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Pedro Rolo Duarte

05
Dez10

Memória e vida

Milan Kundera terá escrito que “A vida é a memória do povo, a consciência colectiva da continuidade histórica, a maneira de pensar e de viver”. Foi nisso que pensei aqui há dias ao passar à porta do que foi – e ainda se sabe que foi porque resta o letreiro na fachada... – o Teatro Vasco Santana.

Um dos maiores actores portugueses de sempre, que atravessou gerações e chegou aos nossos dias não apenas como um nome, mas como alguém cujo trabalho apreciamos e nos faz rir, teve um dia a honra de ter um Teatro com o seu nome. O futuro do seu passado não lhe podia ter feito melhor e mais justa homenagem.

Mas honrar a memória e respeitar o seu legado – e assim fazer da História a boa “arma de arremesso” para que o presente e o futuro façam sentido -, seria manter o “seu” teatro de pé. Deixar que continuasse a guardar memórias no nome, e vida a fazer rir, emocionar, comover espectadores.

Não foi isso que aconteceu. Fotografei com o iPhone a fachada, mas confesso que a fotografia do blog Cidadania Lx é melhor e mais clara. Fica essa. Basta olhar. Basta imaginar o que seria de uma sala Frank Sinatra, em Nova Iorque, totalmente destruída e decadente no meio de Manhattan. Ou um teatro Laurence Olivier a cair da tripeça em Londres . Como se pode conviver com o desrespeito e a negligência perante os que ajudaram a fazer de nós o que somos, quem somos?

O estado do Teatro Vasco Santana, e esta imagem que aqui deixo, é um sinal mais do Portugal em que vivemos: nunca um período de expansão será fecundo enquanto, entre tantas malfeitorias, desbaratarmos a História que nos orgulha. Nunca um passado terá futuro enquanto sonharmos com Mundiais de Futebol sem antes atingirmos Mundiais de Orgulho e respeito pela História. Nunca um novo prédio construído vai substituir o edifício com passado que deixámos desmoronar. Quem não perceber isto – e a esmagadora maioria de quem nos governa não percebe -, não pode sequer perceber o mundo em que vive. Quanto mais receber votos.

Este também é o drama que a crise mostra, mas ninguém quer ver. Vamos continuar a fazer contas de merceeiro para “safar” a pele. Quando passar este aperto, continuaremos e maltratar Portugal como se não houvesse amanhã.

Triste, como pensar que Vasco Santana tem o nome posto neste bocado de escombro.

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