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Pedro Rolo Duarte

10
Jul10

Melgas e excepções

(Crónica originalmente publicada na última edição da Lux Woman. Agora, que estou todo mordido dos pés à cabeça, volta a fazer sentido...)

 

Sempre ouvi dizer que os Invernos prolongados, ou os Verões tardios, multiplicam os insectos – o que resulta, logo que o calor desponta, numa praga de melgas, mosquitos e outros “chatos profissionais” que arruínam os finais de tarde em toda a parte e as noitadas ao ar livre perto da água. É onde me encontro: ao ar livre, de noite, com o computador ao colo, a praticar uma estranha e pouco eficaz dança de braços e mãos contra uma dose de bichos que persistem em querer fazer de mim o seu “prato do dia”. Tinha comprado umas velas com um cheiro esquisito que aparentemente afugenta a bicharada. Dentro de casa tenho aqueles aparelhos que se ligam à electricidade e teoricamente impedem as melgas de darem à costa. Também uso repelente, em momentos mais difíceis. É a primeira noite efectivamente quente do ano e não vou dispensar o serão ao relento…

Na verdade, nada faz efeito. Exceptuando um jornal enrolado na mão contra uma parede branca - com o conhecido efeito secundário da marca preta no branco… -, não há como vencer os insectos. Eles entram onde não há entrada, sobrevivem a ataques cerrados, são intrusivos mesmo quando sabem que têm as horas contadas. Mordem, picam, deixam marca, infectam, provocam comichão, alergia, irritação, urticária. Como se não bastasse, são desmancha-prazeres: aparecem sempre que queremos estar ao ar livre e com pouca roupa, mas não dão sinal de vida no Inverno…

Ao contrário do que sucede com a fruta, com os legumes, com os peixes, que se “cultivam” todo o ano em estufas, em aquários, e que se transportam de um canto do mundo para o outro, permitindo comer tomates ou morangos ou mesmo uvas praticamente todo o ano, já com os estupores dos insectos ninguém se preocupa. Devia ser simples mudar-lhes o código genético de forma a terem existência em Dezembro e Janeiro e prisão forçada na Primavera e Verão…

Neste momento, imagino leitores e leitoras agarrados ao mail a escreverem-me manifestos detalhados sobre a importância vital das melgas e mosquitos no equilíbrio ambiental do nosso mundo. Imagino que, sem esses sanguessugas, o planeta perdia a rotação e as nuvens vulcânicas cobririam as nossa existência para todo o sempre… Mas confesso que tais explicações me dizem muito pouco.

Se dependesse de mim, as 800 mil espécies de insectos que sobrevivem na Terra eram pura e simplesmente extintas. Armado em pequeno Hitler, lá mandava um exército de insecticidas dizimar os milhares de milhões de incómodos bichos. Não era improvável que ganhasse eleições com este especifico programa eleitoral.

- E as abelhas?, pergunta alguém ao meu lado. As abelhas? Olho à volta à procura de um assessor, mas não está ninguém. As abelhas? Mas as abelhas são insectos? As fabulosas e trabalhadoras abelhas, que produzem um dos mais ricos alimentos que conheço, e que pertencem ao nosso imaginário desde os tempos da clássica Maia, pertencem à família destes invertebrados sem graça nem história nem obra? Pois parece que sim.

Lamentavelmente, sim. Todo o meu plano, a minha obra, o projecto de uma vida, corre o risco de ruir. Se arraso os insectos, lá vão as abelhinhas misturadas com as moscas e os mosquitos. Não pode ser. Mas já que estou em campanha, e quero mesmo ganhar, posso sempre convolar a situação: sim senhor, vamos acabar com os insectos, mas abrimos uma excepção para as abelhas. Quero as abelhas vivas e mel por todo o lado. Nem todos os insectos são assim tão insectos. Iguais, sim, mas uns mais iguais do que outros. O costume.

Eu não dizia que estava perigosamente perto da política?

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