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Pedro Rolo Duarte

21
Dez07

Cidadão repórter (II)

Já contei que me assaltaram a casa e no roubo marcharam todos os documentos pessoais. Prometi revelar a Minha Aventura no balcão “Perdi a Carteira”. Já não adianta contá-la porque desisti de utilizar esse balcão – a coisa não correu bem: ao fim de 3 tentativas de ser atendido, sem conseguir sequer senha numerada, sempre esgotada para o dia, e aconselhado por um funcionário a desistir e ir, balcão a balcão, tratar da minha vidinha, abandonei aquela área da loja das Laranjeiras. Escrevi uma carta ao “Público”, sob o pseudónimo Pedro Madeira, que foi publicada. Obrigado ao “Público”.
Parece que não fui o único a reclamar, e o serviço terá, entretanto, melhorado ligeiramente. Voltei lá há dias para conferir, a olho, as melhorias que a entidade do Governo que manda naquela chafarica tinha prometido. Parece que sim, que está menos mal, embora longe, muito longe, do simplex anunciado com pompa e circunstancia.
Adiante.
Um dos documentos que tinha de tirar de novo era a Carta de Condução. Fui ao site da Direcção Geral de Viação (DGV) e encontrei a seguinte informação: “A DGV encontra-se num processo de reestruturação/extinção tendo, nas competências das áreas das contra-ordenações e da segurança rodoviária (…), sido substituída pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (…). Deste modo, poderá aceder aos conteúdos destas áreas em www.ansr.pt . No âmbito do mesmo processo de reestruturação, as competências relativas a condutores e veículos passam a ser exercidas pelo IMTT - Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres, IP . Para obter mais informações e novos contactos aceda a www.imtt.pt .”
Foi o que fiz: www.imtt.pt . Fiquei a saber que a nova carta me custava 24 euros. Achei caro – mas dada a reestruturação, certamente seria célere e talvez mesmo por Internet.
(Tirar o cavalinho da chuva)
Por Net , nada, que os senhores gostam de nos ver de senha numerada na mão. Uma hora à espera na Loja do Cidadão dos Restauradores em frente ao ainda velho logótipo da DGV. Faltava uma fotocópia do BI, tirei ali ao lado e paguei mais uns euros. Fiquei com um papel que substitui a carta, que seria atempadamente enviada para casa.
Até agora, nada.
Passou-se isto a 19 de Outubro. Dois meses depois, os 24 euros não pagaram o despacho e a reestruturação não surtiu efeito na eficiência do serviço.
Mas reestruturar é bom. Governo que não reestrutura e não extingue organismos para criar outros, com logótipos e sites e mensagens de boas vindas, não é Governo. Mudar tudo para que tudo fique na mesma.
Em breve mudo de casa – e vou ficar sem carta outra vez, e vão mais 24 euros de mudança de residência. Mais tempo perdido com a senha numerada nas mãos. E mais uns meses à espera.
Viver na "west coast" da Europa é tão bom.

20
Dez07

Gastar o tempo

Na estação de metro a reluzir de nova, a repórter da televisão interpelava o idoso que aproveitava a boleia do primeiro dia:
- Então o senhor veio até aqui para dar uma volta?
E ele, com desarmante simplicidade:
- Não, minha senhora, vou gastar o tempo.
A repórter insistiu, falou-lhe na viagem “de borla”, ele respondeu que tinha passe, e ela a rematar novamente com o passeiozinho. O velho repetiu, impassível:
- Não, minha senhora, não vou passear. Vou gastar o tempo.
O tempo que tem de passar mesmo para quem já não tem o que lhe fazer. O tempo que nunca se ganha para quem não sabe o que lhe fazer. Ou não sente que o perde ao apenas gastá-lo.
E assim desafia a vida a fazer-lhe a vontade de a não viver.
Chego então onde quero: “A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos”*.
 
