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Pedro Rolo Duarte

09
Fev08

“Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve”

A nota introdutória (de Helder Godinho) remete-nos para um tempo distante. Ele fala das palavras sobrepostas, das diversas cores que o escritor utilizou, das diferentes caligrafias – mais definitivas, impulsivas, ou nada disso... -, e do trabalho que teve para trazer à tona de água a versão final, próxima daquela que desejaria o autor. Nunca saberemos se conseguiu. Sabemos que deu o melhor de si. Infelizmente, mestre Vergílio Ferreira já não está entre nós para rematar «Escrever», o segundo livro póstumo que a Bertrand acaba de editar. E o professor, sabe-se bem, nunca aderiu às novas tecnologias: escrevia à mão, passava à máquina e revia tudo com o seu punho.
Quando o entrevistei para a revista “Capa”, anos depois de ter sido meu professor no Liceu de Camões, a máquina de escrever ocupava o centro da sua mesa de trabalho - mas quando me pediu para rever o texto que resultou da nossa conversa («só para ver se sempre foi útil o que lhe ensinei no liceu», desculpou-se), foi à mão que assinalou uma ou duas correcções. Justas e merecidas.
Nunca mais me esqueci daqueles dias em que me confrontei com as suas palavras ditas, gravadas, ouvidas, escritas. Tanto ensinamento em tão pouco tempo.
Agora, mais um livro aí está. São 250 páginas de reflexões, as mais das vezes curtas, do escritor. Ideias que dão horas e horas de reflexão. Momentos, sinais, luzes. Leio, em duas noites seguidas, todo o livro. Não me apetece, depois de o ler, ter a mais pequena ideia ou escrever duas frases consecutivas. Nada. Apenas espalhar as frases e as ideias do Professor. E acrescentar este dado irrelevante: escrevo esta crónica directamente no computador – mas, secretamente, apetece-me voltar à caneta e ao papel. Quem sabe não me deixaria fascinar pelas palavras outra vez? Os mestres não têm sempre razão? Para mim, sim.
Ora vejam: «Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve. Portanto não te comovas muito, mesmo que ele se queixe».
 
Ao sábado, reedições. Texto originalmente escrito e publicado em 2001 no site Netparque, da Parque-expo.

08
Fev08

Já ninguém dá valor ao trabalho. Quer dizer: queixam-se de que o país é pouco produtivo. Mas...

... Mas quando se sabe que o centrista Telmo Correia assinou 300 diplomas na noite em que deixava funções, interrogam-se sobre as motivações do ex-ministro e chegam a colocar duvidas sobre a capacidade de trabalho do senhor, que toda a gente sabe ser semelhante à de Paulo Portas (ou já ninguém se lembra das 60 mil fotocópias de notas pessoais no Ministério da Defesa?).
... E quando se sabe o número de projectos assinados por José Sócrates em tempos idos (de lindas e modernas moradias, convém sempre sublinhar...), aqui d’el rei que o engenheiro não podia nem devia ser tão trabalhador, solícito e responsável.
Mas que gente tão ingrata...
Afinal querem o quê? Um país de gente séria e responsável, sem esquemas nem fretes nem favores, porém lenta e com bom gosto?
Por amor de deus. Já ninguém dá valor ao trabalho.

07
Fev08

A vista que, enfim, nos devolveram

Habituámo-nos de tal forma a que as coisas corram mal, a que nos tirem e nunca nos devolvam, a que prometam e jamais cumpram, a que nos enganem e aldrabem - e “ah, afinal, porém, contudo...”-, que quando algo sucede de modo diverso parece que nos faltam as palavras...
Ontem, dia 6 de Fevereiro, ia tendo um acidente de automóvel a subir do Bairro Alto para o Rato, porque algo estranho e anormal, à direita de quem sobe, me chamou a atenção, sem que o esperasse. Olhei (foi aí que ía mesmo batendo no carro da frente...), e não quis crer no que os meus olhos viram: o Jardim/Miradouro de São Pedro de Alcântara reaberto. Devolvido à cidade. Recuperado. A traça original.
Ali estava ela - aquela vista que ao anoitecer deslumbra e entontece, e que à noite comove até ao limite do silêncio, o vale desenhado e o Castelo em frente. Há quantos anos nos tiraram este bocado de vista e de cidade, com promessas de requalificação a que naturalmente torcemos o nariz? Imaginei ali um condomínio e uma investigação inconclusiva nas páginas de um jornal...
Agora vejo o Jardim de São Pedro de Alcântara de novo. E não acredito.
Parei, estacionei em segunda fila, dois minutos, dois minutos para acreditar no que estava a ver.
O Jardim/Miradouro de São Pedro de Alcântara é nosso outra vez. Cheguei a casa, fui ao computador, encontrei a notícia (reabriu há dois dias), e as palavras de António Costa: “Era uma vergonha para a cidade ver o estado de abandono a que esta obra estava votada.

