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Pedro Rolo Duarte

29
Fev08

A bandeira sem mastro

Primeiro na SIC-Notícias , depois na SIC generalista: Luís Filipe Menezes está a fazer do fim da publicidade na RTP uma bandeira. O pior é que está a hastear a bandeira numa praça sem mastro...

Tanto quanto sei:
1. A bandeira da publicidade na RTP não interessa aos portugueses, que querem mesmo é saber do preço do pão, dos serviços de urgências, das escolas e da justiça.
2. Acabar com a publicidade na RTP, mesmo com a taxa e o contrato de serviço público, parece que custaria aos nossos bolsos 60 milhões de euros por ano. Dá-me ideia que os portugueses, ao serem confrontados com estes milhões a mais nos seus impostos, preferiam ver Luís Filipe Menezes pelas costas. E longe.
3. Assim sendo, a bandeira de Menezes só lhe dá os votos daqueles a quem a medida aproveita: SIC, TVI, candidato ao quinto canal que aí vem. Umas centenas, portanto.
Porque se meterá ele nesta alhada, pergunta a minha alma ingénua e um pouco embrutecida pelo estado da Nação?
Não sei porquê, mas esta história faz-me lembrar o Casino Lisboa. Daqui a quantos anos vamos conhecer em pormenor as “conversas informais”, as “cartas esclarecedoras” e os demais passos que levaram Luís Filipe Menezes a tão cara e genial má ideia?

Lá está outra vez o autarca em bicos de pés...

28
Fev08

O empurrãozinho

O meu filho António Maria gosta mesmo muito de ler e de escrever. Inventa ficções, desafia-se a si próprio, devora livros de todos os géneros, e percebeu que uma das formas de ser popular na escola é justamente pela imaginação que coloca ao serviço da escrita nos trabalhos que tem de fazer.
Os amigos e a família costumam dizer que “é natural”: o pai escreve e vive disso, avós de ambos os lados têm ligação à escrita, ele cresceu num universo povoado de palavras e de livros. Aceito o meio ambiente como uma boa almofada. Mas a verdade é que não chega.
Muito por responsabilidade da mãe (o divórcio, nestas coisas, nunca deve toldar o justo reconhecimento...), o António Maria ouve histórias lidas desde muito pequeno, e foi sempre incentivado a ler. Antes de dormir, em viagem, nas férias, na praia, nos jantares de adultos (em que tem de ficar à mesa mais tempo do que a idade aguenta e permite). Há sempre um de nós que se lembra: e livro para ler? E há sempre um livro para ler. Todos os orçamentos podem ser revistos em função de mais um livro. E quando se acabam, como sucedeu o ano passado, no Algarve, em férias, há tempo para uma romagem dedicada à FNAC mais próxima...
Conto isto porque ontem à noite o meu filho deitou-se preocupado: tinha perdido, ou deixado na aula de guitarra, o regulamento de um concurso literário a que o incentivei a concorrer.
Falei-lhe nisto há imenso tempo, e nunca mais me ocorreu o tema. Mas ele, pelos vistos, não só não se esqueceu como pensou no assunto. E aceitou o desafio.
Lá está: é verdade que ele gosta de escrever. Mas também é verdade que fui eu que vi um papel numa estação dos correios e pensei que seria uma proposta interessante para ele.
Ou seja: o António Maria pode ter nascido com talento e gosto - mas há sempre o empurrãozinho que nos cabe a nós, pais, dar no momento certo. O resto, correrá por conta dele e da sua vontade.
Como bom português que é, há mais de um mês que ele sabe do concurso - mas será hoje, penúltimo dia do prazo, que se vai dedicar ao tema. O pai foi à Net, depois dele se deitar, e lá descobriu o regulamento “perdido”. Hoje terá os dados de que precisa para o seu trabalho. Gostar de ler e escrever pode nascer connosco – mas um empurrãozinho, de vez em quando, ajuda muito...
 
PS – Sei que é em cima da hora, sei – mas (também muito) à portuguesa, desafio os meus leitores com filhos a tentarem esta aventura. Tudo o que precisam de saber encontram aqui. Só o tempo escasseia: http://www2.ctt.pt/fewcm/wcmservlet/miniweb/concursoEpistolar/Regulamento.html

27
Fev08

O autarca em bicos de pés

É lugar-comum: para se convencer alguém da razão dos nossos argumentos devemos começar por acreditar convictamente neles e, obviamente, sentir solidez no discurso.
Luís Filipe Menezes não acredita no que diz, sabe pouco mesmo sobre aquilo que defende (esteve longos segundos a derrapar num aahhhh , a tentar encontrar um número – suaves 400 milhões de euros! – para umas das medidas sociais que propôs...), e usa um discurso básico, às vezes mesmo primário, que o mantém preso à figura de autarca e o afasta do primeiro-ministro que sonha ser. Luís Filipe Menezes é o autarca em bicos de pés.
Estava com vontade de o ver responder às perguntas de Ana Lourenço na SIC-Notícias . Mas os bocados a que assisti foram de uma pobreza confrangedora. Acabei por ceder ao sono.
Vou acordar de novo para o PSD quando chegar o senhor que se segue.