* - Bernardo Soares, Livro do Desassossego

19
Dez07

Sarkoshow

Quando vi escrita a palavra numa caixa de comentários do jornal online francês “Rue89”, percebi que deveria entrar no léxico comum europeu. Ei-la, tal a imaginei num qualquer dicionário actual:
Sarkoshow - acto de mostrar a vida privada em público, em vésperas de Natal, para ofuscar qualquer outro debate porventura mais relevante; o mesmo que show-off, mas em chique; conjunto de fotografias de um Presidente e da sua nova namorada, em Parque de Diversões familiar, tiradas por mero acaso por um generoso numero de fotógrafos que passava inadvertidamente pelo local; actividade profissional antes designada por “política espectáculo”; prova provada de que não é preciso muito tempo nem especiais talentos académicos para perceber de que massa se faz a informação nos dias que correm; Sarko de Sarkozy + Show de “Reality Show”.
De passagem: a escolha do Presidente francês, do ponto de vista estético e musical, arruma qualquer líder da Europa comunitária. Só por isso, “ten points” e um voto daqui do meu canto.
Por cá, Menezes já deu o seu Sarkoshow, bem aconselhado que foi. O primeiro-ministro prefere dá-lo, de forma ainda ténue, na revista do El Pais e no Liberation.
Um bom conselho de Agência de Comunicação e Imagem seria esse: levar Sócrates a “humanizar” (também) internamente, para satisfação dos locais. Talvez um Sarkoshow no Badoca Park, sob o olhar desinteressado dos fotógrafos da Caras, Lux, Flash, Vip, e quem sabe alguma revista de referência ou semanário mais afoito…
Não deve faltar muito.

18
Dez07

O ponto zero

Já ninguém quer saber da família McCann . Passaram 229 dias desde o desaparecimento da “pequena Maddie ” e o caminho diverso e perverso que levou a versão pública da investigação empurra o noticiário para páginas cada vez mais distantes da primeira.
No entanto, nos bastidores desta guerra de convicções, certezas e presunções, as batalhas continuam. Com menos expressão pública, mas sempre pairando sobre os media.
Do lado dos McCann : o jornal Daily Express ” garantia ontem que havia câmaras de vigilância que teriam gravado, a poucos metros do apartamento onde o casal passou férias, três homens, “com um ar suspeito e nervoso, a fumar cigarros” (descrição que li no Correio da Manhã, e claramente se inscreve nas novas leis sobre o tabaco e a evidente ligação ao mundo do crime dos fumadores em geral...). O mesmo jornal revelou também que se teriam realizado no Algarve novas acções dos já famosos cães pisteiros .
Do lado da polícia: não há quaisquer imagens de câmaras de vigilância e não têm sido feitas buscas com os cães. “Fonte próxima da investigação” diz ao Correio da Manhã que estão “quase prontas” cartas rogatórias da PJ no sentido de haver novas inquirições ao casal McCann e aos seus amigos.
Ou seja, informação e contra-informação. Como sempre, desde que o caso começou. Notícia e desmentido, investigação e desmentido, acusação e falta de consistência na acusação. O jogo do gato e do rato. Pressão na suspeita sobre o casal – e reacção permanente dos ingleses. Ou o contrário. Ora é a polícia a destrunfar, ora é o “aparato” McCann a dar cartas.
A vida humana, efectivamente, vale pouco. Mas presumia-se que não tão pouco ao ponto de servir para o mais primário jogo de póquer. Hoje parece óbvio: estamos como estávamos há 229 dias.
O trabalho da polícia portuguesa foi desastroso e desastrado, quando permitiu que os seus preconceitos sobre um casal de classe média com bom aspecto se sobrepusesse às regras básicas do “tudo é possível”. A campanha orquestrada pelos pais da Madeleine abriu alas à desconfiança generalizada.
Não faço apostas nem “ponho as mãos no fogo” por qualquer das teses vigentes. De vez em quando espreito os estilhaços que ainda sobrevoam a imprensa e limito-me a confirmar que o ponto da situação é ainda o ponto zero. A batalha da propaganda continua.
 
PS - Apenas uma pergunta (igual à que fiz a respeito do “Processo Casa Pia”): de que dimensão e profundidade será a cicatriz que este caso deixa na credibilidade dos media? Para onde vão os leitores de jornais e revistas depois de, uma vez mais, se sentirem enganados?

