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Pedro Rolo Duarte

30
Abr08

O que vida (sobretudo) é

«A vida é sobretudo desgosto e trabalho...» É verdade, pai. A vida é sobretudo mortes e bebés; milagres vulgares e desastres vulgares, a magia branca do crescimento e depois a outra magia, na outra ponta da linha, a magia negra, igualmente estranha, igualmente febril, igualmente inesperada.


Isto escreve Martin Amis a páginas tantas de “Experiência”.
Por natureza, vejo na vida mais do que mortes e bebés – mas reconheço que está na sequência da vida e da morte, da surpresa e da decepção, do encantamento e da dor, do amor e do vazio, tudo o que nos faz chegar a um qualquer patamar do tempo e dizer: “se eu soubesse o que sei hoje...”.
Quem não o disse já?
É isso: “A vida é sobretudo mortes e bebés”.

29
Abr08

Outra ASAE

Num momento fascizante – certamente inspirado pelas comemorações de Abril e a proximidade do 1º de Maio – ocorreu-me propor uma ligeira alteração na actividade da ASAE.
Em vez de estabelecimentos, feiras e feirantes, tascas e botequins, por que não pessoas?
Isso mesmo: a ASAE poderia começar a encerrar pessoas. Fechá-las. Suspendê-las, quando não fosse de extrema gravidade a situação. Há tanta gente que atenta contra a saúde pública, a sanidade mental da população, o bem-estar e a higiene gerais – e ninguém as fecha, ninguém as manda calar?
Não preciso de dar exemplos óbvios, insulares e com apelidos que lembram espaços públicos agradáveis para passear os filhos, pois não?
Não preciso de falar dos nossos queridos Partidos políticos, na situação ou na oposição, pois não?
Nem sequer preciso de nomear os indigentes televisivos do costume, certo?
A saber: a ASAE começava por fechar o seu presidente. E depois ia por aí fora, toda contente, a encerrar e suspender meio-mundo...
Para hoje era isto. Como diz a Maria Porto, com a sua graça: Fui.

28
Abr08

O "outro" Cavaco Silva

O Presidente Cavaco Silva explicou este fim-de-semana aos portugueses como funcionam os políticos. Para o fazer, usou o seu próprio exemplo e, sem querer, demonstrou por que não adianta acreditar nele (e neles...).
Cito o jornal Correio da Manhã: “O Presidente da República mostrou-se (...) impressionado com a ignorância dos jovens sobre o 25 de Abril e responsabilizou os partidos pelo alheamento dos mais novos em relação à política. "Se os jovens não se interessam pela política é porque a política não é capaz de motivar o interesse dos jovens” (...). Para reforçar a mensagem, o Presidente quis mostrar provas e revelou os resultados de um estudo que solicitou à Universidade Católica sobre os jovens e a política. Mas os resultados surpreenderam o Chefe de Estado. 'O nível de informação dos jovens relativamente à política é de tal forma baixo que ultrapassa os limites daquilo que é natural numa democracia amadurecida', afirmou”.
Pronto. Repentinamente, o Presidente deixou de fazer parte dos portugueses que contam, esqueceu-se da origem e acordou “outro”...
Eu só queria recordar ao Dr. Cavaco Silva que ele, enquanto politico, foi e é um dos principais responsáveis por aquilo que o “surpreende”, e cuja responsabilidade tranquilamente remete para terceiros. Cavaco Silva foi líder do PSD, primeiro-ministro com maioria absoluta, mandou em Portugal durante 10 dos 34 anos que levamos de democracia. Foi o primeiro-ministro recordista de governação consecutiva.

Nesse período, preferiu ignorar as ideias, os debates, ou mesmo a memória, porque estava preocupado com o défice, a economia e o Orçamento. "Deixem-me trabalhar", gritou. Chegou a mostrar desprezo pela comunicação social dizendo que não lia jornais regularmente. Nunca o ouvi mostrar qualquer espécie de preocupação pelos conhecimentos da “juventude”.
Cavaco Silva foi seguramente o mais relevante dos responsáveis pela pragmatização da política – isto é, pela forma utilitarista e economicista como a usou para colocar Portugal numa qualquer ordem europeia. Com Cavaco, o 25 de Abril, a Europa e a Constituição passaram a ser apenas muletas para argumentar sobre a gestão de Portugal e a oposição de sempre.

Memória? Nada. Coerência? Zero.
Ver Cavaco Silva, volvidos estes anos, recuperar para o discurso do dia a politica, o conhecimento e o 25 de Abril, é a piada do ano. Ou a miséria a que chegámos.
Em rigor: mais do mesmo. Não admira o alheamento – dos jovens, dos pais deles, dos primos, dos tios...