26
Fev08

Do not disturb

Estou a delirar com a edição de Março da Vanity Fair. Um deslumbrante e rico “Hollywood Issue” com tudo a que temos direito: Leibovitz generosa, Mário Testino, Hitchcock revisitado pelos melhores actores (e fotógrafos), bom. Não tenho palavras. Um sonho. Do not disturb.
Espreitem o que puderem em http://www.vanityfair.com/.
Ou invistam os 9 euros que a revista pede. E merece.

25
Fev08

A esquerda à direita (ou vice-versa)

Não é com alegria que o digo: depois de uma militância apaixonada e dedicada entre os 12 e os 15 anos, nunca mais consegui sentir-me politicamente mobilizado. Seja por um Partido ou por um líder. Os últimos 28 anos podem ser ilustrados pela imagem de alguém que vagueia sem destino, à mercê de desejos simples: um bocadinho de sol, uma sombra fresca, tudo demasiado suave e brando. A convicção mora longe, o crédito foi vencido pelo tempo. Votei sempre, mas nem sempre quis votar.
Pontualmente, acreditei em pessoas (Guterres, uma vez; Sócrates, uma vez; Mário Soares, uma vez; Maria José Nogueira Pinto, uma vez) e votei em causas. Quase sempre me desiludi. Quase sempre me desiludiram.
Houve no entanto algumas figuras destes 30 anos de liberdade que, por razões diversas, estiveram distantes do meu voto, mas que me mereceram admiração, respeito, e nalguns casos vontade de voltar a acreditar. Durante anos, vivi mergulhado num preconceito que me impedia de votar à direita, mesmo que lhe reconhecesse o mérito e o sentido do voto, mesmo que muitas vezes pensasse à direita. Felizmente, curei-me desse mal de “infância esquerdista” – mas o resultado dessa cura foi tornar-me inclassificável. Há poucos anos, um critico de televisão analfabeto referiu-se a mim dizendo que eu era um “novel santanista” – ao mesmo tempo que no PSD de Santana eu era considerado um socialista militante. Ainda hoje é assim: os meus amigos socialistas dizem que sou de direita, e à direita dizem que sou socialista.
(Acho que tenho perdido algumas “oportunidades” de trabalho por causa desta indefinição, mas paciência: entretanto vou pensando livremente...)
Bom, tudo isto para chegar a um homem em quem varias vezes quis votar. Mas não votei. E quando finalmente me curei desse “complexo de esquerdite”, era tarde: tinha partido sem que eu tivesse tempo de me redimir. Falo de Francisco Lucas Pires. Morreu há dez anos.

E não podendo voltar atrás no tempo, posso pelo menos dar nota do blog que os seus filhos criaram para recuperar a memória do pai, os seus pensamentos, textos, discursos. Fica em http://franciscolucaspires.blogspot.com/ e lá encontrei pérolas como esta:
“A “verdade” politicamente correcta é “doce” e “mole”, isto é, está mais preocupada com a qualidade de vida, por exemplo, do que com a vida propriamente dita. O seu compromisso é aliás, mais com a felicidade do que com a verdade. Por isso não quer incomodar. (...) É uma “verdade de situação”, isto é descartável, dúctil ou volúvel, quase como um “transformer”. Refere-se mais a tendências do que a princípios. É provisória e reconhece-se nas sondagens mais do que nos tratados de filosofia moral ou através de programas políticos. Não aspira a longo prazo. A política tornou-se menos “programática” e mais “pragmática” e o próprio direito se tornou “reflexivo”, interdependente do destinatário e do endereço”.
Francisco Lucas Pires talvez não fosse o mais “eficaz” dos políticos – mas era um livre pensador que a direita nem sempre compreendeu e a esquerda esteve impedida de admirar. Tenho a certeza de que faz falta ao Portugal de hoje.

Gostava de poder votar nele um destes dias.

24
Fev08

Domingo com Bimby...