Tratava-se de uma obra que estava parada por falta de pagamento e que nós, quando tomámos posse na Câmara, definimos como prioritária. Faz hoje seis meses que tomámos posse e esta obra está paga e o jardim está de volta à população”.
Há muito tempo que não dava valor ao meu voto. Ontem, dei-lhe o valor de uma promessa que se cumpre. De algo que era nosso e a nós veio de novo parar. Ontem voltei a acreditar um bocadinho.
Agora é cuidar dele, do miradouro, e do jardim que vai crescer a verde, com carinho.

06
Fev08

A Sónia voltou

A última vez que sucedeu foi no sábado passado, numa conversa com uma recepcionista de hotel que reconheceu o meu nome. Foi a última vez. Mas é tão frequente, tão recorrente, já tão habitual, que há tempos tentei ensaiar uma resposta-tipo, assim do género “ligou para o gajo a que perguntam pela Sónia, deixe o seu desabafo depois do bip”. Mas não funcionou, porque eu não era capaz de ser sucinto e dizer mais ou menos isto:
“Pois, aquele género de textos ela agora não tem onde publicar, mas sabe como é: um dia, quem sabe, nasça outra publicação com espaço e liberdade para pessoas como a Sónia... Se a quiser ler, no entanto, ela escreve na revista Time Out”.
Então, como não conseguia dizer tudo isto numa frase lapidar, nem sou insensível à pergunta “e aquela jornalista, a Sónia, o que é feito dela?”, desisti. E faço conversa, conforme o meu estado de espírito, a disposição do momento.
(Só nunca digo a verdade, que é ter começado por sentir a Sónia como uma “filha”, às vezes “afilhada”, e hoje a sinto como a “irmã mais nova” que nunca tive, e uma sorte do caraças tê-la “apanhado” no meio de 800 currículos...)
Como digo, a última vez foi no sábado. A funcionária da recepção daquele hotel guardava páginas da Sónia, tinha saudades da Sónia, queria voltar a ler a Sónia. Eu falava da Time Out e ela dizia “não é a mesma coisa, não são certamente aqueles textos, aquelas crónicas em que ela falava das coisas que nos acontecem, aquelas reportagens em que se percebia quando ela se emocionava, se envolvia...”.

Pois, dizia eu, não é bem a mesma coisa.

Não é bem a mesma coisa.

Mas ontem à noite...
... Não é que ontem à noite eu encontrei a Sónia Morais Santos, a Sónia, aqui ao lado em http://coconafralda.blogspot.com/?

A Sónia voltou, porra!
A sério, leiam:

“Amanhã fazes três anos. Faz três anos que eu saí para a maternidade, de mala aviada e barriga-barril prestes a explodir. Amanhã faz três anos que deixei o pai em casa com o Manel, para que ele não sentisse qualquer angústia com a tua chegada. O pai levá-lo-ia à escola, como num dia normal, e depois ia ter comigo à Cuf. Chamei um táxi e disse: "É para a Cuf Descobertas, se faz favor". O homem abriu muito os olhos, engatou a primeira mais nervosa da sua vida de taxista e exclamou, tentando mostrar calma: "Chegou a horinha, hein?" Depois desatou numa correria desenfreada pelas ruas de Lisboa, até eu lhe explicar que não havia pressa, "É uma cesariana marcada, não há contracções, não há aflições, não há sopros e gritos."
Sosseguei-o mas fiquei a pensar naquilo. Olhava a rua pela janela e pensava que isto de ter filhos que não descem tem o seu lado tranquilo mas falta-lhe a cinematografia de um pai aos ziguezagues e um carro de piscas ligados e buzina a avisar que ali vai um bebé a querer nascer. Ali, naquele táxi, ia só uma mulher a querer ter um bebé. Não um bebé a querer sair. Estranho, mas pronto.
Amanhã faz três anos que acabaste com as minhas dúvidas sobre se o amor que teria por ti seria da mesma intensidade que o amor que tinha pelo teu irmão. Quando te vi sair da minha barriga, quando te ouvi chorar soube logo. O amor pelos filhos não se divide. Multiplica-se. Amanhã faz três anos que me multipliquei outra vez. Obrigada”.