17
Dez07

Os “meus” bloggers

Tropeço a todo o momento na eleição dos melhores blogs do ano, nuns casos por categorias e com júris profissionais, noutros casos eleições pessoais, escolhas de grupo, enfim: um corrupio que faz lembrar os jornais e as revistas, que ocupam estes dias do ano a promover escolhas dos protagonistas e acontecimentos do ano.
Como o bolo-rei: faz parte da época.
Sendo público (está aí o link ao cimo da página, http://prdantenaum.blogs.sapo.pt ) que tenho uma rubrica diária na rádio que se ocupa de blogs e do que “eles” dizem – e uma extensão sob a forma de entrevista ao fim-de-semana -, é natural que olhe com algum apuro este universo. Com uma vantagem: não pertenço a grupos jantaristas de blogs, e não conheço pessoalmente a maioria daqueles sobre quem escrevo (vou conhecendo, naturalmente, os que entrevisto...). Nos últimos dias tenho pensado na forma como vou abordar um balanço blogoesférico do ano na Antena 1.
Cheguei a uma ideia, finalmente. Resulta da minha análise pessoal do movimento de blogs, da sua evolução, das mais valias que apresenta. Na verdade, e para mim, quando entro num blog, o que me entusiasma, o que me toca, o que mexe comigo, é ainda o poder da palavra. O domínio da palavra. A sabedoria da escrita. Textos que me fazem pensar. Ou rir. Me comovem. Me inquietam. Me arrasam. Me revoltam. Me tiram do sério. Me deixam a planar. Contra os quais estou. A favor dos quais me apetece assinar por baixo. Que odeio. Que amo. Que me lembram a ingenuidade. Que me acordam. Que me adormecem. Que me fazem uma festinha. Que eu beijo. Que me beijam. Que irritam. Que sim. Ou que nada. Mas é ainda o poder da palavra.
Especialmente – e voltando a uma polémica antiga... –, quando essa palavra não tem espaço nem tempo nos jornais, na rádio, na televisão. No futuro será diferente, estou certo disso – mas por enquanto é ainda a palavra. A palavra.
“Eu acordaria” bem mais pobre sem os textos de Maradona, Vieira do Mar, Mónica Marques, João Gonçalves, Rodrigo Moita de Deus, João Miranda, Animal & Waldorf, Tiago Galvão, José Medeiros Ferreira, João Pedro Dinis. Ordem aleatória.
E havia mais 20 ou trinta, com sublinhados pessoais e explicações emocionadas, que ficarão para outro dia, porque o ano acaba mas a vida continua.
De qualquer maneira... Mais do que os blogs, são as pessoas. E o que pensam, e a forma como pensam e depois dizem. Lá está, é a palavra. E é pela palavra que me ligo a este mundo e todos os dias o percorro, humildemente, procurando saber lê-lo sem a pretensão de o criticar, corrigir, emendar ou vigiar. Mesmo quando o faço...
Os meus dez bloggers do ano estão aqui. Em breve, no rádio, a escolha terá reflexos no espelho de água que corre por esse rio...

