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Pedro Rolo Duarte

11
Dez10

Morrer e renascer

 

Praticamente todos os dias passo, a caminho do lugar onde estaciono o carro, por uma sucursal da agência de viagens Marsans. Ao longo do tempo fui-me habituando às mudanças sazonais da montra, dos programas de neve para os pacotes de praia, e assisti ao declínio e fecho da marca. Deixou de haver mostruário de catálogos na rua, depois começaram as noticias de jornal sobre a insolvência da agência, e depois a eminência do fecho, a loja com a porta sempre encostada, e por fim a morte da Marsans e a sucursal fechada, sem vivalma lá dentro.

Durante uns meses, só restavam papeis e umas mesas vazias na loja. Depois forraram as montras e deixou de se perceber o que lá se passava. Há cerca de um mês, a porta da loja abriu-se de novo e comecei a ver operários lá dentro. Obras. E um cartaz na porta: “precisa-se empregado”.

Esta semana, com a chegada dos autocolantes que agora ocupam o lugar onde antes estava escrito “Viagens Marsans”, desvendou-se o “segredo”: naquele lugar nasce, hoje ou por estes dias, a “Casa do Chocolate”, mais um “braço” da clássica e antiga Arcádia do Porto. O primeiro em Lisboa, julgo eu. Ontem à noite, um grupo generoso de pessoas atarefava-se a ultimar a loja, dispunha chocolates em montras novinhas, alinhava tabletes nas prateleiras, ligava caixas registadoras, aspirava o chão de madeira. Às 10 da noite a agitação era mais que muita, e ao passar à porta não disfarcei um sorriso. Afinal, ali houve morte - ali há agora vida. Este simbolismo encontrado num espaço banal de uma rua banal traduz qualquer coisa relevante: a de que nada impede um “começar de novo”. Com ou sem crise. Com ou sem sondagens optimistas e números vermelhos.

No lugar das viagens, o chocolate. Uma marca antiga – lembro-me de que era obrigatório ir à Arcádia quando se ía ao Porto, como comer queijadas em Sintra ou sardinhas debaixo da ponte em Portimão... – “acorda” um espaço que estava marcado pelo falhanço, ilumina um bocado de rua que estava tristemente escuro, e adoça os dias que faltam para o Natal. Em breve, já nem eu me lembro de que ali eram as Viagens Marsans. Admiro quem ousa em tempo de encolhas – e acreditem que ver aquela loja renascer me inspira e convoca. Um dia destes, “viro a boneca” e faço-me à estrada...

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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