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Pedro Rolo Duarte

16
Abr11

Só não muda o que já morreu

(Ainda se apanha por aí á venda -  a próxima sai a 21 de Abril – a edição que assinala o 10º aniversário da Lux Woman, revista onde escrevo mensalmente com muito, mesmo muito gosto... Esta foi a crónica dos 10 anos...)

 

 

À meia-noite do 1º dia de Janeiro de 2000, o mundo não acabou. Eu estava, como toda a gente, um bocado expectante, mas não ocorreu nada de extraordinário - e limitei-me a cumprir o previsto: saltei da terra húmida para a laje que sustentava uma casa que estava a começar a construir. Não podia haver melhor começo para um ano e uma década, mesmo discutindo se o novo século começava no 2000 ou no ano seguinte. Simbolicamente, chegar ao ano 2000 era uma aventura extraordinária, sobre a qual tinha pensado muitas vezes. Teria de viver 36 anos para lá chegar – e como toda a gente sabe, ser jovem tanto significa achar que se vive eternamente como ter a certeza de que se vai morrer cedo demais. Nem uma coisa nem outra, e ainda assim chegar ao ano 200o e ver que nada acontecia – um big bang qualquer, o degelo em massa, a noite fazer-se dia… - foi o contrário de maçador: foi exaltante! E assentar bem os pés num bocado de cimento novo foi ainda melhor.

O século novo só podia ser fantástico – e nem fazia sentido viver de outra forma os primeiros dias do ano 2000: com entusiasmo, com esperança, e com aquela sensação boa de que “agora é que vai ser”. Foi só preciso esperar um ano para perceber que, afinal, a década podia não ser tão prodigiosa quanto aquele momento inicial fazia prever, e que há demasiados acasos na vida para que os possamos ignorar.

Em 2001 houve Setembro, e dai para a frente mudou tudo. Houve Madrid e Londres, houve a explosão do euro e a crise que arrasou com a Europa, explodiu a Net e implodiu o emprego, eu sei lá: os primeiros dez anos do século XXI puseram tudo em causa, abriram brechas, deixaram perguntas sem respostas e respostas para perguntas que nunca nos ocorreu fazer. Se há dez anos me explicassem o Facebook – uma espécie de site gigante onde toda a gente mostra o que anda a fazer e troca informação tão relevante quanto irrelevante… -, eu riria baixinho e diria que era mais uma invenção de um informático desempregado. Se me dissessem que era popular twittar 140 caracteres por dá cá aquela palha, eu mudaria de conversa para não me entediar. Se alguém me mostrasse imagens de pessoas a descalçar botas e a deitar fora garrafas de água nos serviços de controlo dos aeroportos, eu acharia que a viagem era para uma qualquer ditadura da América latina. Se me exibissem internet num telemóvel ou internet no meio do deserto sem um computador e uma grande antena, não acreditaria.

Mudou tudo. Não mudou a aparência – mudou o fundo, o paradigma, a lógica da vida. E essa mudança ninguém, com rigor, podia adivinhar. Na verdade, ninguém pode ainda entender em toda a sua dimensão. No momento em que escrevo esta crónica há gente aos gritos de felicidade pela presunção de uma democracia no Egipto – mas aqui no meu cantinho, não tenho a certeza dessa democracia. Nem do que a “revolução” egípcia poderá desencadear no médio oriente. Este década, se alguma coisa nos ensinou, foi mesmo a deixarmos de ser taxativos e cheios de certezas.

Quando chegou o ano 2000, se me perguntassem o que acharia do projecto de mais uma revista feminina no mercado, seria tentado ao clássico “o mercado não comporta mais uma”. “Mas olhe que um dia você vai ser colunista dessa revista, e feliz!”, diria o meu interlocutor. Eu faria aquele sorriso tão educado quanto amarelo e diria: “quem sabe, não é?”.

Agora eu sei. E a LuxWoman também. Só não muda o que já morreu, só não nasce o que já nasceu. O resto, que adivinhe quem quiser enganar-se militantemente.

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