Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pedro Rolo Duarte

10
Abr08

Acordar, mas sem acordo

Não estou de acordo com o acordo porque não quero um dia acordar acordado.
Quero continuar com letras a mais, porque gosto de ter letras de sobra e não me faz qualquer confusão que os brasileiros, no seu clima tropical, queiram dizer palavras com pouca roupa, perdão, com poucas letras. Mas receio constipações e pneumonias nos factos e nas acções despidas daquele “c” – porque aqui “faz frio” no Inverno e raramente “está esfriando”. Deixemos ao Brasil o domínio do despir, e mantenhamos a roupa à mão deste lado do mar.
Gosto de ler “brasileiro”, gosto daquela riqueza imagética, gosto de ler a Mónica e perceber que o português dela anda em “sacanagem” descarada com o de lá. Um prazer ler a “Veja” e sentir aquela língua. Na maneira, no modo, e obviamente na ortografia que nos obriga a modular a leitura. Concordo absolutamente com o Pedro Mexia:
“Aquilo que francamente me desagrada é o critério fonético. Se isto é um acordo ortográfico, que apenas modifica a língua escrita, não me parece sensato que a ortografia siga sempre o critério do português falado. (...) A língua falada é a que utilizamos todos os dias, (...) Mas a língua, enquanto legado, vive nos textos, e acima de tudo na grande literatura. (...) É o português escrito que dá identidade à língua portuguesa. Alterar o modo como escrevemos a partir do modo como falamos é uma ideia muito discutível”.
A questão cultural diz-me pouco, porque muito mais me diz a riqueza que a diferença encerra do que o pobreza adivinhada pela uniformização. Lá está, roupa outra vez: uniforme, não. Ou em português de Lisboa, farda nem pensar.
Dito isto, a vida ensinou-me que depois dos 40 podem fazer tudo, que eu já faço pouco disso: continuo a pensar em contos e não em euros. Continuarei a escrever factos e a vestir fatos. Aliás, eu escrevo “ía”, do verbo ir, e parece que já não é assim.
Eu não acordo com o acordo – eu acordo com quem quero e gosto. Faço por isso – é um facto com “c”.

09
Abr08

O nome dela é Marta Hugon

História trivial: conheci a Marta Hugon no casamento do Elvis Veiguinha com a Patrícia – ou seja, tive um momento feliz num feliz e muito terno acontecimento. Fiquei fascinado pelo sorriso da Marta, pela sua sinceridade, franqueza, sei lá... Na verdade, fiquei envergonhado por não saber quem era a Marta Hugon nem ter ouvido o primeiro disco dela, “Tender Trap”, e dei comigo, alguns dias depois, na FNAC, a revolver a secção de jazz. Encontrei o CD e apaixonei-me pela voz da Marta, pela sua sensibilidade, gosto, escolha de reportório. Se eu cantasse, gostava de cantar aqueles temas – e se escolhesse um caminho musical, seria aquele, próximo do jazz mas piscando o olho a outras músicas, outros sons. Não é por acaso que o Elvis anda por perto, pois claro.
No sábado passado fui ao S. Luiz conhecer o novo disco da Marta, “Story Teller”. O Elvis avisou-me que era um degrau mais, ou talvez dois, era um passo em frente, à frente.

Eu nunca tinha visto a Marta ao vivo.
E derreti-me a ouvir a Marta, com o Filipe Melo, o Bernardo Moreira e o André Sousa Machado.

“Still Crazy After All this Years”? Ah, pois.
“Crash Into Me”? Completamente.
“Suburbano Coração”? Pois é verdade, caro Chico.

Sim. Isso e “River Man”, “Never Let me Go”, “Good Morning Heartache”, “The Trouble With Me Is You”...

A Marta Hugon canta cada vez melhor, mais delicadamente, ainda que firme, mais docemente, sem lamechices. A Marta Hugon tem um sorriso franco e aberto de quem não esconde cartas na manga. A Marta Hugon tem mais talento do que notoriedade – e isso também é infelizmente costume. Espero que mude.

