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Pedro Rolo Duarte

23
Set10

Portugal (realmente) pequenino

A propósito da indignação de João Gonçalves por eu ter criticado o seu herói Manuel Maria Carrilho, o blogger do Portugal dos Pequeninos - que eu aprecio apesar do azedume com que vive os dias, ou talvez por causa disso... – decidiu confundir alhos com bugalhos e escrever: “A uma pessoa que vai a tribunal testemunhar contra um colega de profissão - caso RTP vs. Eduardo Cintra Torres - recomendar-se-ia um módico de contenção "moralista". Mas a vida é cada vez mais um bordel, perdão, um hotel babilónia, não é verdade?”.

Descontando o facto do próprio João Gonçalves já ter andado pelo bordel, perdão, pelo Hotel Babilónia - e não consta que lhe tenha desagradado... – o problema do post é que não se percebe o que tem uma coisa a ver com outra. Carrilho e Cintra Torres no mesmo saco, qual é a lógica? Não consigo entender. Fiquemos assim neste ponto.

 

Mas, como não é a primeira vez que vejo o “Caso Cintra Torres vs RTP” servir de mote para dúvidas sobre a minha ética, devo esclarecer o João Gonçalves, e mais uns tantos putativos juízes de algibeira, do seguinte:

 

1. Eu aceitei ser testemunha dos profissionais da RTP contra Eduardo Cintra Torres (ECT) quando o processo foi espoletado, isto é, quando o artigo de ECT que lhe deu origem saiu no jornal Público. Isso ocorreu em Julho de 2006. Quem insinua que aceitei dar o meu testemunho porque colaboro na RTP-N está mal informado ou mente com quantos dentes tem: a minha colaboração na RTP-N começou apenas em 2009 (e foi a convite do seu director, José Alberto Lemos).

 

2. O João Gonçalves “acusa-me” de testemunhar contra um colega. Isso daria pano para mangas – primeiro, porque não sou corporativo nem vejo a classe jornalística como um corpo único, uma massa informe, que precise de “unidade sindical” ou “moral”. Cintra Torres, para mim, não é jornalista – mas mesmo que fosse, jamais tal facto me condenaria ao silêncio cúmplice para com uma alarvidade ética. O pior que uma classe profissional pode ter é justamente esse corporativismo idiota que, no passado, levou a injustiças sem nome. Lamento que o mesmo João Gonçalves que tantas vezes se insurge contra as corporações do costume venha agora reclamar o espírito que critica e pedir que estejamos todo no coro da paróquia.

 

3. Aliás, gostava de recordar ao João Gonçalves que, quando me viu na Direcção do DN em 2005, o mesmo ECT não deixou de me chamar, num outro artigo do Público, “novel santanista” (!!!) * - o que, além de ser uma rematada mentira (ao menos comigo, vale tudo: sou comuna, sou Sócrates, sou santanete, sou de todos... uma alegria!), é obviamente difamatório para um jornalista que se orgulha da sua independência e do seu percurso. Talvez o devesse ter processado, mas na verdade tinha (e tenho) mais que fazer. Porém, não me lembro de ter visto, nesse momento, o João Gonçalves criticar o ECT por este “ataque” a um colega (longe vá o agoiro...). Enfim, são critérios, não é?

 

4. Mas, e isso é que é relevante, apesar de lhe terem dado uma carteira profissional, Eduardo Cintra Torres está longe de ser um jornalista. É um critico, fraquito, pouco fundamentado, dado à citação de banais livros de referência, que se fez a custo depois de anos a vender antenas parabólicas. Trabalhou para a RTP enquanto fazia crítica de televisão (com contrato assinado, entre outras coisas redigiu perguntas para concursos do tipo Quem Quer Ser Milionário...)  – o que diz muito sobre a sua postura profissional, ética e moral. No artigo que motivou o processo, elogia um único período da RTP em que lhe pareceu que a empresa tinha pergaminhos de independência e isenção – logo por acaso o período em que ele próprio era contratado da empresa... Enfim, manifesta opinião parcial, quase sempre de acordo com os seus interesses pessoais e profissionais. Lembro-me bem do tempo em que escrevia artigos apocalípticos sobre a televisão por cabo porque tinha um negócio de antenas parabólicas que não queria ver falir – a empresa Cintra & Leal, quem não se lembra?...

 

5. O artigo de ECT que serviu de base ao processo da Direcção de Informação da RTP é um manifesto de desonestidade intelectual do mais baixo nível. Eduardo Cintra Torres usou a capa de jornalista para revelar pretensos “factos” mantendo as fontes no anonimato – mas depois, manifestou opinião e tirou conclusões usando a sua faceta de crítico. Ou seja: enquanto jornalista, trouxe factos que não provou, com base em “fontes” anónimas; enquanto crítico, carregou opiniões em cima dos presumíveis “factos”. Foi mau crítico e pior jornalista. Tudo misturado num só artigo. O João Gonçalves que me perdoe, mas só não vê quem não quer. Eu vi, e quando o Luís Marinho me convidou para ser testemunha da sua Direcção, nem hesitei. Fi-lo em nome do jornalismo que defendo e pratico.

 

6. O juiz não quis ver o que eu vi – problema dele. Não estava em causa a liberdade de expressão de Eduardo Cintra Torres, estava em causa uma difamação que não foi provada num processo que inocentou o crítico porque o considerou jornalista. Uma espécie de Olívia patroa, Olívia empregada. Já vi do mesmo noutros processos.

 

7. Este processo deixou em aberto outra questão, que talvez um dia alguém queira debater: a sempre muito rigorosa Comissão da Carteira Profissional deu um título profissional a quem não exerce a profissão de jornalista e o usa apenas para se manter inimputável e acima da lei geral. Se isto merece defesa, óh João Gonçalves...

 

Pronto. Está esclarecida essa questão que anda por aí a pairar, enquanto o Eduardo Cintra Torres caminha para a missa. Os bons são sempre assim.

 

... Sobre Manuel Maria Carrilho, caríssimo João, o que eu penso está escrito e dito. O que tu pensas, também. És livre de não aplicar ao ex-embaixador os mesmos critérios de exigência, carácter e moral que aplicas a todo o bicho careta sobre quem escreves e a quem exiges tudo e mais umas botas, ou que criticas por tudo e nada com ou sem botas.

Mas essa é a maravilha de ter um blog: em tua casa, como diz o povo, “é como queiras”. Tal e qual na minha.

 

* Cá fica a citação integral do "colega" Cintra Torres: “No "DN", onde os escandalosos administradores Bettencourt Resendes e Luís Delgado mantêm colunas de "opinião", a nova direcção tem cinco nomes (!): além dos dois directores, que agradam ao governo, inclui uma nóvel aquisição santanista (Pedro Rolo Duarte) e dois socialistas (Peres Metello e João M. Fernandes)”. Escreveste sobre isto ou nem por isso, João Gonçalves? Só para saber, assim de repente, sei lá...

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