Sobre a “Bimby”, o robot de cozinha que se tornou “a minha melhor amiga” na cozinha, já escrevi e publiquei: “É tudo aquilo com que sonha uma cozinheira exímia, um homem sozinho a querer fazer jantar bem e depressa, uma família sem tempo. Uma máquina simples, prática, e com poucos botões (basicamente, três: velocidade, temperatura, peso), que faz tudo o que um microondas jamais sonhou saber fazer. Instruções claras dizem-nos passo a passo qual o caminho para um prato maravilhoso. E o resultado nunca engana. Olho todos os dias para a minha “Bimby” e pergunto-me: como vivi tantos anos com microondas e varinhas e robots de vão-de-escada? Onde andavas tu, minha querida “Bimby”?!”
Leio agora num jornal espanhol que a Bimby – em Espanha chama-se Thermomix, nome bastante mais “prof”... – é responsável pelo maior número de novos clientes do banco “Citi Espanha”, que tem a exclusividade do crédito para a compra do aparelho (custa 900 euros). Das cerca de 100 mil operações de crédito ao consumo feitas pelo Citi em 2007, 15% terão ido direitinhas para a compra de máquinas “Bimby”. O mesmo jornal adianta que em Espanha se vende uma máquina por cada cinco minutos...
... Os detractores da “Bimby”, os que não percebem a “Bimby”, os que desdenham a “Bimby” – em geral, pessoas que não conhecem o potencial do robot, seja para quem gosta de cozinhar e sabe, como eu, ou para quem não sabe nem gosta... -, podem agora agarrar-se a mais um argumento. A “Bimby” também deixa os seus clientes presos a uma divida, juros, créditos.
Ao mesmo tempo, em casa de quem descobriu a pólvora que a “Bimby” constitui, ninguém se preocupa com isso e salta mais uma receita... Esta inventei eu:


Creme de Legumes com ervilhas

No copo da Bimby coloco, partidos em bocados grosseiros:
1 cebola
2 ou 3 cenouras médias
1 batata
1 dente de alho

Meio caldo de legumes (agora há uns óptimos com azeite Gallo)

1 tomate pequeno
Uma ou duas folhas de alface
1 folha de manjericão fresco

1 colher de sopa de coentros esmagados

Sal qb

Água até cobrir os ingredientes


No recipiente Varoma deito 300 gramas de ervilhas cruas congeladas (Bonduelle é a minha marca favorita)

Programo 20 minutos, temperatura 100, velocidade 1

Quando termina, retiro as ervilhas e reservo, deito 20 gramas de azeite no copo, e deixo estar mais 3 minutos com a temperatura 100 e a velocidade 1.

No fim, transformo tudo em creme com 40 segundos na velocidade 7

Deito o creme no recipiente de servir, misturo as ervilhas, mexo. Sirvo em pratos com uma colher de natas à solta e folhas de coentros a enfeitar.

Experimentem (se tiverem a Bimby, claro)...