Está lá no blog.

A Sónia voltou.

05
Fev08

Meu pai (um texto com sete anos, como se fosse hoje)

Foi-se embora deste mundo há 14 anos. Parece muito – e será muito para os outros –, mas para nós, para a família, parece pouco, muito pouco tempo. Os anos sucedem-se, a dor vai sendo substituída pela memória doce, a amarga saudade vai ficando cada vez mais saudade pura. Resiste-se melhor e vive-se outra vez. Já conseguimos falar do meu pai com um sorriso. Já conseguimos lembrar para lá das lágrimas. Mas a presença dele paira eterna e permanentemente sobre nós.
Nos meus dias, há pequenos gestos, frases, pessoas, ideias, factos, imagens, que me levam até ele, e dele até à vida que então vivia, e daí a uma incontornável pausa nostálgica no tempo. Todos os dias vivo estes regressos inesperados. Com prazer e gosto, nuns casos, com tristeza noutros, indefinidamente nalguns. Pode ser o cheiro a tinta de um jornal, um olhar que passa pela pastelaria «Mourisca», encontros num adeus a um jornalista, um programa de televisão, um maço de «SG Ventil», uma paisagem, um Fiat 1500.
Pode ser até o que ele não viveu. Quando escrevo, e vou emendando aqui, corrigindo ali, voltando a escrever – tudo automaticamente, sem pensar no gesto que faço mas levando a mão ao rato do computador – às vezes paro e penso no meu pai. Revejo-o nas noites do Campo Grande a batalhar na velha máquina de escrever «Hcesar», assim chamada porque as primeiras teclas tinham essa sequência: h, c, e, s, a, r. O meu pai era um preciosista, no mais puro sentido. Cada correcção num texto era uma folha nova, cada «gralha» era mais uma página para recomeçar. Ele não dava margem para dúvidas, menos ainda para gralhas, e as suas crónicas eram entregues no semanário «O Jornal» prontas para serem «fotocompostas». Sem erros, nem emendas feitas à mão, nem chavetas com acrescentos, nem rasuras. Nada. Ele passava a prosa as vezes que fossem necessárias. Perdia horas à procura da data precisa de um acontecimento, ou do nome completo de um realizador. A sua noitada semanal de escrita era longa e tensa, na procura da exactidão, no acerto do pormenor, no uso devido de cada linha. Com ele eu aprendi a procurar o rigor, a não me dar por satisfeito à primeira, a achar que tudo está sempre por aprender e que o nosso grau de exigência deve ser ainda maior do que o do leitor.
Mas, do outro lado do espelho, com a sua morte eu aprendi que há um limite para o sacrifício e o preciosismo. Que nem tudo vale a pena. Que o prazer não pode ficar atrás de tudo. Que quem corre por gosto também se cansa. E que, por mais rigorosos que sejamos, tudo o que fazemos são rascunhos de qualquer outra coisa.

Passados estes anos, sentado em frente a um computador – um objecto que ele já não conheceu, e que tantas horas de sono lhe teria seguramente devolvido –, eu revejo aquelas noites e comparo-as com estas que vivo também a escrever. O que há dele em mim? O que mudou do seu universo para o meu universo?
Um corrector ortográfico assinala-me erros e gralhas. Troco o lugar das frases sem trocar folhas, sem setas, sem chavetas, sem rasuras. Volto atrás e acrescento uma frase. A hora de entregar pode ser a hora de paginar – ninguém vai «passar» este texto, fazer «provas», montar à mão as colunas numa folha branca presa num cavalete. Parece tudo tão diferente...
... E é tudo tão igual: são palavras, uma eterna insatisfação porque nada fica efectiva e realmente como pensei, são jornais nas mãos de quem os quer ler, são pessoas e vidas de que a gente fala, umas vezes melhor, outras bem pior, e sempre sabendo que a realidade não acaba num ponto final, mas que o nosso texto vai ter de ter, em algum lugar, um ponto qualquer, nem que sejam umas reticências. E depois, é a procura, a busca, uma coisa que não sabemos explicar mas está longe e parece que nunca lá chegaremos. Há sempre uma pontinha de angústia. Certo, há sempre uma aproximação ao prazer, um gosto misterioso, um estado de alma. Parece que tudo se repete. Até esta circunstância simples de estar, noite fora, a escrever e a lembrar-me do que dele me lembro, quando dele me lembro, e a partilhar com quem não conheço o que, provavelmente, a mais ninguém interessa. Senão a mim e aos meus. Mas também isso me ensinou: o jornalismo vive tanto do rigor como do que é imponderável. A memória, por exemplo. Sem ponto final, como ele via a vida. Como eu vejo a vida...

