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Pedro Rolo Duarte

20
Abr08

Já chegámos à Madeira

Cito a Lusa: “É com um enorme elogio ao presidente do Governo Regional que Cavaco Silva encerra a visita à Madeira: «O senhor não precisa de elogios, a obra que realizou ao longo destes 30 anos fala por si». Para o presidente da República qualquer português que visite o arquipélago perceberá o trabalho de Alberto João Jardim.”
Lido isto, vou dormir tranquilo: não votei em Cavaco Silva (e já tinha concordado com tudo o que Miguel Sousa Tavares escreveu ontem no “Expresso”).
Há algo, no entanto, que não me deixa tranquilo, ou me deixa mesmo perplexo: é que, pela primeira vez, sinto que tenho um Presidente que não é de todos os portugueses.

A Madeira precisava de mão firme em Alberto João Jardim e nos seus abusos. Precisava de um PR que o colocasse na ordem. Se nem o Presidente da Republica interrompe o circo que Jardim promove há 30 anos, gozando descaradamente com a cara do Continente que o subsidia, esqueçam lá isso...
Cavaco começou este fim-de-semana a perder o segundo mandato – aquele em que até pessoas como eu votariam nele. Se estivesse no seu lugar, não sei se sorriria. Ou se diria que já chegámos à Madeira.

19
Abr08

Sê um GNR


Não sei precisar quantos anos tem esta fotografia – mas são muitos, talvez vinte. Fui ao Porto entrevistar Rui Reininho para o “Sete” e ele escolheu o restaurante: o “Papagaio”, que ficava numa ruela mesmo ao pé do quartel da GNR local. Foi coincidência, mas deu ideias ao fotógrafo, que queria apanhar o Rui junto ao guarda que estava de sentinela.
Não achei muito boa ideia, e o Rui também não. Mas no fim do jantar, já com algum álcool misturado, ele ensaiou a pose. A fingir que nada se passava. O fotógrafo sem flash, aproveitando a luz eléctrica da rua, tirando fotos às escondidas atrás de um carro. O sentinela a olhar o Rui de soslaio, desconfiado, sem saber de todo quem era e sem perceber bem os nossos movimentos. Suspeitos, porém aparentemente inocentes.
Lembrei-me dessa noite dos anos 80 nesta sexta-feira, ao ver (em excelente forma) o Rui, e os seus notáveis companheiros de uma vida, no palco do Pavilhão Atlântico, na deliciosa companhia da Banda Sinfónica da GNR.
Tive receio de não gostar daquela reunião, cheguei a admitir não ir. Ainda bem que insisti. Foi um encontro feliz – e uma noite de grandes canções. Como desde sempre os GNR nos dão. Com ou sem guarda.

18
Abr08

Sete vidas

Sempre que um líder do PSD cai – coisa que acontece com demasiada frequência – lembro-me de uma citação de Churchill que encontrei numa das colectâneas de excelentes frases que o brasileiro Ruy Castro tão primorosamente reúne e edita:
“A política é quase tão excitante quanto a guerra e tão perigosa quanto ela. A diferença é que, na guerra, você só morre uma vez”.
Veremos então o que sucede a Menezes, Santana, Passos Coelho, Ângelo Correia, Aguiar Branco. Para falar só dos mais visíveis nesta fase da novela. No PSD, a expressão “saco de gatos” faz mais sentido pelo número de vezes que cada um morre e renasce.
... Não esquecendo a hipótese de Cristo descer de novo à terra.

 

PS - E entretanto, façam como eu faço: riam com as piadas secas e notáveis de Rodrigo Moita de Deus no 31 da Armada. Ele voltou melhor do que nunca.

17
Abr08

Divórcio & lei

A tentação é grande: uma pessoa lê aqui e ali opiniões – de pessoas por quem tem respeito e admiração – e acaba por formar uma opinião. Sem ir à fonte. Sem conhecer os factos. Pela rama. É obviamente enviesada, pouco fundamentada, superficial.
Era nesse patamar que eu estava em relação à nova Lei do Divórcio – para mim, na sequência do que fui lendo e ouvindo, um sinal de desresponsabilização generalizada sobre a instituição e o começo do grande jogo do casa e descasa. A balda, enfim.

