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Pedro Rolo Duarte

18
Dez10

Uma bateria pela cabeça abaixo

(Crónica originalmente escrita para a revista Lux Woman)

 

Confesso: gosto de ver os “Ídolos”. Nunca fui grande admirador deste tipo de programas, mas deixei-me “agarrar” pela última edição do concurso e fiquei “freguês”. Vejo aqueles miúdos sofrerem as passas do Algarve para conseguir um lugar ao sol – e inevitavelmente lembro um passado não muito distante em que uma “oportunidade” para brilhar na música era quase sempre fruto de um acaso, de loucura, ou de uma boa família. Pontualmente, lembro-me de mim...

Embora seja verdade que sempre tenha querido ser jornalista, ver os “Ídolos” devolveu-me um curto período da minha infância em que o meu coração balançou... Foi um balanço curto, mas intenso, que me levou a admitir a hipótese de um percurso na música. Sim, na música. Era ainda o tempo da televisão a preto e branco e do Festival da Canção.

Tudo começou com o convite para participar numa banda infantil, a Família Pituxa, integrado na qual gravei um single com quatro canções de Natal. Lembro-me de achar gigantescos os estúdios da Valentim de Carvalho. Nunca me senti artista ou sequer revelação – e depois dessa experiência não aconteceu nada: eu permaneci na escola, a aprender a ler e a escrever. E fiz bem.

Sucede que as gravações do disco decorreram em Outubro, mês em que tinha uma das mais agradáveis “tarefas” do ano: escolher, de um enorme catálogo de brinquedos, aquele que seria o presente de Natal que a empresa onde o meu pai trabalhava me iria oferecer, no decorrer da festa sumptuosa que juntava todos os trabalhadores e seus filhos no “falecido” teatro Monumental.

Naquele ano, entusiasmado com a Família Pituxa e os instrumentos que repousavam nos estúdios onde gravámos o disco, escolhi uma bateria como presente de Natal. Não era uma bateria profissional, mas era ainda assim muito próxima das “verdadeiras”. Montava-se peça a peça e era maior do que eu. O som assemelhava-se à de uma bateria “a sério”. Quando a recebi, decidi unilateralmente montá-la na sala, ao lado da televisão. Presumi que toda a família quereria ouvir a performance de um futuro artista. Como os meus pais tinham uma vida profissional muito ocupada, nem se aperceberam do que poderia significar a mistura explosiva de uma bateria com uma criança numa sala de estar...

É claro que ao segundo dia a minha irmã se fechou no quarto para não me ouvir, o gato Nabiça escondeu-se na varanda, e o meu irmão ameaçou radicalizar a resposta ao chinfrim. Não era preciso ser astrólogo para adivinhar que o “concerto”, mais cedo ou mais tarde, iria dar para o torto.

Deu mesmo. Numa bela tarde, a escassos dias de Natal, depois de avisar inúmeras vezes, o meu irmão cumpriu a ameaça: desmanchou a bateria e enfiou-me pela cabeça abaixo, um a um, os bombos, a tarola, enfim, tudo o que era passível de ser destruído sem danos maiores para o meu físico. O ataque de choro foi inevitável, a tristeza infinita, e a respectiva queixa à autoridade paternal, que lá arranjou forma de minimizar os danos com qualquer outro presente.

Para mim, foi o trauma – e o fim de uma eventual carreira no mundo da música. Quase todos os anos, lá em casa, na noite de Natal, recorda-se o episódio. Geralmente rio-me e não digo nada – mas para os meus botões penso como os tempos eram outros: se fosse hoje, bem podiam enfiar-me a bateria pela cabeça abaixo... Entre os Ídolos e a Operação Triunfo, ninguém travaria a minha vontade. E quem sabe não estaria agora a ensaiar para um Coliseu ou um Pavilhão Atlântico...

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