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Pedro Rolo Duarte

04
Set10

A vida aos 14 anos

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman)

Se eu mandasse alguma coisa na educação, começava por declarar guerra ao 9º ano. Já no tempo em que andei no Liceu era um degrau a abater, passados mais de 30 anos continua a ser a pedra no sapato de milhares de estudantes. Votarei no Partido que acabe com este vírus que contamina toda a população estudante entre os 14 e os 15 anos.

O meu filho viveu agora o drama do “nono”. Ter exames. Ter de escolher áreas especificas para o 10º ano, cadeiras que determinam acessos à Universidade, caminhos aparente reversíveis mas, na realidade, determinantes para o futuro. A angústia de uma escolha que não se sabe se é. A tentação de seguir o instinto natural das disciplinas que nos parecem mais fáceis, ou mais divertidas.

Quem é que se lembrou desta peregrina ideia de obrigar miúdos de 14 anos a ter uma ideia, por vaga que seja, do que pretendem fazer na vida?

Quem terá sido o esperto que se esqueceu do que é a adolescência? Hormonas aos saltos, a descoberta da sexualidade, da amizade, dos primeiros valores (ou falta deles): a lealdade, a traição, a fidelidade, a mentira, a verdade. Um tempo de descoberta, só descoberta, sem lugar para decisões definitivas – apenas espaço para dramas imediatos, radicais, “não é agora, é já”. E uma mente por formar, por definir.

O meu filho saiu aos papéis do nono para o décimo ano. À procura de um caminho, sem saber bem o que fazer. Senti-me impotente para o ajudar – não por ter tido a sorte (ou terá sido azar?!) de ter querido ser sempre a mesma coisa desde os 6 anos -, mas por ter a profunda convicção de que, nesta idade, todas as escolhas são falíveis, imaturas, desatinadas. Em rigor, se algum conselho lhe poderia dar, seria o pior de todos: espera mais uns anos...

A sociedade, nesta como noutras matérias, não tem tempo “a perder” nem deixa que seja ganho o tempo que se perde. Crescemos aprendendo a viver nesse ritmo, os nossos filhos nem conhecem outro. Por isso, não me restou mais do que observar os seus talentos, gostos, tendências, e fazer disso tema de conversa com ele.

Os testes psicotécnicos ajudam. O talento natural ajuda. O trabalho de casa do pai e da mãe também ajudam – mas aos 14 anos, tudo é demasiado falível. E aqui estamos então, a rezar para que não tenha falhado a escolha das áreas, das disciplinas, as Matemáticas Aplicadas às Ciências Sociais, as escolas onde há, ou não há, as alternativas, os caminhos.

Os dados estão lançados e o melhor que pode acontecer é não ter errado na rua deste gigantesco cruzamento. É no momento em que tudo fica arrumado, decidido, que leio numa revista a biografia de um actor, filho de actores, que deambulou anos a fio por profissões e trabalhos que lhe desgostavam, até ao dia em que, desanimado, conversou com o pai sobre os erros de percurso que sentia ter cometido. O pai, mais velho e sábio, explicou-lhe com meridiana clareza a forma como tinha decidido ser actor:

- Procurei fazer algo de que gostava, claro. Mas isso era pouco. Precisava de um argumento mais forte. E descobri-o: queria um trabalho de que gostasse tanto, tanto, que até o fizesse, se fosse esse o caso, sem receber qualquer salário.

Fechei a revista, animado com a ideia de passar este conceito ao meu filho. Sim, claro que ele entende o que está subjacente àquela declaração. Mas, uma vez mais, o problema não é esse: aos 14 anos, nem essa noção é clara, porque tudo é ainda gratuito e salário não é palavra do seu vocabulário.

Lá está: quem pensou o ensino que temos nunca deve ter tido 14 anos.

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