Mas desta vez decidi, antes de começar a dar palpites, ler os 53 mil caracteres da proposta socialista. E eu, que passei por um divórcio que foi “de comum acordo” mas teve muitos momentos tremidos, discutidos, forçados, em gabinetes de advogados, encontrei naquela lei sensatez, equilíbrio e uma eficaz interpretação da realidade existente (nomeadamente da queda vertiginosa do número de divórcios litigiosos para o patamar actual dos 5%). Alguns dos principais “dramas” dos divórcios actuais – a guarda dos filhos, a arma de arremesso do dinheiro, a responsabilidade partilhada nas questões essenciais da paternidade, os anos de separação formal que uma das partes não aceita que se defina legalmente – ganham uma dimensão humanizada, civilizada, e deixam aos casais (ou ex-casais, como queiram...) a responsabilidade que muitas vezes a mão cega dos tribunais não consegue administrar convenientemente.
Quanto à culpa, ela nunca morre solteira. Está em cada um de nós no momento em que tomamos uma decisão difícil e dura como a de acabar com um casamento, ou reconhecer que chegou ao fim. Essa culpa arrasta-se atrás de nós, e é-nos bastas vezes lembrada pelos filhos, pelos que nos rodeiam, pelo círculo que se desfaz e desorganiza. Só quem nunca se divorciou pode achar que a culpa desaparece por decreto.

16
Abr08

Doenças profissionais

Faz parte do meu trabalho diário ler blogs.
Eu faço o meu trabalho o melhor que sei e posso.
Às vezes encontro post's assim:
“A minha primeira Comissão Política
11 de Abril de 2008
A primeira marca sempre. Gostei de sentir a motivação dos meus comissários políticos. Fiquei com a sensação que os membros eleitos na lista adversária estão com uma postura construtiva. O futuro irá conformar ou não esta minha primeira sensação. A bem do PS Oeiras espero que a minha análise esteja certa!”
Blog de Marcos Sá, do Partido Socialista.
Não querem que comente, pois não?

15
Abr08

Venha a estátua

O episódio mais recente que envolve Alberto João Jardim não pode surpreender quem quer que seja pelo lado do inimputável madeirense, já que lamentavelmente se mantém como sempre o conhecemos.
O que verdadeiramente surpreende é a atitude de Cavaco Silva – ou melhor, a ausência dela.
Um homem que nos habituou a assertividade, a mão pesada, a rigor na aplicação dos seus direitos e deveres, é repentinamente a imagem da complacência para com mais um exemplo rasteiro de política arruaceira – e até de cumplicidade com palavras que deixam na lama a democracia representativa (curiosamente, a mesma que elegeu Jardim... e Cavaco).
Estranho poder, o de Alberto João Jardim. A lei nunca se atravessou no seu caminho. Os eleitores nunca penalizaram o “défice democrático” da região. E agora esta: nem o mais determinado dos Presidentes da Republica que passaram por Belém o põe na ordem.
Só lhe falta mesmo a estátua.