16
Dez07

Copiar ou recriar

Já se vende em Portugal a edição espanhola da revista Esquire, a mais recente adaptação do original norte-americano. Acompanho-a desde o primeiro número, publicado em Outubro.
É um belíssimo “case study” para quem quiser perceber o que deve ser uma versão local de uma revista internacional.
Espanha tem um mercado saturado de publicações de todo o tipo, e as masculinas não são excepção. Já havia a GQ, a clássica Man – com anos de avanço sobre a concorrência, uma das primeiras a adoptar o modelo da francesa Max -, não falando da Playboy ou da Maxim. Lançar a Esquire no mercado espanhol oferecia dois caminhos: ser uma alternativa na sua categoria, ou entrar em concorrência directa com as revistas existentes no mercado. No primeiro caso, remetia-se para a edição norte-americana, uma revista de topo de gama, inteligente, divertida sem deixar de ser profunda e reflexiva. Na segunda opção, a inspiração tinha de vir da edição britânica, que fez justamente esse caminho colado ao mercado (mas do qual, curiosamente, há meses se vem afastando, numa renovação gráfica e de conteúdo bem mais sofisticada, isto é, mais americanizada...).
A Esquire espanhola optou por um caminho próprio: herda o espírito da edição norte-americana sem abdicar da sua latinidade. É uma excelente revista masculina. Tem origem e feitio. É uma revista com identidade própria, não apenas a mariquinhas versão local do colosso de sucesso importado.
Navega entre as revistas-mães conseguindo constituir uma “terceira via”. Uma via local. Sem no entanto desvirtuar os pergaminhos da Esquire original – seja um olhar irónico sobre os prazeres masculinos, seja um piscar de olhos permanente a uma certa pose aristocrática. Aproveita o melhor dos dois mundos e deixa a milhas as revistas masculinas da equação “anedotas + gadjets + mulheres + futebol”.
A publicidade da Esquire espanhola vende “uma revista para homens interessantes”. Acrescentaria “homens inteligentes para quem não chegam umas fotos de miúdas giras e umas piadas inconsequentes”.
Uma aposta ousada. Mas, uma vez mais, uma lição (também, e especialmente, para Portugal e a sua mania obsessiva de formatar os media): conseguir pensar global e conceber local é, até ver, o caminho mais valioso. Infelizmente pouco aplicado por cá.
De passagem, a edição de Dezembro da revista (na imagem) tem na capa Javier Bardem. Mais nenhuma chamada. Minimalista e desafiadora. Lá dentro, um ensinamento de Álvaro Siza Vieira na secção “En Esto Creo” (adaptação de “O que eu aprendi”...): “Dos ideais da juventude, ficaram os ideais, falta-me a juventude. Isso não se recupera”.
Enquanto houver ideais...

15
Dez07

Voltar à terra

Costuma suceder no Natal: a partir de meio do mês vejo amigos, conhecidos, vizinhos, fazerem as malas e partirem. Dizem-me que «vão à terra» e a frase tem para mim um significado telúrico, profundamente ligado à razão da vida. Com orgulho eles regressam a «casa», vão pisar chão que os antepassados pisaram. Não sei se eles são felizes na cidade – mas percebo que é com felicidade que anunciam a partida. Nesses momentos reconheço que, por mais terras que adopte, e já levo algumas no currículo, a minha é mesmo Lisboa – e, nesse sentido ligado à raiz, eu não tenho terra. Sou de um «lugar» onde os ovos nascem nos supermercados e o leite sai dos pacotes, os frangos nunca tiveram penas e os pés descalços pisam alternadamente o empedrado dos passeios e o alcatrão das ruas. Na «minha terra» só se passeia onde «é permitido» e a relva pertence aos cães que os donos não educam. Na «minha terra» o silêncio da noite é ordenado por lei e as estrelas raramente são visíveis a olho nu.
Talvez por isso, e porque na terra onde nasci todos entram sem pedir licença e muitos gostam de aparentar propriedade sobre o território, quando entro numa aldeia, numa terra de «outros», ganho a timidez e a cerimónia de quem acaba de entrar numa casa que não é minha. Os olhares dos velhos que se sentam nos muros baixos a ver o tempo passar são como o ladrar do cão de guarda numa quinta. Sinto-me observado até no gesto simples de pedir uma bica no café central. Fazem-me sentir, na atitude ou na ausência dela, que não sou dali.
Toda a gente se conhece e eu não sou conhecido – sou de fora, portanto. Estou na aldeia do Arripiado numa tarde de sexta-feira. Uma carrinha da «Matutano» distribui pacotes de cereais manipulados e fabricados em laboratório. Há dois homens a beber imperiais no balcão do café. Um cão a ladrar lá longe. O rio corre manso para Sul. Respira-se tranquilidade. Não é preciso olhar para os lados quando se atravessa a rua. Tudo e todos parecem conviver na mais saudável comunhão.
O «passeante que o pintor acrescentou ao seu quadro» sente essa harmonia – e por isso sente-se um estranho, qualquer coisa que perturba o ambiente. Mas o passeante sabe que esta aldeia não é diferente das outras. Como toda, terá o seu lado obscuro, o tal «lado lunar» que Carlos Tê escreveu para Rui Veloso cantar. Por detrás das portas e das janelas das casas pintadas a branco, para lá dos muros que separam vidas, nos «bastidores» do cenário que nos oferecem, escondem-se vidas iguais às das cidades que são notícia, dramas, alegrias, sentimentos, sonhos, esperanças. Esconde-se aquilo de que é feita a vida de todos nós.
Esbate-se, assim, neste pensamento de final de tarde, a diferença essencial que faz dos cidadãos urbanos eternos nostálgicos da terra que nunca tiveram. Na diferença das proporções e do cenário, na possibilidade de se verem as estrelas e de se sentir a terra debaixo dos pés, há uma proximidade a que não escapamos: somos todos humanos. Somos todos iguais.
A não ser na pergunta fatal que fica: de que terra sou?
 
