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Pedro Rolo Duarte

23
Nov10

Psico-Portugal

(Crónica originalmente publicada na edição de Novembro da revista Lux Woman)

 

Cortava-me o cabelo de forma ligeira, rotineira, habitual, e dizia: “Sabe lá, muitas vezes sou mais psicóloga do que cabeleireira – eu oiço as clientes, adivinho-lhes as manias e os dias bons ou maus, oiço de tudo. Devia até ganhar um extra…”.

Dias antes, à noite, num táxi, o motorista: “O senhor não imagina, mas aqui ao volante somos os médicos dos clientes, como se fossemos psiquiatras a ouvir as maluquices que nos contam. Até de consultor sexual já fiz”.

Há bocado, na televisão, reportagem sobre o estado da justiça. Fala um advogado: “nós somos advogados, mas também somos psicólogos e médicos dos nossos clientes. Quando se trata de direito da família, nem se imagina os conselhos que damos. Até costumo dizer que, entre noivos, mais do que medicina preventiva, deve ser feita advocacia preventiva”.

Agora mesmo, num artigo de jornal sobre prostituição: ela, a prostituta, diz ao jornalista que se sente psicóloga dos seus clientes. “Muitos nem querem sexo, apenas desabafar sobre a condição em que se encontram. Outros, fazem do sexo o seu tratamento, encontramos aqui de tudo”.

Acordo para esta sequência de ideias repetidas, feitas, corriqueiras, e percebo por fim o que se passa em Portugal: somos todos psicoterapeutas de todos os outros que são doentes como nós. Estamos deprimidos por inteiro – mas revezamo-nos nesta condição, devolvendo-nos a rábula que, noutra dimensão, a actriz Ivone Silva popularizou: era a “Olivia patroa, Olivia empregada”, passa a ser a “Olivia deprimida, Olivia psicóloga”.

Andamos a reboque uns dos outros, desabafando no cabeleireiro ou no dentista, no advogado ou no balcão do café, tapando as nossas insuficiências com as insuficiências alheias, fingindo que somos o troféu de sensatez, e usando a velha máxima: “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”.

Enquanto isso, os psicólogos devem viver a maior crise de sempre – porque há crise mesmo, e porque qualquer taxista os substitui. Porque a sabedoria e o estudo de poucos lhes serve, qualquer profissional dedicado às madeixas e nuances, ou à barra do tribunal, pode fazer diagnóstico e respectivos caldos de galinha.

Sei que é absurda a ideia. Mas ela remeteu-me para o único momento (de que me lembro…) em que senti que estava a perder o pé à vida e não conseguia dominar a tristeza que sentia. Pedi ajuda. Aterrei num consultório de uma extraordinária psicoterapeuta (profissional, essa sim…) que, em poucos meses, me ajudou a desenhar o retrato dos meus dias, que teimava em ser um puzzle solto numa caixa sem fundo. Fiquei-lhe grato para sempre, não apenas por me ter ajudado mas também por ter desfeito mais um dos preconceitos que me acompanhou dezenas de anos e que enviava a psicologia para o campo da irrelevância. Eu fazia parte daquele grupo que acha que uma depressão se cura com uma garrafa de whisky e umas saídas com amigos. Não conseguia perceber o potencial de um diálogo em que construímos o edifício de nós próprios e, ao mesmo tempo, nos projectamos no futuro. Em pouco tempo, levei duas lições de vida dadas pela mesma mulher – e a Dra. Etelvina Brito era, realmente, uma mulher superior. Na sensatez como na inteligência, na forma como encaminhava as nossas conversas como na maneira como ironizava sobre a vida. Uma mulher sábia.

Como seguramente não são, pelo menos nestes domínios, a cabeleireira, o taxista, o advogado, o empregado de café. Somos psicólogos uns dos outros? Parece que sim. Mas somos amadores. E os males da alma merecem maior cuidado. Atenção. E humildade. Quem sabe ouvir e tratar, tem profissão, tem formação. Portugal psicoterapeuta? Nada disso. Apenas à deriva, a precisar de terapia.

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