 

O meu pai, António Rolo Duarte, morreu a 5 de Fevereiro de 1987. Há 21 anos, portanto.

04
Fev08

Um prémio Goya

Há memórias que ficam para sempre e que acordam nos dias certos, nos momentos certos: o meu pai tinha uma enorme admiração pelo trabalho e pela figura de Carlos do Carmo. Não apenas pela pessoa, de quem gostava pessoalmente, mas pelo artista - porque correspondia ao modelo profissional que preconizava e procurava viver no seu ofício. Perfeccionismo, insatisfação permanente, procura do estádio superior. Carlos do Carmo nunca deixou sair um disco seu sem antes atingir o ponto mais alto do seu desempenho artístico. O meu pai nunca deixou sair um texto da sua máquina “hcesar” sem o saber irrepreensível.
Era assim – e por ser assim, penso eu, partiu mais cedo. Amanhã lembrarei o dia 5 de Fevereiro de 1987.
Esta noite, ao ver Carlos do Carmo ganhar o prémio Goya para a melhor canção original de um filme (uma distinção da Academia Espanhola das Artes Cinematográficas, que corresponde ao Óscar ibérico, se ele existisse...), imaginei a satisfação do meu pai, se aqui estivesse, que não deixaria de se lhe referir dizendo “Charles do Charme”, ao ser-lhe atribuído o prémio por "Fado da Saudade”.
Sublinharia o rigor com que Carlos do Carmo assume a sua condição livre de artista. E não deixaria de me recordar os tempos em que, por manifesta infantilidade e presunção, eu dava palpites tolos sobre o talento do cantor.
Hoje, felizmente, estou num lugar mais tranquilo – e não escondo a emoção quando oiço a sua voz, quando me arrepia o seu talento. E vê-lo ganhar um Goya tem qualquer coisa de familiar... Já não apenas pelo meu pai. Felizmente, por mim também.

03
Fev08

Velocidade limitada, num instantinho

Às vezes faz-me falta uma câmara de filmar.
Gostava de poder registar, em tempo real, aquilo a que assisto, e vivo, como condutor, todas as semanas, na Avenida Marechal Gomes da Costa. Vou tentar contar.
…Eu venho a 80 ou 90 quando saio da Rotunda do Aeroporto. Ninguém atravessa aquela artéria, circula-se com segurança, o viaduto que se segue é a direito, e não há uma só razão para circular a menos de 80. De repente, à minha frente, começa o enxame de luzes vermelhas, de travões a serem accionados, e então lembro-me: ah, é o radar...
Lá está ele, solene, avisador, amigo do seu amigo: 50 Km/hora. Todos os veículos abrandam, e passam naqueles 100 metros, mais ou menos em frente à RTP (onde, sublinhe-se, só há uma forma de atravessar a estrada: por uma passagem superior), como se fosse domingo e a vista deslumbrante. Não é uma coisa nem a outra. Cem metros volvidos, pé no acelerador e volta tudo aos 80, 90, 100, a caminho do Tejo ou do Parque das Nações, justamente onde há semáforos e passadeiras e acidentes.
A imagem é notável. Como se naqueles 100 metros de avenida a vida passasse em “slow motion”, para logo recuperar o seu ritmo normal mais à frente. Como se eu estivesse a escrever um texto com determinado ritmo e deee rrreeeeppppeennntte abbbbrrrraannndasse muuuuittto,,, para depois voltar à normalidade.
É assim que funciona o radar nas ruas da cidade.
Às vezes faz-me falta uma câmara de filmar. Neste caso, para mostrar, mais do que explicar, como a nossa manhosa e triste forma de nos relacionarmos com as regras, as leis, e o policiamento, resulta da mesma forma manhosa como nos são impostas as regras, as leis, e o policiamento. Estamos bem uns para os outros.

02
Fev08

Reler

Pelas minhas contas, foi a quarta vez que reli «Até ao Fim», de Vergílio Ferreira. Desta vez tinha um objectivo claro, e «a pedido»: tinha que me pronunciar sobre ele e gostava de ter a obra ainda a pairar sobre mim. Sem esforço, lá voltei aquele volume de capa amarela, que me aproximou do ex-professor do Liceu de Camões, e deixei-me levar pela sua história, pela poesia do escritor, acima de tudo pelas reflexões sobre a vida e a morte que fazem de «Até ao Fim» um tratado sobre esta nossa breve passagem pela face da terra.
Verifiquei depois que, apesar de autodidacta na leitura – com falhas graves de «cultura geral» e excessos de «cultura lateral» ou, segundo os cânones em vigor, irrelevantes... —, tenho uma estranha tendência para voltar aos mesmos livros.

