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Pedro Rolo Duarte

31
Ago10

Tenho um amigo que faz azeite

O meu amigo Gonçalo Rosa da Silva, que conheci nos bons tempos do Liceu de Camões e se manteve por perto – e eu por perto dele – até aos dias de hoje, amigos e cúmplices disto e mais umas botas, sempre foi um homem ligado ao campo, à natureza. Apesar de cosmopolita – estudou fotografia em Londres, viajou por todo o mundo, é hoje editor fotográfico da revista Visão -, nunca perdeu o “chamamento” da terra. E a ela volta, na paisagem alentejana de Moura, seja para reconstruir um monte ou passear pelas ruas da vila e voltar a ser o filho da terra, para uma época de caça ou um fim-de-semana entre amigos à volta da lareira.

Há tempos, falou-me com entusiasmo de terras herdadas onde noutros tempos a sua avó produzia azeite. Estudou, investigou, percebeu a lógica das variedades da oliveira que os antigos tinham estudado e plantado para que, na mistura final, o azeite conseguisse o sabor e a acidez desejadas. Azeitona galega, cordovil, verdeal, que proporção, que tempo de maturação? Sonhou então voltar a fazer azeite.

Quando o Gonçalo sonha, se apaixona e envolve num projecto, ninguém o consegue deter. E nos últimos dois anos eu fui ouvindo, a espaços, a evolução desta redobrada paixão: plantar as oliveiras, perceber os tempos da azeitona, procurar a garrafa certa, o lagar que cumpria as exigências. Garantir a colheita no tempo, o transporte, os rótulos, as análises, as provas cegas.

Há uns meses, o Gonçalo apareceu-me com uma lindíssima garrafa escura, pose antiga, e um rótulo de design clássico e elegante: “Angélica”. O azeite que ele sonhou. E concretizou. No contra-rótulo, a explicação: “Nos anos 40, já viúva do meu avô Armando, Angélica Rosa da Silva assumiu os destinos da lavoura e de Manantiz, o monte principal situado a dez quilómetros de Moura, onde durante alguns anos viveu e criou os filhos. A produção de azeitona era na altura, tal como hoje, a riqueza da propriedade. O azeite que aqui se apresenta é uma homenagem à minha Avó Angélica, a quem devo o gosto pelo campo e pelas tradições do Alentejo”.

O azeite tem passado testes e provas profissionais com altíssima classificação. É um azeite especial, de sabor vincado e profundo. Perfeito para o meu gosto: frutado, gosto de o misturar no manjericão, no tomate, na mozarela. Molhado no pão, ganha ainda mais vida.

Há poucos dias, recebi da Anabela, a mulher do Gonçalo, uma foto tirada no telemóvel com garrafas de Angélica nas prateleiras da loja Gourmet do El Corte Inglês. O azeite, que era uma brincadeira de 500 litros, não ficou no romantismo da atitude. Foi além. Sorri e pensei: quem ama o que faz, faz bem e vence sempre.Tenho muito orgulho em ter um amigo chamado Gonçalo Rosa da Silva. Faz azeite. Que coisa mais bonita.

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