O disco já saiu. Eu comprei-o no mesmíssimo sábado, mal saí do S. Luiz. Anda aqui comigo no I-pod.


http://www.martahugon.com/

08
Abr08

Sinais

Apenas duas ideias sobre a entrevista de Jardim Gonçalves ao Público.
Primeira: Jardim Gonçalves decide finalmente falar, e ao decidir que deve falar (“é momento em que sinto que devo aceitar dar uma entrevista (...) por considerar importante emitir a minha opinião pessoal e repor a verdade sobre determinados factos”), estabelece as suas regras para a entrevista, sem contraditório nem debate, unilateralmente. O jornal aceita, certamente com receio do impiedoso mercado: se não fosse o Público, outro jornal as caucionaria. Um sinal do jornalismo nos tempos que correm.
Segunda: O Público aceita ainda, e admite-o na própria entrevista, que Jardim Gonçalves responda livremente, garantindo que as suas respostas não sejam editadas, antes publicadas na íntegra. Ou seja, aceita sacrificar o essencial trabalho jornalístico (e obviamente o mais sério e honroso), a edição, deixando-o a cargo do próprio entrevistado. Outro sinal do jornalismo nos tempos que correm.
Não critico nem lamento. Mas ao ver, na primeira página, a palavra “aproveitamento”, fiquei a pensar.
Fiquei a pensar nos sinais que o jornalismo nos dá nos tempos que correm.

07
Abr08

Uma história mínima (com chocolates)

No café da Dona Luísa, o “Café do Pinto”, no Penedo, de onde saía a deslumbrante “Galinha Corada”, eu apreciava mais três coisas: os matraquilhos, dispostos cá fora, estrategicamente, sob uma videira de “uva morangueira”; o televisor a preto e branco que mantinha a comunidade concentrada na imagem (permitindo-nos a nós, miudagem, o descarado roubo de pastilhas “Pirata” de um frasco adormecido sobre o balcão); e o pequeno terreiro das traseiras, onde se jogava “chinquilho” (não sei se assim se escreve, mas era assim que os mais velhos diziam chamar-se o “jogo da malha”).
Lembro-me perfeitamente do dia em que o Sr. Abílio, marido da Dona Luísa, me exibiu (lisboeta no Penedo, à época, era mais ou menos como artista dos “Morangos” nos dias de hoje...), a novidade daquele Verão (salvo erro) de 1972: um painel cheio de círculos pintados e um lápis agarrado a uma corda. Por um escudo, ou dois, perfurávamos um círculo daquele painel. Ao fazê-lo, libertávamos uma espécie de berlinde colorido. Consoante a sua cor, assim “ganhávamos” um chocolate desta ou daquela qualidade, ou se acaso nos “calhasse” uma das bolas raras, a preta e a branca, seríamos bafejados pela sorte de uma bola de futebol ou de um canivete. Um jogo divertidíssimo para todas as crianças da aldeia, a sensação daquele ano. Foi uma animação quando chegou ao Penedo...
... Trinta e tal anos depois, leio no “Público” que o “novo alvo da ASAE” são as “máquinas de chocolates”, sucedâneos desta minha velha diversão, com o superior argumento de que o cliente tem de perceber “a que teria direito antes de introduzir as moedas”...
À escala mínima das histórias que conto, eu era mais livre naquele tempo. O mundo parecia demasiado grande para a minha escassa dimensão – mas hoje, sendo bem mais diminuto, parece ridiculamente menos livre. Não me agrada o paradoxo, justamente pelo absurdo que encerra. Hoje é o jogo da sorte/azar no chocolate, o que será amanhã?