27
Abr08

1974 (III)



(Três dias com imagens que fui buscar aos arquivos de 1974. Eu tinha apenas 9 anos, mas consigo sentir alguma emoção sempre que revejo e recordo, nestas fotografias, nestes momentos, a alegria contagiante que eu via viver-se à minha volta. E percebendo hoje porquê, sou quase capaz de a sentir novamente. A liberdade, a liberdade...)

24
Abr08

Paradoxo

Estava numa dessas imensas superfícies onde se vende tudo o que “se liga”, da cafeteira ao computador, do fogão ao esquentador. Reparei que tenho perdido tempo a gravar CD’s com os meus textos, ficheiros, fotografias, numa espécie de backup improvisado: por menos de 100 euros posso comprar um disco rígido com 160 gb, pouco maior do que um “moleskine”, onde guardaria tudo o que está agora repartido por dezenas de discos.
Já acho normal e corriqueira esta evolução contínua, rápida, que nos deixa desactualizados em escassos instantes.
Mas não consigo deixar de pensar no maior paradoxo da revolução tecnológica: todos os dias ampliamos a memória do universo em milhões de milhões de bytes que ficam disponíveis para sempre em “discos rígidos” de toda a espécie. Mas, na verdade, cada vez temos menos memória colectiva, menos memória afectiva. Menos memória. Tudo guardado em bytes dentro de caixas de plástico – nada guardado onde devia: “no fundo do coração”.

23
Abr08

O que falta

(O principio é esse mesmo, não responder aos comentários, deixar fluir opiniões em cima da minha opinião. Mas às vezes apetece, por razões neste caso muito óbvias...)


“De hernani a 21 de Abril de 2008 às 18:46
boa tarde pedro , ou, boa tarde sr pedro , só gostava de saber a sua opinião sobre a monocle '...”


Hernâni: a Monocle era o modelo de revista que eu sonhava um dia fazer em Portugal – tal como a Vanity Fair, numa fórmula adaptada, recriada e criativa.
A Monocle, fundada e dirigida por Tyler Brulé - que criou a Wallpaper, para que conste... – é a mais criativa e inteligente revista dos tempos que correm. Ela responde à curiosidade ínfima e irrelevante do ser humano – mas também à mais profunda e consistente convocatória sobre a vida no nosso Planeta. Ela é, a um tempo, ligeiramente frívola num fait-divers , e profunda quando percebemos que esse fait-divers pode revelar uma tendência promissora. É bipolar, como a vida se descobre neste século: permanentemente entre a paz e a guerra, entre o sim e o não, entre a dúvida e o crédito.
A Monocle «respira» jornalismo: pensa, descobre, pensa outra vez, investiga, pensa outra vez, reporta, pensa mais uma vez, explica e perspectiva – e no fim, ainda dá ideias. A reflexão sistemática que faz sobre a qualidade da vida urbana é notável, e vai do ranking sobre as melhores cidades para viver (concebido de uma forma inteligente e reflectida, longe daqueles estudos feitos a régua e esquadro nas empresas de sondagens), até à reflexão sobre as «marcas» que os países podem constituir (longe também das balelas dos «especialistas» do costume). Não falando da forma original como aborda o mundo económico e empresarial, a moda, a cultura. É a revista (que conheço...) que melhor trata os factos – e aqui tratar significa pensar, traduzir, relativizar, relacionar. Ou seja: acrescentar-lhes algo. Jornalismo, portanto.
Dito isto, perguntaria o Hernâni: por que raio Portugal não tem uma Monocle, ou sequer uma Vanity Fair ?
Respondo: não tem porque os consumidores não querem, porque os empresários não acreditam, e porque os anunciantes não confiam. Esta cadeia de «nãos», que junta os consumidores, os empresários e os anunciantes, será quebrada quando uma das partes abrir a janela. Os consumidores abrem a janela todos os dias, mas só compram se houver um DVD oferecido ou um saco ou um chapéu – ora, como o mercado os alimenta, está criado o imparável ciclo vicioso. Está por saber se o consumidor tem este comportamento porque vive viciado na “borla”, ou se a isso se junta, na verdade, o facto de não apreciar suficientemente os produtos que estão nas bancas...
Restam então os outros dois elos da cadeia. Quando os anunciantes e os empresários forem ousados, inteligentes e criativos, talvez o mercado possa mudar. Mas, lá está o mas... Se este negócio não é mais do que uma fábrica de salsichas a que se junta uma cenoura oferecida sob a forma de DVD, é difícil inverter o ciclo.
Estamos no mundo da pescadinha de rabo na boca: empresários e anunciantes não arriscam, porque os consumidores se comportam de forma padronizada. Como os consumidores não têm oferta para lá do óbvio, nunca saberemos como reagiriam a novos conceitos e produtos.
Chegámos a um ponto em que a solução passa pela loucura.
Loucura é isto: quando alguém se chegar à frente, ousar fazer, ousar arriscar, ousar romper o ciclo criado – e quando esse alguém vencer, atrás dele virá um novo tempo de criatividade e esperança. Foi assim, em 1988, com “O Independente” (num tempo em que fazer um novo jornal era “suicida”, está escrito...), e atrás dele nasceram muitos outros projectos não-formatados desses anos, da K à Icon , do à Fortuna. Falta ousadia, convicção e coragem na imprensa. E falta acreditar.
Como a imprensa é sempre o reflexo do país onde está, é fácil perceber em que patamar está o país...