23
Fev08

Sucesso & crítica

Enquanto na música, no cinema, na televisão, para citar só três áreas, a crítica manifesta opinião sobre praticamente tudo o que é editado ou exibido, sem exceptuar nessa apreciação o que é pimba, popular, de massas ou de gosto duvidoso, já na literatura parece não haver tempo nem espaço para todos os livros que saem. Não me surpreende, porque são muitos – mas surpreende-me que os excluídos do olhar crítico sejam sempre os mesmos, sejam os do costume. São os que vendem mais, os mais apetecidos pelo público, os que no estrangeiro fazem os tops de vendas.
Exemplos recentes: que eu tenha visto, não se escreveu uma linha sobre o livro póstumo de Mario Puzo («Omiertá»), escreveu-se muito pouco sobre «Um Homem em Cheio», de Tom Wolfe, até ao momento nem uma linha sobre o livro de Miguel Sousa Tavares (em primeiro lugar nas vendas em Portugal), pouco ou nada sobre os três livros já publicados por Margarida Rebelo Pinto (qualquer coisa como 200 mil exemplares vendidos...),nada sobre "Responde-me", o mais recente sucesso de Susana Tamaro, ou sobre os livros de Paula Bobone, de Jefrrey Archer, de Thomas Harris, de Isabel Allende, de António Sala (quem sabe que ele tem um romance publicado desde Dezembro?). Fico por aqui. Poderia citar mais uns 20 nomes. Todos misturados? De Portugueses e estrangeiros? De aeroporto e de casa de banho? Bons e maus? Sim, todos misturados. Como sucede se forem ver o cartaz de cinemas deste mesmo jornal. Ou de outro qualquer.
E o problema é este: ao contrário do que sucede nas páginas de cinema ou de música da imprensa, há na área da literatura um ódio visceral ao «livro comum», o que está nas livrarias e vende, o que as pessoas compram. Não se diz mal nem bem – pura e simplesmente, não se diz nada. Em quatro anos, várias vezes tenho tentado que os excelentes colaboradores do suplemento que dirijo vençam o preconceito – mas nem sequer consegui ter um artigo que encomendei sobre os fenómenos literários, portugueses e estrangeiros, do tipo Rebelo Pinto/Rita Ferro. Eu nem queria que o artigo fosse crítico – queria uma análise, queria que o top de vendas de livros tivesse um reflexo nestas páginas. Não consegui nada. No passado como no presente, com ou sem Gaspar Simões, com ou sem a franqueza de Prado Coelho, a verdade é que os críticos literários não querem saber dos «livros normais» - e se lhes chamo assim, é porque não sei mesmo como lhes chamar para os distinguir daqueles que, estando em geral no mais recôndito canto das livrarias, têm nos jornais a honra da opinião dos entendidos. E não me venham com o argumento de que, por serem excelentes e pouco conhecidos, merecem maior atenção. Se isso fosse válido, tornar-se-iam um grande sucesso.
Pior do que uma má crítica é a indiferença. E quando ela resulta do desinteresse e se aplica a um caso de sucesso, como parece ser o caso, estamos a fazer mal o nosso trabalho. Não deixo de achar extraordinário que Margarida Rebelo Pinto, a recordista de vendas do ano 2000, tenha sido liminarmente ignorada em todos os balanços do ano que os jornais fizeram. Estamos perante um fenómeno – mas, a acreditar na imprensa, estamos perante um vazio. Eu acho grave que esta discrepância suceda.
Estamos a ignorar dezenas de milhares de leitores de livros que, nas suas escolhas, passam ao lado da crítica literária. Ao fazê-lo, estão a passar ao lado da imprensa. Quando ignoram os gostos do público, os críticos estão a pedir que sejam ignorados. Os jornais, também. A ver pelos tops de vendas, são mesmo. Eu não queria que isto continuasse assim. Com ou sem capelinhas, com ou sem polémicas.
 
Aos sábados, reedições.

Na sequência de uma polémica entre António Cândido Franco e Eduardo Prado Coelho, publiquei este texto no DNA em Março de 2001. Pouco tempo depois acabei mesmo, no suplemento, com o espaço dedicado aos livros, por entender justamente que não reflectia o mercado. Não mudei de ideias nestes anos, ainda que admire, aprecie e respeite as opções dos colaboradores extraordinários que tive naqueles anos...

22
Fev08

Cá se fazem...

Estávamos à conversa sobre a situação de Lisboa e o mais avisado e lúcido do grupo disse o que ninguém queria admitir mas parecia óbvio:

- Os lisboetas vão ter de pagar esta crise. A solução só pode passar pelo aumento de taxas e impostos municipais.
Ainda se falou de alienação de património, mas já não me interessou ouvir.

Como lisboeta, percebi que muito provavelmente o meu dinheiro vai contribuir para tapar o buraco criado pela incompetência, negligência, inépcia, amadorismo (e, se investigarem bem, corrupção, tráfico de influências, fretes e favores) dos últimos 20 anos.
Por uma questão de higiene e saúde políticas, eu acharia que, antes de nos cobrarem impostos e taxas acrescidas, poderiam os senhores-que-nos-representam legislar e fazer cumprir no sentido de arrestar/penhorar/hipotecar/confiscar, sem dó nem piedade, as casas, os carros, as quintas, as empresas, os lucros, as acções (e o mais que fosse...) de todos os políticos responsáveis directa e indirectamente pela situação a que Lisboa chegou. Era o mínimo. Era um exemplo. Era um aviso. E ficávamos a saber quem eram eles, também...
A totalidade dos bens destes “bons rapazes” não resolveria o problema – mas seria um impulso para que pessoas como eu pagassem com menos resistência um qualquer agravamento de impostos...
Tal como a condenação do PSD e da Somague no caso do financiamento político, sendo uma agulha do palheiro destas troca de favores, tem a virtude de alertar consciências e obrigar os líderes dos partidos (e os empresários...) a cumprir leis, também um acto exemplar do Estado português contra os responsáveis políticos pela rotura financeira da Câmara constituiria um sinal de alerta para esse mundo obscuro, e cada vez menos recomendável, que é o das autarquias. Lisboa é a maior – mas não está sozinha neste “estado de sítio”.
Sei que nada disto vai suceder – e o mais certo será o nosso dinheiro suportar, sob a forma de impostos agravados agora ou “inventados” no futuro, a má gestão destes tempos. Mas eu não me resigno – e por isso, sempre que for caso disso, voltarei à carga com esta ideia prosaica e simples: cá se fazem, cá se deviam pagar...