(Ao sábado, reedições. Anos 90, algures nas páginas do Diário de Notícias)

14
Dez07

What are they talking about?

Estava a ver os primeiros anúncios da nova campanha promocional de Portugal, e depois do pensamento sacramental – Nick Knight é um excelente criativo, mas para fazer “aquilo” tínhamos cá igual e mesmo melhor... –, lembrei-me de uma entrevista com Wally Ollins que li em Setembro, na edição da “Monocle” dedicada às marcas e à ideia de fazer dos países marcas.
Ollins é uma autoridade em matéria de comunicação e “branding”, e foi dos primeiros especialistas, há 15 anos, a tentar criar uma marca para Portugal.
Interrogado sobre a matéria, respondeu:
“We started helping them (Portugal) with tourism in about 1992. Then we got involved in brand expert and foreign direct investment. All went well but than there was an election and a new party got in, what did they do? They chucked out anything the previous government had done. These projects should not be run by people who are in power for five minutes”.
A “Monocle” pergunta-lhe ainda se Portugal se ressentiu dessa quebra de linha clara na criação de uma imagem de marca para o país. E Wally Ollins respondeu:
“Portugal’s image has suffered. I was in Lisbon not long ago and they were talking about nation branding again and how Portugal should be seen as the IT capital of southern Europe. Do me a favour. What are they talking about?”
Foi exactamente isso que eu pensei com este conceito que o (excelente) publicitário Pedro Bidarra tenta vender há anos (e finalmente conseguiu, honra lhe seja feita!): onde raio nos leva esta presumivelmente nova ideia? Imagino-me inglês ou alemão: vou a Portugal porque é a “Europe’s West Coast”? O que é que isso quer dizer? É sol ou é chuva? É fado ou é pop? Onde é que fica essa costa? Não é em Espanha? Há lá sardinhas? Invisto nesse nova sede da modernidade porque tem um parque eólico do melhor e qualquer coisa fotovoltaica única no mundo? Que língua falam eles?
Esta campanha é Portugal no seu pior: gastar milhões a refazer sem nexo ou lógica, sem rumo – e acima de tudo, sem um firme e consistente propósito. Tentar vender uma imagem provincianamente “trendy” e modernaça de um Portugal que, na verdade, todos sabemos que não existe. Ignorar a realidade. Mudar o Sul de lugar. Mudar por mudar.
A Irlanda mudou primeiro e promoveu depois. Espanha promoveu enquanto mudava – mas mudava mesmo. Nós preferimos vender a aparência de um tempo que não existe.
A história é simples e está toda nas palavras de Wally Ollins. Havia um governo novo – e o que distingue um governo novo de um ex-governo é a certeza de que o novo quer remodelar, reestruturar, refazer. E assinar no fim.
Havia três milhões para gastar. Até dava para contratar Nick Knight e pagar-lhe 250 mil euros. O poder são cinco minutos – e esse tempo chega para arrasar tudo o que foi feito (bom ou mau, nem interessa agora), e começar do zero. Até ao próximo governo, que voltará a dar cabo do que este acaba de fazer. Assim será sucessivamente, como Ollins bem notou: “These projects should not be run by people who are in power for five minutes”. O resto é literalmente conversa. E dinheiro. Sempre a merda do dinheiro.

