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Pedro Rolo Duarte

14
Dez10

O poder da anarquia

O “aparecimento” do site Wikileaks parece ter reaberto o debate sobre o que é o jornalismo nos tempos que correm. Como se antes d0 Wikileaks não tivesse havido “garganta funda”, como se aquilo a que gostamos de chamar “jornalismo de investigação” não fosse, em si, uma espécie de Wikileaks com outros Assanges – e, por fim, mas não menos importante, como se o jornalismo que hoje se pratica fosse efectivamente feito por jornalistas.

Não é demais lembrar que restam já poucas notícias que os jornalistas descubram, testemunhem, possam provar. Exceptuando as honrosas ilhas de reportagem que ainda se encontram por aí – na verdade, quase sempre no Público e no Expresso, para falar apenas da imprensa portuguesa -, a maioria do noticiário que lemos foi previamente filtrado, trabalhado, burilado, e meticulosamente distribuído a partir de centrais de informação, agências de comunicação, gabinetes de relações com a imprensa, assessores, gabinetes ministeriais, empresas, agentes e representantes de protagonistas. Em cada ministério há um Wikileaks, em cada empresa há um Wikileaks, em cada partido há um Wikileaks. Juntos, todos estes “focos de informação” criam uma agenda que condiciona toda a imprensa. Até na contra-informação e na denúncia há sempre uma estratégia montada por Assanges assalariados...

A diferença entre estes e o verdadeiro Julian Assange é o que separa a organização da anarquia. O carácter aparentemente livre, anárquico e caótico do site que anda nas bocas do mundo muda o paradigma da fonte-de-informação-que-é-parte-interessada-na-matéria.

Enquanto dos Wikileaks “legalmente estabelecidos” nós já sabemos que informação vem e que interesses serve, e não contamos com outra, nem esperamos bombas atómicas, do original pode vir tudo, nada, ou assim-assim.

É num enredado universo de interesses que subitamente sucede o inesperado: informação em bruto, livre de interesses e independente de um qualquer poder. É isso que incomoda meio mundo: a falta de controlo, não se perceber o objectivo – ou sequer se há um objectivo -, não se saber “de que lado” está, ou sequer se está de algum lado.

Nunca me canso de citar o exemplo daquele assessor que telefonava aos jornalistas e começava o seu discurso sempre com a mesma frase: “tenho uma excelente noticia para ti”. Na verdade, era uma excelente noticia para aquele a quem o assessor servia, mas a óptica enviesada de quem “dá” noticias é a de que o jornalista “lucra” com a informação.

Não sabermos para quem são “excelentes” as noticias que Julian Assange tem revelado (ou sequer se existe alguém...), é fascinante e novo - mas baralha e confunde a ordem estabelecida. E isso também diz muito do estado a que o jornalismo chegou.

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