Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

09
Nov10

Quantos graus tem o frio?

Com isto da crise, da necessidade de reduzir o défice, e cortar na despesa, um generoso número de comentadores, devidamente bem empregados – em jornais onde são editores ou directores, em empresas que gerem nos intervalos das prestações televisivas, ou ensinando nas Faculdades que os contribuintes também pagam... -, não hesita em dizer que “O Estado Social é insustentável” ou, como li no Facebook “quem não tem dinheiro não se pode dar a luxos essenciais”. Para este grupo a coisa é simples: quem quer saúde, paga. Quem quer educação, paga. Quem quer viver, paga. E fácil de executar: retiram-se direitos, cortam-se regalias, abandonam-se os inúteis, os velhos, os doentes. Cada um por si.

Leio um deles: “Pergunto-me: porque será que tenho de pagar, com os meus impostos, um seguro de saúde de funcionários públicos e das suas famílias? Se quero um seguro de saúde, pago, se uma empresa estiver disposta a financiar esse seguro, a despesa é sua, não é do Estado”.

Gostava de saber se o discurso destes comentadores muito convictos, assertivos e sábios seria o mesmo caso estivessem desempregados, mal empregados a recibo verde, ou se se vissem na contingência de ter de recorrer aos serviços do Estado por manifesta falta de recursos financeiros, vulgo... dinheiro.

Uma das razões porque sempre ouvi com atenção as gerações anteriores à minha é justamente por terem passado pelos racionamentos na 2ª Guerra Mundial, pela miséria de Portugal nos anos 60, pelas austeridades do PREC. São efectivamente sábias porque, tendo vivido a dificuldade, tendo provado o sabor da carência, não vivem na soberba da abundância e sabem que ao virar da esquina pode estar o infortúnio. É evidente que o modelo de Estado social que temos está em colapso e tem de ser repensado – mas daí ao radicalismo selvagem do “vale tudo” vai ainda uma abissal distância. A mesma que separa a civilização da barbárie.

Na verdade, já é fácil ter opiniões sobre o frio quando se está em frente a uma lareira. Mas é ainda mais fácil quando nem sequer se sabe quantos graus tem o frio.

23 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Blog da semana

Retrovisor. Quem lia A.B.Kotter no velho Semanário habituou-se a gostar de ler José Cutileiro. Neste blog, a escrita é outra, mas continua a ser uma delícia. Pena que o "Expresso", que o tem como colaborador, não lhe dê mais espaço...

Uma boa frase

“Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más." José Cutileiro, Retrovisor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D