06
Abr08

Brázio

Na quinta-feira passada, jantava com um grupo de amigos num restaurante do Bairro Alto e repentinamente vejo pela janela, a passar na rua, o meu amigo Augusto Brázio.
Ele também me viu, parou, entrou no restaurante e démos um longo abraço. Achei natural, não nos víamos há algum tempo. Se eu fosse menos negligente no olhar, no entanto, teria de imediato estranhado a camisa branca imaculada do Augusto e o olhar transbordante que ele exibia.
... Só reparei depois, quando ele disse, com uma alegria imensa, que tinha acabado de ganhar o prémio Visão-Bes, o mais relevante prémio de fotografia português, nem por acaso associado ao prestigiado World Press Photo.
Por razões longas de explicar, sinto uma felicidade especial com este prémio. O Augusto merece-o indiscutivelmente. A vaga sensação de que há uma velha equipa que continua, individualmente, a marcar pontos, tem um sabor mais doce.

Que bom, Augusto.

05
Abr08

Sobre a humildade

Vi há dias um exemplar do Diário de Notícias datado de 1867. Papel impresso há 132 anos, num sábado, 16 de Novembro, ía o jornal no terceiro ano. Quatro páginas em formato grande, infelizmente grande de mais para os dias de hoje. A «imagem gráfica» dos jornais dessa época é conhecida: não há títulos nas notícias, nem fotografias, as ilustrações estão reservadas à publicidade e as sete colunas de cada página do jornal estão recheadas de informação, em letra miúda, separadas por «traços» a que nos jornais chamamos «filetes». Leio uma notícia. Diz assim:
«Consta-nos que chegou a Lisboa notícia de ter havido tumultos populares numa cidade de Inglaterra, cremos que em Londres, contra o governo inglês, tendo os tumultuários lançado fogo a algumas casas. Por ora não garantimos».
Noutra página:
«Notícias telegráficas dizem que houve grande borrasca no Adriático. Não temos pormenores».

Estou a transcrever notícias na íntegra. Mais esta:

«Sabe-se oficialmente que a Rússia e a Inglaterra estão de acordo na questão romana. Qual seja esse acordo é o que se ignora».

Como diria um amigo, «chamem-me romântico, mas é disto que eu gosto». Não há maior clareza na informação, ou na falta dela. Não há maior rigor, nem maior sentido jornalístico.
Não há nada a acrescentar.

Hoje, qualquer destas notícias poderia ter o mesmo volume de informação – mas ocuparia muito mais espaço e escaparia certamente à humilde declaração do «por ora não garantimos». Hoje, estas «notícias» tinham títulos, entradas, infografias, detalhes sobre os países e «caixas» explicando o que é uma «borrasca», comentários mais ou menos avisados, «desculpas» sobre a ausência de confirmações ou promessas de informação nos dias seguintes. Os «acessórios» tomaram conta da informação escrita e tornaram o telegrama num conto e a notícia num romance. Transformaram-se em «essenciais». Quanto muito, é à rádio – seguida, muitas vezes, pela televisão, à medida que a capacidade de resposta desta aumentou – que cabe o papel de amplificar o telegrama «de uma nota só», com a vantagem de poder acrescentar «notas» de meia em meia hora, quase de minuto a minuto. Para os jornais «resta» - e não levem a mal o «resta», porque dá muito trabalho a quem o faz... – procurar explicar, enquadrar, ir mais longe, analisar, opinar. Aos jornais resta o lugar do «historiador diário», nome que um dia há de ser dado ao jornalista.
Não vivi o tempo em que os jornais se faziam de colunas seguidas de informações avulsas, «Pelo vapor Amazon, chegado ontem de Londres, vieram mais 24 caixas com armamento, 78 com cartuxame e 4 com espoletas», «ontem pela manhã o mar virou um saveiro que estava encalhado em Paço d’Arcos», assim, em sequência, sem escala hierárquica nem «manchete». Mas confesso que, ao ler esta edição do Diário de Notícias de 1867, me apeteceu voltar ao eterno tema da humildade no jornalismo. Porque, para lá das evoluções da tecnologia que fizeram da imprensa algo mais do que uma soma de telegramas, para lá dos cento e tal anos que passaram, há algo nestas páginas de jornal que devolve o jornalista ao seu lugar, com ou sem internet, com ou sem computador, com ou sem curso superior: o de humilde relator de ocorrências. Capaz de escrever «e mais não sei sobre este assunto». Capaz de evitar a presunção de uma sabedoria que a própria rapidez de circulação da informação põe em causa a cada momento.
Por mais ingénuo e amador que fosse, o jornalismo de há 130 anos tinha sobre o de hoje a grandeza da humildade. Não voltaremos a ser como éramos. Mas, às vezes, devíamos reler o que se publicava então. Se outra virtude não tivesse, obrigava-nos, pelo menos, a pensar que, daqui a 130 anos, talvez alguém nos vá ler e deseje sinceramente acreditar no que escrevemos. Acreditará?