21
Fev08

Todos juntos

Costuma ser um dos motivos para criticar, um argumento para deitar abaixo, e obviamente um escândalo deontológico a condenar. Pois bem: eu aprecio o facto da TVI colocar todos os seus profissionais e colaboradores ao mesmo nível nas galas de aniversário.
(OK, eu sei que é politica e intelectualmente incorrecto, mas agora já está)
Gosto de ver os jornalistas despirem a farda oficial da seriedade e darem um ar da sua graça – mesmo que alguns deles possam não ter ponta de graça. Para o que neste caso me interessa, é indiferente a qualidade do desempenho no palco do Coliseu: o que acho saudável, maduro e inteligente é criar ao longo de uma noite uma plataforma homogénea de profissionais que, juntos, festejam o mesmo momento. Sem a bolorenta barreira que normalmente separa os apresentadores, os actores, dos jornalistas.

No futuro (aliás, em rigor, já no presente...), num canal de TV, em qualquer media, todos são comunicadores. Todos devem saber comunicar bem. E ao vestirem a camisola da estação onde trabalham, todos podem partilhar as alegrias e os sucessos num mesmo tempo.
A programação da TVI não me tem como destinatário na maioria dos seus horários. Muitos das suas estrelas, eu nem conheço. Mas gostei de ver, a noite passada, no 15º aniversário da estação, os jornalistas, os actores, os apresentadores, os cantores, juntos num mesmo programa. Eles estão certos. O caminho dos media passa por aquela ideia: a de uma equipa única, a de uma só imagem, a de uma inteligente capacidade multidisciplinar.

20
Fev08

Dez dias em Cuba

O que restava de certa esquerda a correr-me no sangue foi varrido em escassos dez dias, nos idos de 1993, quando umas inesperadas férias me levaram a Cuba.
Parti na legitima e pacifica intenção de namorar, fazer praia e conhecer Havana. O Cáceres Monteiro, grande jornalista (e bom amigo, saudade...), que por lá tinha andado em trabalho diversas vezes, desenhou-me um “roteiro de repórter” que começava, naturalmente, no Hotel Havana Livre, onde Fidel se instalara depois da triunfante entrada na cidade, em 1959. E passava por todos os ícones da capital cubana, da Bodeguita del Medio ao clássico Centro de Imprensa Internacional.
Confesso que aterrei em Havana com uma vaga, muito vaga esperança de encontrar um povo realmente feliz, apesar de todas as limitações com que vivia. Um povo feliz, apesar do embargo. Conversei com taxistas, empregados de hotel, banheiros da praia, médicos, professores. Encontrei gente invulgarmente culta e formada.
Mas, em vez dessa felicidade que a propaganda vendia a rodos, em vez desse povo em festa permanente nas ruas, imagem de cartaz e de postal, encontrei miséria em todos os cantos e recantos da Ilha. Miséria disfarçada e escondida numa paz podre feita de policias que controlavam policias e outros policias para controlar os restantes. Miséria descarada nos racionamentos, nos professores universitários que acumulavam empregos para poder comprar um frango. Miséria humilhada na prostituição dentro dos hotéis e à porta das “lojas de turistas”. Miséria travestida de artesanato barato, charutos aldrabados e “paisagem típica” que não passava de degradação e sujidade.

Como se fosse pouco, a liberdade não passava por ali.
E quanto à alegria de viver, nem a sombra: vi nostalgia, saudade, desconsolo e desalento.

Foram dez dias a tentar ter férias num país que não se cansava de me mostrar que não havia mais “amanhãs que cantam” em parte alguma do planeta. Foi mesmo assim: o que restava de certa esquerda a correr-me no sangue foi varrido em escassos dez dias.
Demorei dias, semanas, a conter, controlar e aplacar a tristeza que me invadiu o olhar no dia em que deixei Havana. Ali ficou o último resquício da adolescência. O último bocadinho de utopia. Uma lasca de um muro que começara a cair em 1980, no meu pequeno mundo, e que ruiu por completo, no mundo de todos nós, nesse feliz final de 1989.
Essa tristeza que trouxe de Cuba continua por perto enquanto a agonia daquele regime durar. Não é demais lembrar: o regime não terminou ontem.

 
Lembrei-me desta viagem por causa de Fidel, sim – mas especialmente por me ter deslumbrado este texto de Ana de Amsterdam.

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Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

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