14
Abr08

Sem papel

Decidi experimentar mais um bocadinho do futuro.
Dado que o Público me ofereceu (a mim e a todos...) a possibilidade de “navegar” livre e gratuitamente pelo seu site, edição on-line, arquivo, serviços móveis, durante alguns dias (à semelhança do que o Expresso já tinha feito em tempos), decidi investir nesta experiência. Imprimi páginas do jornal de sábado e domingo, naveguei pelo site, tentei perceber até que ponto seria compensador deixar de ler o jornal em papel e optar pela assinatura na Net.
Lembro-me, quando o Expresso deixou os consumidores testarem a sua edição electrónica, de ter gostado do PDF “inteligente”, daquela “insinuação” das páginas que passam no ecrã como se fossem de papel, e da qualidade final do que me aparecia no computador...
...Mas rapidamente conclui que um semanário, pelo tempo de leitura, pelo número de cadernos, pela sua “duração” nos dias que se seguem à publicação, e até pelo bom hábito do brunch de sábado junto ao rio com jornais aos pés, ou fora de Lisboa na Pousada, bom, um semanário tem mesmo de ir connosco. O telemóvel ainda não é suficiente para ler, o portátil cheira a trabalho, e é bom manusear o jornal e os seus suplementos ao fim de semana. Desisti.
Já o jornal diário é diferente. Dura um dia, tantas vezes apenas umas horas. Tem um lado utilitário que se compadece com o consumo pela Net. É uma antecâmara ou um flash do dia.
Ora, desta primeira abordagem do Público, confesso que me atraiu a ideia de ter menos papel em casa, a hipótese de ler tudo no ecrã (e imprimir apenas um ou outro artigo que porventura queira ler noutro momento, no sofá ou na cama). Mais: o privilégio de aceder ao arquivo sem ter de acumular jornais em casa é muito apelativo para um tipo como eu, que tem o terrível defeito de acumular papel à sua volta.
É verdade que não gostei nada de ver páginas do jornal impressas em tamanho A-4 naquele papel branco, horrível, que comprei à resma num qualquer hipermercado. Também é verdade que o cheiro do papel de jornal impresso é para mim delicioso e insubstituível, mas lá está: como o cheiro a pão fresco, às ameixas dos franceses e às batatas cozidas da Dona Olímpia, pode se calhar ter o seu tempo...
Vou insistir na experiência, porque me agradou a facilidade, a economia, e a rapidez. Gosto da ideia de ler o jornal enquanto bebo o chá matinal. Não sei se não serei o próximo a dar este salto do papel para a virtualidade paga. Vamos ver.
 
(Não, não estou a usar o Twingly para aumentar a minha audiência...)

13
Abr08

Partir, mas ficar

Ontem andei a passear na Praça de Londres, numa feira de antiguidades que regularmente nasce no jardim central. Para mim, o prazer de vaguear por aquelas bancas de objectos antigos - a que se decidiu renovar valor, sem que se perceba bem qual é o critério para a cotação... - é encontrar moedas dos escudos da minha infância, postais que me lembro vagamente de ver no quiosque de jornais da Praia das Maçãs no começo dos anos 70, colecções de caixas de fósforos parecidas com as do meu pai, cromos de colecções que eu fiz na escola preparatória Eugénio dos Santos, brinquedos de chapa pintada e madeira, paliteiros em louça da Água de Vidago...
Apetece-me comprar tudo o que me diz respeito. Felizmente, o bom senso encarrega-se de me travar com a mais óbvia das perguntas: “mas tu acabaste de mudar de casa e deitar toneladas de passado para o lixo, queres agora recomeçar tudo?”

Não quero, claro.

Mas não resisto a uma revista onde encontro o anúncio que determina a minha relação de infância com os aviões. A companhia de excelência era a “Pan Am”, o sonho era voar até Nova York, e um 747 era mesmo o “transatlântico do espaço”. Ou seja: o modelo do avião contava na publicidade tanto quanto o destino ou a companhia. Ainda se tiravam fotografias nas escadas de acesso aos aparelhos...
Não adianta pensar em como tudo mudou. Para mim, adianta apenas pensar nesta ideia meridiana: no tempo do anúncio, como hoje, partir era um belo verbo.
Partir daqui para fora. Partir a loiça. Partir. Tão bom sempre que se pode. Eu partia já – mas lá está: o que fazia a tudo o que fica, como este anuncio e esta revista?

12
Abr08

O século, o milénio

Das pessoas que neste instante estão a ler estas linhas, quantas terão a idade do século XX? Uma, duas, cinco? Não mais, estou certo disso. E que dizer das pessoas que agora elegem figuras do século, do milénio? Que idade terão? Que formação? Que distância e conhecimentos em relação à História? A resposta é sempre a mesma: ninguém sabe. Mas são poucas. Ou nenhuma.
O suplemento dominical do «New York Times» quis produzir uma «cápsula do século» para ser aberta no ano 3000. Independentemente do facto de ninguém saber se, daqui a mil anos, restará algo ou alguém desta civilização, a revista avançou para a ideia. Às tantas, esbarrou com um muro imprevisível: como conceber uma cápsula que durasse mais de 100 anos? Foi a primeira de todas as dúvidas. Reuniram-se especialistas, fizeram-se debates e mesas redondas. Entre outras conclusões curiosas, todos foram unânimes em preferir o «papel» aos «formatos digitais» – questões de segurança, vá lá. Mas o mais embaraçoso de tudo, lendo os especialistas, foi a incapacidade absoluta de prever sobre o que é e não é, é e será, é mas não será, relevante no futuro. Ainda que se fale de trivialidades, como garrafas de Coca-Cola ou o preservativos.