Reler é o quê? Recordar ou redescobrir? Avivar a memória ou confirmar o que julgámos antes? Perder tempo? Boris Vian dizia que «as pessoas só gostam do que já conhecem». O libertino Roger Vailland – um dos meus heróis da juventude – entendia que os leitores dos seus romances «acrescentam um passeante ao quadro do pintor».

Opto por uma ideia alternativa: reler é como voltar, muitos anos depois, a uma casa vagamente conhecida. O que reconhecemos nela? Um ou outro pormenor, uma ideia muito geral, um móvel que nos impressionou, uma solução arquitectónica. Pouco mais do que isso. A dimensão das coisas muda com a idade – o que antes nos parecia enorme pode ser agora, afinal, mínimo. O nosso olhar amadurece, e temos tendência a «deixar cair» alguns dados adquiridos e valorizar detalhes que antes nos passaram «ao lado». O interesse pelo «guião» pode ser substituído pela atenção ao conteúdo, à forma como se desenvolvem os «objectos», as «pessoas», o «espaço», dentro do livro.

Reler não é apenas voltar ao livro – é entrar mais profundamente dentro dele, ganhar a capacidade de o «observar» sem o «feitiço» do enredo, e poder, no limite, descobrir que não passava de uma boa história infelizmente mal contada. Não é isso que sucede com «Até ao Fim», ou «Para Sempre», que resistem a todas as leituras. Não é isso que ocorre quando se volta a Jorge Luís Borges, ou às narrativas de James Ellroy, Paul Auster, Clarice Lispector (felizmente redescoberta em Portugal), ou ainda aos clássicos de, entre tantos, Ernest Hemingway.

Tudo para chegar aqui: vale mais, muitas vezes, reler um livro que julgamos conhecer do principio ao fim, mesmo correndo o risco de não «encontrar» nada mais do que o que nos apaixonou no passado, do que arriscar «novidades» prometidas que, essas sim, acabam no caixote das ideias para esquecer. Um dos livros que escolhi para as minhas férias, «Lixo», de Irvine Welsh, faz jus ao nome e juro que me fez sentir o que menos gostaria quando tenho mais tempo livre: perdê-lo. Queria ter à mão, pela quinta vez, «Até ao Fim». Queria a minha escritora predilecta de noites de Verão, Patrícia Highsmith, queria voltar às «Cinzas de Ângela», que enriqueceram o Inverno que passou. Queria crónicas saborosas de Vasco Pulido Valente, de Miguel Esteves Cardoso, ou aquelas prosas a arder em álcool de P.J. O’Rourke. Queria tudo menos isto. A obsessão de não encher o carro com livros, a que improvavelmente voltaria, atraiçoou-me: custava alguma coisa ter mais dois quilos no porta-bagagens e poder deliciar-me com o que já li – mas sei, previamente, que consegue voltar a encher-me as medidas? Aprendi a lição. Para o ano não será assim.
 
Ao sábado, reedições. Texto originalmente publicado no DN em 1999

01
Fev08

Descobertas inconsequentes

“Examine cada um dos seus pensamentos, e há-de encontrá-los todos ocupados no passado ou no futuro. Quase não pensamos no presente; e, se pensamos, é apenas para à luz dele dispormos o futuro. Nunca o presente é o nosso fim: o passado e o presente são meios, o fim é o futuro. Assim, nunca vivemos, mas esperamos viver; e, preparando-nos sempre para ser felizes, é inevitável que nunca o sejamos”.
Blaise Pascal (“Pensamentos Escolhidos”), encontrei no blog “Palavras da Tribo”.
Fiquei a pensar no sentido que faz. E faz.

Pág. 3/3

Blog da semana

Mesa do ChefePara quem, como eu, gosta de cozinha, gastronomia e restauração, este é mais um dos poisos certos...

Uma boa frase

O Insurgente“Isaltino Morais: perda de mandato autárquico; condenado a 9 anos de prisão por fraude fiscal, abuso de poder, corrupção passiva para acto ilícito e branqueamento de capitais. Resultado 2017: 41.7% Esta é a imagem do país. Em suma, temos o país que merecemos, com os políticos que merecemos, com o fado que merecemos." Mário Amorim Lopes

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