado, ao dizer que o Pedro Rolo Duarte é uma pessoa de bem, que tem os seus estados d'alma , e aí nada a dizer, visto que cada um pensa o que quiser . O que não é aceitável é a lama, o nojo e vómito passarem sem uma palavra sua. Obrigado.

deixado em 2/7/10 às 16:13
responder a comentário | início da discussão

Excelente posta, Pedro. E deixemos a coisa cair por si, o primeiro meteoro vai ser já quando Bruxelas desautorizar a trafulhice no negócio da Vivo. A seguir parecem dominós.


Paulo Ribeiro
Um último comentário ainda com o monóculo posto. A tarefa de um democrata liberal por vezes é ingloriamente recorrente a desmascarar as tramas criadas por gentinha humilde de cabeça. O homem eterno tem destas desventurosas situações uma lição importante: o homem comum foi desvirtuado a tal ponto, que hoje, não passa de um comentador de tudo à sua volta, agressivo; é gente com uma "deselegância inata", sim, sim – os que ofendem, os que falam e escrevem sobre assuntos que não dominam ou pelo menos não têm a informação toda, todos esses acabam por cometer um erro ou petição de principio: tentar provar algo, com aquilo que de si carece de prova. E na verdade, a forma como escrevem revela a forma como pensam, soam exatamente como se desafinassem, e ofendem clubisticamente como se dessem tremeliques, e tentam ser sarcásticos como se estivessem a fazer uma ceninha e gritando “you guys are full of shit!!!!!” – os cinco pontos de exclamação são característicos , e é como se estivessemos a ver os seus esgares estranhos, risinhos descontrolados e jactos involuntários de saliva. Outros, repetem coisas (que não são comprovadamente verdades nem sequer mentiras e que não excluem todo um edificio jurídico construído com labor ao longo de séculos) como se fossem as mais acabadas verdades e de uma forma magoada como se estivessem a pedir: olhem para mim e vejam como eu, ao contrário destes, sou um tipo decente. Por favor, olhel bem para mim que escrevi isto. E isto é como se tentassem jogar um copo d´água na nossa cara. Se contrariados, uns e outros, saem arrastados e a rasgar as vestes e a bater no peito enquanto gritam que não é justo. Falam de cen-su-ra, falam de bandidos e vigaristas. Aqui, realmente, quem é bandido e vigarista?

deixado em 2/7/10 às 10:47
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Entrámos no domínio do insulto e do baixo nível. Este blog tem os comentários moderados há já algum tempo justamente pelo destempero de alguns leitores que acham que vale tudo e que isto aqui é tudo estrada. Não é. Dou (este) debate por encerrado, lamento o nível a que desceu, apesar de alguns excelentes contributos.

deixado em 2/7/10 às 14:16
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