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Quarta-feira, 30 de Junho de 2010

Vou apressado para o carro estacionado no esventrado Parque Mayer. Faltam poucos minutos para o jogo de Portugal, está muito calor, e eu vou apressado para o carro que ficou de frente para o que resta do Teatro Variedades. Ou será o Capitólio? Há paredes entaipadas e obras a alimentar a pó o calor, lembro-me da galinha corada da Dona Mimi, e incomoda-me o calor do alcatrão, o calor do pó, o calor da degradação e da decadência.

Mas, num breve fotograma deste quadro miserável, o meu olhar é chamado para um cartaz que recorda um passado daquele lugar. E eu reconheço um nome, um apelido que é um nome que orgulha o nome que tenho.

A pressa deixou de ser apressada e o calor parece que abrandou. A ansiedade desapareceu, Portugal não precisava de mim para começar a jogar, nem eu dele.

Como se fosse um oásis no deserto de um dia, ali estava o meu pai a olhar para mim num cartaz. E eu a pensar assim: Pedro, aprende com os erros dele, deixa lá essa ansiedade e essa pressa. Portugal pode começar a jogar sem ti. E tu sem Portugal. E este encontro merece um sorriso, e a doce memória que persiste em aliviar as dores. Vês, Pedro, às vezes tu sabes como se faz.

E então parei, respirei fundo, sorri para ele, e tirei uma fotografia:

 

 

 


publicado por PRD às 09:45
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6 comentários:
Enternecedor.
E, como viste, Portugal não precisou de ti para nada.
Gostei do registo intimista.

deixado em 30/6/10 às 09:54
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"A pressa deixou de ser apressada"...ando a tentar aplicar este "conceito" à minha vida pois, a beira de fazer 40, cheguei à conclusão que a pressa quase nunca merece ser apressada.
Paula

deixado em 30/6/10 às 13:41
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Pedro Lomba
Belo texto, Pedro.

deixado em 30/6/10 às 14:53
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às vezes o Pedro sabe como se faz ...e muito bem!!!!
enternecedor, belo.
um encontro inesperado...ou não, quem sabe?!

que bom ler isto no dia em que só se discute daquilo...

deixado em 30/6/10 às 15:10
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E eu comovi-me, pá. Maravilhoso post. Gosto de ti seco, crítico, assertivo. Mas parece que ainda gosto mais quando a prosa te sai de dentro do coração. Ou da alma. Ou de ambos.
Beijo.
SMS

deixado em 30/6/10 às 18:55
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Un crêpe-sur-mer
Uma vez o meu avô, sentado no sofá, numa vida pouco apressada. Até porque profissionalmente um juíz do supremos não pode nem deve ser apressado. Tudo tem que ser bem pensado, bem medido, bem estudado, dizia a olhar os outros: Os que passavam a correr para almoçar. Com pressa de partir sem acabarem de chegar:
- Correm todos para o fim e não percebem. Depois descansam. Depois têm tempo.

O meu avô, ao contrário da maioria das pessoas, chegou lá,em passo de passeio. Teve tempo para ler, para trabalhar, para ter família, para os amigos, para escrever. Como era que se fazia avô? Fiquei sem saber...

deixado em 1/7/10 às 16:39
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