22
Abr08

"Centrão"

Andava de blog em blog a ler o que se escreve sobre a crise no PSD quando aterrei em O Insurgente. E ao ler o post de André Azevedo Alves pensei literalmente assim: “ora aqui está o problema”. Ou a solução.
Diz só isto: “O maior drama deste PSD é que o melhor líder para um partido social-democrata em Portugal nos dias que correm é, muito provavelmente, José Sócrates”.
Foi aqui que chegou o drama do “centrão” nacional. E é por isso que sou tentado a admitir que um novo partido à direita podia constituir uma saída. Ou um recomeço. Ou tão-somente uma clarificação.
Eu gostava de saber em quem votarei no ano que vem. A quantas andamos. Para onde vamos. Enfim, essas coisas triviais...

21
Abr08

Três quilos

Desta vez decidi pesar.
Três quilos.
No sábado, comprei 3 quilos de imprensa. A saber: Expresso, Sol, Público, Correio da Manhã, 24 Horas, ABC, Nova Gente, El Pais. Agora estou a juntar a papelada que vai para o lixo e, tirando os jornais espanhóis, que leio mais tarde, e que já se acumulam ao lado do El Mundo de domingo, li com gosto e/ou interesse mais ou menos 400 gramas de papel impresso. Dispensei ou ignorei, portanto, 2,6 quilos.

O que fica desta contabilidade?

Fica, em primeiro lugar, um saudável desprezo pela publicidade acumulada sob a forma de cadernos, folhetos, encartes, desdobráveis... No tempo da imprensa gratuita, começa a ser paradoxal comprar publicações que se fazem acompanhar de subprodutos comerciais.
Terão os anunciantes a noção de que boa parte do “público alvo” nem sequer dispensa um segundo aos seus investimentos “encartados” na imprensa, ou àqueles suplementos comerciais que parecem concebidos para uma aldeia de província dos anos 60?

Adiante.
Parte do que não li, já a net e televisão me tinham dado. Ou seja: fica, uma vez mais, a vaga intuição de que a imprensa não está a saber lidar com os novos cruzamentos de informação, com os formatos desmultiplicados de media, com a forma como os consumidores pescam informação nos “painéis” por onde passam (jornais são hoje, também, painéis de rua...).
Outra parte, não era suficientemente consistente: basta olhar o Magazine do El Mundo de ontem dedicado à gastronomia (tendo como pano de fundo o Ano Internacional da Batata), para não poder apreciar da mesma maneira o especial que a “Única” lhe dedicou no sábado. É mais ou menos como comparar a beira da estrada com a estrada da beira.

E a parte que falta, chegava tarde. Um exemplo sem importância: o critico do “Expresso” diz mal de um livro de Pedro Paixão que eu já decidi não comprar há pelo menos 15 dias, só por informação que obtive de forma gratuita, e sobre o qual já tinha lido na net há um mês. Ah, é verdade: livro está disponível na FNAC há pelo menos 10 dias. Só ontem no “Expresso”? Editores de livros e jornais talvez devessem repensar a relação que estabeleceram no tempo em que não havia internet...

A mudança que se está a operar na forma como se consome, digere e pensa o que sucede à nossa volta é demasiado rápida. E estes três quilos que carrego para casa são lentos, muito lentos. Nalguns casos incomodativos, porque também começamos a pagar pelo lixo de que nos desfazemos, ou pela dificuldade em fazê-lo...

O tempo. O tempo é a medida da realidade actual. Em breve, também a do dinheiro. E tudo traduzido em peso, se nos der para aí...

Não sei se me fiz entender. Mas era isto dos quilos. Para hoje.

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Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

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