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Pedro Rolo Duarte

02
Jan08

Um país empoleirado na sorte

Já voltámos todos? Já.

Então vamos à realidade.

Deixem-me fazer um bocadinho de jornalismo e contar isto: quando as "autoridades" se regozijam com a diminuição do número de mortos e feridos nas estradas no Natal, ou no ano novo, não estão efectivamente satisfeitas com os números, estão a rezar para que nada corra mal nos dias seguintes. Correr mal é um acidente como aquela excursão que matou 16 idosos de Castelo Branco, e com isso estragou toda a estatística que iria fazer de 2007 um ano "fabuloso" na sinistralidade rodoviária.
Em Portugal a estrada mata porque se conduz mal (problema criado pelo Estado, que tornou a “venda” da carta de condução num negócio altamente lucrativo e com escasso controlo), porque as estradas são más ou estão mal mantidas e sinalizadas (problema do Estado e da corrupção no Estado), porque temos carros de merda mesmo quando parecem bons (sucata importada, revisões feitas à revelia das marcas, etc.), porque o Estado confunde prevenção e controlo com caça à multa e negligência, e porque somos mal-educados e prepotentes (problema que passa pelo Estado, mas efectivamente não lhe diz respeito), além de mal pagos (a maioria dos condutores profissionais trabalha em regime extraordinário).

O que daqui resulta é explosivo: como o Estado não melhora o ensino da condução nem as vias de comunicação (a não ser com portagens, o que explica o sucesso da Brisa e os seus felizes dados estatísticos nestas matérias…), como a policia anda na estrada mais para multar do que para prevenir, e como o país também não evolui, o balanço anual da sinistralidade vive empoleirado na sorte, travestido de radares e tolerância zero. Se calha não haver uma tragédia como a dos velhinhos de Castelo Branco, o ano corre bem e o Governo marca um ponto. Se, pelo contrário, há um azarado rebentamento de pneu que mata 20 cidadãos (ou um único despiste com quatro mortos, como sucedeu este fim de semana), lá vai a estatística para o galheiro – e lá vêem mais duas ou três leis para punir os condutores, além da associação dos auto-mobilizados no regime fundamentalista (que arrasa qualquer réstia de homem de esquerda que ainda paire sobre mim…).

A diminuição do número de mortos num dado período não diz nada sobre o estado das coisas porque é ponderada sobre o acaso numérico. É diferente haver, na mesma estrada, quatro vítimas num único acidente ou em quatro acidentes distintos – e nessa diferença se estabelece, por exemplo, o nível de perigosidade de uma via… Os gráficos são bonitos de mostrar, mas mentirosos na vida real. Nos noticiários, no entanto, tudo se resume à estatística. Estamos no domínio da falácia.
Todos os anos é assim e continua por fazer esse trabalho: pegar numa operação Natal ou Ano Novo, e ir conferir, caso a caso, o que aconteceu, quem morreu, quem morreu depois de ser declarado apenas ferido. Voltar ao lugar. Ler os relatórios das autoridades que presumivelmente estudam as condições em que os acidentes ocorrem. A incidência em determinadas estradas. A diferença nas auto-estradas pagas. Enfim, fazer da estatística uma realidade e não apenas, como de costume, um belo número para alertar umas consciências e tranquilizar as outras.
Pronto. Foi a minha contribuição para um começo de ano mais lúcido.

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