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Pedro Rolo Duarte

11
Ago10

Apesar do calor

Na silly season, silly issues – deve ser uma qualquer lei (não escrita) do jornalismo moderno. Mas no meio dos silly itens, a revista de domingo do El Pais surpreende com um tema de capa insólito num tempo de “pensar nada”: “Porque não sou feliz?”. O pretexto é justamente contrário à lógica que determina a época – se este é o tempo de recarregar baterias e ter a mente disponível, vamos aproveitar para nos prepararmos para ganhar outro espírito, outra disposição. E conhecermo-nos um pouco melhor.

Lá dentro, o dossier abre com uma “ementa” fina de perguntas – “o que fiz recentemente para estar melhor comigo próprio? De que me serve sofrer? Em que situações faço de vitima? Quando foi a ultima vez que experimentei paz interior?”. E a matéria é construída a partir de depoimentos longos – a cada um corresponde, na prática, um caminho para uma qualquer ideia de felicidade.

Comovi-me com um, fiquei a pensar noutro.

 

Comovi-me com Pilarin Romero de Tejada, viúva de 89 anos, um casamento feliz de 60 anos. Depois de uma infância e juventude sofridas, órfã, pobre, Pilarin encontrou o homem da sua vida. Com ele construiu raízes sólidas, uma vida, família. Soube valorizar, aproveitar e viver o que vida lhe “ofereceu” depois de danos e perdas. Amou durante 60 anos o mesmo homem. E diz: “com ele aprendi que nada nem ninguém nos pode causar maior dano do que os nossos próprios pensamentos.”; “a vida é tão sábia e generosa que não nos dá o que queremos, mas apenas o que necessitamos para aprendermos a ser felizes por nós próprios”. Quando o marido morreu, achou que lhe faltaria água para regar a flor que ele sempre viu nela. Mas resistiu.

 

Fiquei a pensar nas palavras (que traduzo de forma muito livre) de Albert Figueras, médico dedicado ao estudo dos mecanismos químicos do bem-estar: “A ciência diz que percebemos como nos sentimos por efeito do contraste. Assim, quando alcançamos certa riqueza exterior é mais fácil apercebermo-nos da nossa pobreza interior. Aprendi que a felicidade – talvez provocada por uma substancia chamada oxitocina – consiste em apreciar as pequenas grandes coisas que passam por nós no dia-a-dia. E que esses breves instantes se escapam facilmente quando aparece o desejo de querer que suceda algo que não está sucedendo. O desejo coloca o nosso centro de atenção no que não temos, no que nos falta, no que poderia ser melhor, causando-nos grandes doses de sofrimento. O desejo embrulha-nos em recordações do passado e fantasias com sonhos futuros, deixando-nos perder por completo o presente, que é o momento único em que podemos ligar-nos à felicidade”.

Em calhando, isto faz todo o sentido. Mas não deixa de ser verdade que muitas vezes esse presente que nos liga à felicidade vem de trás. Ou quer ir para a frente. Ou ambas as coisas, porque se resume a um só momento.

… O facto de estar calor e estarmos de férias não nos impede de pensar – lá está, deixar cair dogmas e manias pode ser um bom começo também…

 

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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