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Pedro Rolo Duarte

02
Ago10

Sobre o Mário

Algures no Outono de 1992 recebi uma chamada de Mário Bettencourt Resendes, director do Diário de Notícias. Eu era um colaborador regular do suplemento de espectáculos do jornal, mas tinha chegado ao DN propondo o meu trabalho a Rogério Petinga e Pina Cabral, e não conhecia pessoalmente o director.

Mário Bettencourt Resendes convidou-me para cear com ele no Gambrinus. Fiquei estupefacto com o convite, vindo de uma pessoa com quem nunca tinha falado. Na verdade, chegado ao restaurante fui obrigado a pedir ajuda a um dos empregados, porque nem sequer conseguia identificar fisicamente o Mário. Nessa altura, ele ainda não era um comentador na televisão.

Uma hora depois de me ter sentado, tinha um “pequeno problema” entre mãos: aceitar ou não o convite que me fazia, ali mesmo, à mesa do Gambrinus, para ser editor executivo do Diário de Notícias.

Acabei por não aceitar o convite (coincidiu com o desafio de Cáceres Monteiro para fazer de raiz a newsmagazine que se viria a chamar “Visão”…), mas o episódio ficou-me marcado como um sinal do homem e do profissional que era o Mário. Não pelos meus eventuais talentos, que não são para aqui chamados nem interessam – mas pelo facto de, num país (e num meio…) que vive de amiguismos, conhecimentos, favores e trocas de favores, haver um director de um grande jornal diário que desafia para um lugar de responsabilidade um jornalista de quem não é amigo, que não conhece, e em quem aposta apenas pelo que conhece profissionalmente dele.

Nunca antes tal me tinha sucedido. Nunca tal me voltou a suceder. Nunca esquecerei – e felizmente tive oportunidade de, em vida, lhe dizer o que sentia sobre esse momento. O Mário respondeu: “Lá está o Pedro a exagerar…”. E sorria. Mas ele sabia que me ensinou nesse dia a ousar arriscar - e por causa disso, anos mais tarde, eu também soube convidar quem não conhecia e pensar esta profissão com horizontes mais largos.

Claro que aquele momento foi o começo de uma longa história – saltei do suplemento cultural para colunista regular do primeiro caderno, dois anos depois desafiou-me para fazer critica diária de Telejornais, e depois veio o DNA. O Mário sabia muito bem como modernizar o Diário de Noticias, conciliando passado e futuro sem conflitos maiores do que os essenciais (foi no seu tempo que o jornal voltou a ter vendas que se vissem, facto irrepetível até aos dias de hoje).

Tornou-se, para mim, um mestre na arte da diplomacia jornalística, que consiste em conseguir puxar pelo melhor de cada profissional e, ao mesmo tempo, deixá-lo livre para se desmultiplicar. Independentemente dos vários pais e padrinhos que o DNA teve, o Mário foi seguramente o seu mais entusiasta defensor, e o responsável pela liberdade criativa que a equipa do suplemento teve sempre. Sempre. Nunca me questionou mais do que o óbvio sobre o suplemento. Nunca me pediu para fazer uma capa com este ou aquele. Nunca me criticou por ter feito capa com pessoas de quem não gostava ou que tinham conflitos com o próprio DN. Defendeu-me várias vezes nas pequenas e médias tricas internas que o suplemento foi provocando ao longo dos anos, e sei que me poupou e amparou dos golpes e pressões clássicas sobre o meio. Às vezes falava sobre um ou outro politico que insinuava gostar de ser entrevistado para o DNA para mostrar o seu “lado humano”, mas sempre em tom de brincadeira. Nunca me disse o nome de um único que tivesse tentado a sua sorte.

Uma vez por ano, jantávamos. Era um sábio do jornalismo, e tinha uma capacidade única de relativizar aquilo que, pela minha natureza, tendia a radicalizar. O Mário ensinou-me algo que ainda hoje é precioso: para se ser um pouco mais feliz às vezes basta ser um pouco mais ponderado. O suficiente para transformar um drama num caso. Ou menos que isso.

Num momento critico da minha vida, quando fui falar com ele e anunciar que ía meter baixa médica e deixar o jornal durante alguns meses, ele levou-me ao barzinho do hotel das traseiras do DN e em frente a um copo perguntou-me:

- Pedro, tem lá quem tome conta do DNA? Pode fazer um telefonema por semana a controlar a coisa? Mantém aquilo mesmo à distância?

Respondi que sim. E ele: “Esqueça lá isso da baixa, vá tratar de si e volte quando estiver bom. Quem é que nunca passou por isso?”

Escrevo estas histórias e comovo-me. Mesmo. Juntamente com o Cáceres Monteiro e o Miguel Esteves Cardoso, o Mário foi o meu director de referência. Nunca deixei de o tratar por director, antes e depois de ser meu superior directo. Ele não permitia qualquer espécie de subserviência tola, e ria-se quando ainda agora lhe chamava director – mas sabia que eu o fazia por admiração e com profundo gosto.

Hoje de manhã, quando acordei e vi a mensagem da Sónia, passaram-me estes episódios todos pela cabeça. E mais um jantar em Achen e um encontro em Bruxelas, momentos irrelevantes que acabam por ser sal e pimenta dos dias. Sabia que estava pior e que o tempo começava a ser finito. Mas nós nunca queremos saber mais do que o que está antes do que não queremos saber. Não sou excepção.

Sorte daqueles que conheceram e privaram com o Mário Bettencourt Resendes. Pobres dos que nunca perceberam o que o distinguia.

E quando o encontrar, quer ele queira ou não, vou tratá-lo como desde sempre: “oh director…”. Foi sempre assim, sempre assim vai ser. Onde quer que esse “vai ser” ganhe vida. Não me enganei: disse vida, sim. Quem fica connosco nunca morre.

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