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Sábado, 12 de Janeiro de 2008

Quando a A me ligou a pedir o contacto de um astrólogo que conheço, julguei estar a ser vítima de um desses “apanhados” idiotas. Só podia ser brincadeira. O telefonema começou com as banalidades do costume. No entanto, notei na voz da A qualquer coisa diferente, alguma inquietação, até que por fim se chegou à frente: “Lembras-te de me teres falado num astrólogo que achaste muito sério e sensato?”. Claro que me lembrava – ainda que recordasse melhor o ar estupefacto que, então, a A fez quando lhe contei que o tinha consultado: “Tu?! Num astrólogo?! Porque é que todos os que se divorciam vão a um astrólogo?”. Passei à frente. “Pois, gostava de o consultar”, disse ela. Não resisti a um “Não posso acreditar!”, mas a entoação ficou a meio gás, como se eu próprio receasse comentar algo que, de tão grave, merecia respeito e recato. A A começou então a falar-me das dúvidas que tinha no trabalho, na vida, e que se sentia um pouco sem saber o que fazer. Disse tudo com o seu habitual pragmatismo – tão desarmante que quase achei normal que aquela rocha estivesse a denotar algum desgaste, bocadinhos de areia a formarem-se em volta...
Dei-lhe o contacto, desliguei o telefone e fiquei o resto do dia deitado no sofá: a A a consultar um astrólogo? O céu vai mesmo cair-nos em cima da cabeça?
Esclareçamos: a A é, de entre todas as minhas amigas, a mais prática e céptica. Não acredita em Deus nem no diabo, e para ela a vida reduz-se às evidências: se trabalhares, ganhas; se cuidares da saúde, não tens doenças; se não ligares demasiado ao filho que engole moedas de um cêntimo estás seguramente a torná-lo forte e imune à gripe das aves. Nunca leu um horóscopo de jornal. Tem uma carreira de sucesso, um casamento feliz, dois filhos...
Dá para imaginar, portanto, o que pode um amigo sentir com aquela súbita reviravolta. Súbita? Na realidade, a mudança não é assim tão repentina. A A está a chegar aos 40 anos. Como é uma mulher inteligente, no meio de todo o seu cepticismo percebeu que a passagem dos anos provoca mais dúvidas do que certezas. Que o óbvio tem nuances. Que por mais descontraídos sejamos, a vida encarrega-se de nos deixar perguntas sem resposta. E percebeu, acima de tudo, que a lucidez não significa recusa sistemática de tudo o que nos escapa – ou seja, que é bom abrir a janela e admitir que pode haver vida para lá do que o nosso olhar alcança.
Parece que a consulta não trouxe a A revelações surpreendentes nem desfez os nós que tem na vida. Mas o simples facto de me ter pedido o telefone do astrólogo, deixando vislumbrar a fragilidade de que somos todos feitos - e de, a seguir, ter mesmo “ousado” a consulta -, deu-me a certeza de que continua a ser a mulher inteligente que conheço. Só uma pessoa inteligente desafia a sua própria incredulidade.
Essa lição chegou aos 40 anos. Sem divórcios nem dramas de maior. Onde eu vi uma rocha desfazer-se, estava antes uma pessoa a mostrar vitalidade.

 

Ao sábado, reedito textos antigos. Este saiu na versão original, diferente desta, na revista Lux Woman, algures em 2006


publicado por PRD às 00:15
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4 comentários:
B
Coisas que eu sei: :)

porque nunca sabendo quando nos apetecerá mergulhar no precipício vertiginoso dos céus,
há a voz de alguém, cujo timbre parece trazer-nos a lonjura de quem somos. é só passear no Chiado, descer até à rua Vítor Cordon, chegar ao número 5 e ouvir a Maria Flávia de Monsaraz.
mas, provavelmente, já conhece...



afinal, já cantava o Fausto n'A Noite dos Alquimistas

"Chegam os magos no claro rasto
da lua cheia
descem duendes pelos caminhos
da cassiopeia
gnomos e bruxos
génios e divas
tudo e ninguém
abeiram-se os sábios
os feiticeiros que o mundo tem
sentam-se amenas
mágicas formas
sombras de alguém

vêm do fundo da paz da terra
os sonhadores
guardam em sonhos ocultas
memórias
os computadores
pedreiros-livres
santos e artistas
tudo e ninguém
sussurram secretas
vozes profetas dos temporais
pairam nos ventos
estranhos seres
como cristais

ó roda viva
ó astro grande
de almas gentis
fonte das musas
covil dos homens
mais varonis
a gente luta
a gente sofre
tudo e ninguém
redime as dores
nossos amores
ódios também
somos teus filhos
ó mar de estrelas
cuida-nos bem."


deixado em 12/1/08 às 02:10
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Isso tudo e um planeta que não é planeta, Plutão, o da transformação

deixado em 12/1/08 às 15:33
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Disseram-me como quem conta um segredo que Plutão também já entrou em Capricórnio. Já não o fazia há 246 anos, desde 1762. Dizem que a Revolução Americana foi impulsionada por este facto; não imagino como nem me atrevo a esgrimir a patetice. Afinal, Obama desequilibra.
A astrologia promete mudanças revolucionárias para os próximos 16 anos, duração da influência do longínquo Planeta (ou bola da gás!?) no imaginário Capricórnio estrelar.

Vamos a isto!

deixado em 15/1/08 às 16:44
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Cunha e Sá
Constatamos com este seu texto que tanto o autor como a A são duas pessoas inteligentes. Aqui aborda-se a consulta a um astrólogo.
Recomendo vivamente: 1º a consulta da página de Albertino Saloio; 2º uma visita a Albertino Saloio participando numa experiência com o transe mediúnico.

deixado em 26/3/08 às 23:31
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