Perante a eternidade da «cápsula», os sábios estremeceram e deixaram ao cuidado dos leitores a escolha. Nós, por cá, não temos dúvidas: com a mesma ligeireza com que escrevo esta crónica, escolhem-se figuras para um século que não vivemos na íntegra, para um milénio sobre o qual não podemos ter dados adquiridos. Fazem-se listas como se se tratasse de um «top de vendas de discos». Atiram-se nomes para a praça como se estivéssemos num desfile de moda.

É impressionante a capacidade de decisão actual: os factos «que contam», os nomes «relevantes», as descobertas «decisivas», desfilam pelas revistas, pelos jornais, pelas televisões, pelos livros, com a negligência típica da maior das ignorâncias. Como se nós, pobres seres que vivemos o tempo que vivemos, tivéssemos a capacidade de nos distanciarmos e, dedo apontado, indicar com clareza e lucidez os nomes, as coisas, os factos. Não vivemos sequer um século mas falamos dele como se fossem favas contadas.

Eu sei que o mundo vive desses chamados «ícones» que os media criam e o povo cultiva. Também sei que é inevitável cair na tentação de «julgar» um tempo que termina. Mas gostaria, ainda assim, de ver alguma contenção na forma como se faz o balanço do tempo. O risco de esquecer quem não merece ser esquecido é enorme – mas pior é pensar na certeza de serem lembrados alguns dos que a História, no futuro, apagará.
 
Ao sábado, memórias. Texto editado a partir do original  publicado na “Visão” no final de 1999

11
Abr08

Deixar a pensar

Os jornais diários pagos farão sentido, na minha existência, enquanto conseguirem deixar-me a pensar. Diariamente. Ou enquanto me derem noticias que ainda não soube no período entre “o acordar” e “o sair à rua” (o que implica passagens pela rádio, TV e Net, ou seja, guerra perdida para os jornais em papel...). Cada vez é mais raro tal suceder...
... Pois ontem, no El Pais – jornal perfeito que, por isso mesmo, às vezes aborrece e nem sempre compro... -, encontrei duas ideias que me deixaram a pensar.
A primeira, a propósito das eleições italianas, estava numa entrevista a Oliviero Toscani, o fotógrafo e mega-criativo da Benetton, muito pessimista sobre o seu país, muito realista sobre o momento que vivemos. Ele fala sobre Itália (e a ligação à moda e ao vestir faz todo o sentido), mas eu ouso expandir a imagem ao mundinho português:
“Fomos vencidos pela vulgaridade. Morreremos elegantes, vestidos na última moda, porém vulgares, vazios e idiotizados por dentro”. Explica: “Não é possível refundar o país porque a decadência não é económica, é moral”.
A segunda, na sequência de uma reportagem sobre a linguagem dos adolescentes nestes tempos virtuais, numa análise de Vicente Verdú: ele fala da “anorexia da língua”, uma expressão riquíssima (até para o debate sobre o acordo ortográfico...). E refere-se a um outro patamar da linguagem, que compara à comida rápida: a de que, na tradição, o sabor ocupou o saber. Ou seja, utilitários, mas ignorantes.
Não vou entrar pelo debate que as ideias convocam, que dará bons posts em breve, deixo apenas esta questão sumária: num tempo em que a notícia, a informação, é imediata por todas as vias gratuitas (ou praticamente gratuitas), será sensato admitir que os jornais pagos só vão sobreviver se conseguirem deixar-nos a pensar. Numa ideia. Em duas. Num caminho. Numa alternativa. Quem ainda não estiver neste caminho, estará a perder.

Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

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