13
Dez07

O poder da(quela) imagem

Estar no lugar errado na hora certa.
Estar no lugar certo na hora errada.
Não sei se é uma coisa ou a outra ou mesmo ambas.
Sei que o dia de ontem não correu bem a José Sócrates. E por mais que ele explique - e mande explicar, e ponha alguém a explicar - que o discurso dele era um, e os assobios no Parlamento Europeu eram outros, este é um daqueles momentos em que o poder da imagem esmaga para todo o sempre a verdade dos factos. Pode ser estudado nas escolas. Sobre a prepotência da imagem, a ditadura da imagem, a forma como condiciona a opinião alheia – e tanto mais quanto menos letradas são as populações que a consomem. O “You Tube” não deixará de contribuir para o caos. Sócrates também ajudou, quando azedou a pose e mostrou irritação.
Nunca ninguém vai perceber o que se passou. O que se ouvirá nas ruas por estes dias é algo do género: “Viste’s o Sócrates? Lá na Europa não 'gostem' dele, pudera: é só mortos no Porto e coisas assim...”
O poder tem um preço a pagar. Em Portugal, muito alto. Tão alto quanto baixo, baixinho, é o investimento dos mesmos poderes no “choque” que realmente falta dar. Chama-se “choque cultural”, mas qualquer nome lhe ficaria bem: literacia, instrução, quarta classe. O que queiram.
Um povo culto será tanto mais injusto na sua avaliação do poder quanto mais for por ele penalizado – mas um povo ignorante será ainda pior, porque nem sequer a medida do conhecimento e da justiça saberá usar. Talvez José Sócrates possa aproveitar a quadra para pensar nisto.

12
Dez07

Pensamento ocioso

Há muitos anos, quando começaram a entrar nos hábitos nacionais as telenovelas (então apenas da Rede Globo, na monopolista RTP), o meu pai, por dever de ofício, seguia os episódios e as tramas. Um dia, entrou na sala e eu estava a ver, como um extraterrestre, um episódio de uma dessas novelas...
Interrupção...
(Nunca segui uma telenovela. Aliás, nunca segui nada em televisão – e dou graças aos deuses que inventaram o DVD pelo facto de finalmente poder ver séries seguidas sem saltos nem desistências. Não digo isto como evidência de alguma qualidade, mas justamente como defeito que atrapalha as relações sociais: quando toda a gente fala de um episódio de uma série ou de um capitulo excitante de uma novela, eu vou, sei lá, buscar gelo, porque nunca sei do que se fala...).
... Recomeço...
Estava então eu a ver um bocado de uma novela qualquer e perguntei-lhe:
- Saberá explicar-me por que estão sempre todos ao telefone?
Telefone fixo, que estávamos ainda nessa pré-história da existência humana.
O meu pai explicou-me então, sumariamente, as regras técnicas da novela. Não me lembro de muitas dessas regras, mas lembro-me desta: o uso do diálogo telefónico – que muitas vezes é um monólogo, dado que só ouvimos a pessoa que vemos – é uma forma de abreviar a história e reduzir custos. O plano do actor ao telefone é fechado e fixo, não envolve mais cenários do que o existente, e faz a trama andar para a frente. Cria novas tensões, também. Quem fala ao telefone pode descrever cenas que seriam caras ou difíceis de gravar, e que podem por todos ser imaginadas. Além disso, poupa tempo, porque o interlocutor pode estar a descansar ou a preparar outra cena qualquer e o plateau está em uso enquanto se grava aquele momento. Em resumo: é barato e eficaz.
Hoje lembrei-me desta regra enquanto fazia zapping por entre canais de televisão.
E ocorreu-me uma primeira reflexão. A óbvia: com a vulgarização do telemóvel, as novelas devem ser ainda mais baratas e muito mais dinâmicas.
Logo a seguir, o “pensamento ocioso” do dia: um produtor mais afoito pode conceber uma novela toda feita ao telefone. Poupa muito. Tem patrocínio garantido. É inovador (o que pode afundar a coisa, claro). Mas mantém o essencial: intriga, negócio, conversinha, pobres, ricos, amor e traição. No fundo, tudo o que uma novela tem.
Ou melhor: quase tudo. Por qualquer razão o pensamento era ocioso.

Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

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