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Pedro Rolo Duarte

13
Nov10

O adeus (de todos os dias) daquele senhor

Também me impressionou a morte do “Senhor do Adeus”, João Serra. Mas confesso que a presença solitária daquele homem na noite da avenida, na beira do passeio, a dizer adeus a quem passava, me pareceu sempre demasiado triste para ser uma história bonita. Paradigmática das nossas vidas pequeninas: ele dizia adeus, ele dava-se aos outros, e os outros acenavam... mas nunca paravam.

Ele sorria – mas era um sorriso fingido, ainda que sincero, porque na verdade pedia companhia e só recebia acenos. Era um homem demasiado só – e aqueles que lhe acenavam persistiam em deixá-lo só, numa espécie de hipocrisia transparente e aceitável.

Não tenho a certeza de olhar para este quadro como uma história bonita, mesmo acreditando na generosidade de João Serra e na legítima intenção que o movia. Nas entrevistas que deu percebia-se o gosto pela atitude – mas nunca lhe senti o “adeus” como um fim em si. Ele próprio preferia que se dissesse que fazia um “olá”. Por mais sentido que fosse o gesto das centenas de pessoas que há dois dias foram lembrar o “Senhor do Adeus” no Saldanha, pergunto-me quantas delas algum dia pararam para o cumprimentar MESMO - ou, vá lá, pararam nas suas existências para pensar naquele "nítido nulo" drama, que não consigo deixar de associar a uma qualquer ideia de miséria.

Bonito e terno, solidário e amigo, isso sim, foi o gesto conjunto de Filipe Melo e Tiago Carvalho. Em vez de acenarem e seguirem, um dia pararam e falaram com João Serra. Perceberam que gostava de cinema. Ficaram amigos e passaram a ir com ele, todas as semanas, ao domingo, ver um filme (há um blogue aqui para memória futura). Uma noite por semana, João Serra não tinha de distribuir acenos na avenida - porque efectivamente, por momentos, não estava só.

Aqui entre nós, eu teria preferido deixar de ver, em vida, o “senhor do adeus” cumprimentar quem passava. Era sinal de que a solidão tinha um fim diferente do fim que sabemos agora que teve.

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Retrovisor. Quem lia A.B.Kotter no velho Semanário habituou-se a gostar de ler José Cutileiro. Neste blog, a escrita é outra, mas continua a ser uma delícia. Pena que o "Expresso", que o tem como colaborador, não lhe dê mais espaço...

Uma boa frase

“Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más." José Cutileiro, Retrovisor

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