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Pedro Rolo Duarte

26
Abr11

Três desencantos

Não vi ao vivo o espectáculo “Três Cantos”, que juntou José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto, mais as suas cantigas de tantos anos (algumas delas, das minhas preferidas de toda a vida...). Tenho o disco que resultou desse espectáculo, mas também nunca me deu para o ouvir.

Devia ser premonição - a RTP passou esta noite o espectáculo e percebi de onde vinham os meus maiores receios. Foi confrangedor ver no mesmo palco três pessoas sem qualquer espécie de empatia entre elas, cumprindo um roteiro do “ora canto eu, ora cantas tu” sem ponta de lógica emocional (ou sequer temporal, vá...), aqui e ali desafinando, sempre de olho na letra por memorizar. Nem um abraço sentido, nem um momento de comunhão, nada – até no momento em que cada um recebe o seu cravo, José Mário Branco queixa-se da falta de cheiro da flor, facto deliberadamente ignorado pelos seus companheiros...

Sérgio, Fausto e José Mário parecem fazer questão de não olhar uns para os outros, de não partilhar o momento, de não transmitir sentimentos nem por um momento os denunciar. Cumprem o guião e cantam à vez. Se eu gostasse de teorias da conspiração, diria que eles nos quiseram dizer: “nem pensem que somos como os brasileiros”... Mas não, acho mesmo que alguém os obrigou a fazer este espectáculo – e eles fizeram-no, impondo a condição de estar cada um para seu lado, como se nenhum deles tivesse um coração ligado ao cérebro.

Por menos que queira, estes “Três Cantos”, que tristemente vi sempre à espera de uma qualquer “redenção”, constituem simbolicamente aquilo em que (certa) esquerda se tornou: uma má encenação de si própria, uma ilusão sem saída de emergência, um encontro de desencontros. Daí resultam os equívocos que dão Manuel Alegre, ou Bloco de Esquerda, ou Fernando Nobre. Três tristes cantos. Desencantos, numa palavra só.

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