 
Ao sábado, reedições. Texto publicado no Diário de Noticias em 1998. Há dez anos.

04
Abr08

Obediência civil

“Na saúde, poderá sofrer de pequenas indisposições de estômago – tenha cuidado com a alimentação. Não descure o repouso, e procure evitar o stress. Emocionalmente, esteja atento às pessoas que o rodeiam. Profissionalmente, semana calma”.


... Perante este quadro, que leio numa publicação respeitada, julgo de elementar acerto deitar-me cedo. E anoto num post-it mental: tenho de ler o horóscopo mais vezes. Não dará resultado, mas muitas vezes pode dar descanso.

03
Abr08

Produções Fictícias (mas muito reais...)

Vinha a caminho de casa, na madrugada de terça-feira, e escrevi, dentro de um táxi, nas costas de um cheque: “não esquecer, P.F. para o blog”.
Ontem à tarde, ao arrumar o casaco que tinha atirado, “à cinema”, para o sofá, tirei um papel. O cheque. Lembrei-me imediatamente do que tinha a fazer.
É claro que a indignação, a revolta e a crítica são, claramente, muito mais estimulantes, por isso raramente tenho de tomar notas para me lembrar de tais estados de alma. Neste caso, era para escrever e não esquecer.
Porque não queria mesmo deixar de dizer que fiquei muito feliz por poder assistir ao 15º aniversário das Produções Fictícias. Conheci a pré-história daquela “organização”, e nunca esquecerei a vontade férrea e a determinação do Nuno Artur Silva numa altura em que a ideia de um colectivo de autores de ficção e humor para televisão parecia, no mínimo, absurda. O Nuno sabia rigorosamente o que queria, e como queria.
Várias vezes, ao longo deste tempo, o vi desanimado com o mercado, com a dificuldade em manter regularidade na produção, com as constantes mudanças de rumo do audiovisual português – mas nunca lhe percebi desistência.
Merece absolutamente o sucesso que tem, a equipa que acarinha esse sucesso (e que ele gere com mestria), e os aplausos do público. Aos que vêem nele o monopolista do humor nacional, apetece exibir a lista de sócios, agenciados, colaboradores das Produções Fictícias. Por ali se percebe o que significa a palavra liberdade criativa, talento e gestão.
Palavras difíceis de conciliar – mas ali, naquele rés-do-chão da Travessa da Fábrica dos Pentes, diariamente trabalhadas. E isso vale tanto...

 

PS - Depois de ter encontrado a Sofia Grilo e a Carla Salgueiro na festa das P.F., fiquei com saudades do projecto “Manobras de Diversão”, que foi um marco da renovação do humor em palco e ao vivo, e que faz falta. Pareceu-me ver no sorriso da Carla Salgueiro uma vontadezinha qualquer de voltar àquele registo. E gostei disso...

02
Abr08

Cada um com a sua cruz. Cada um com a sua ASAE

A Entidade Reguladora da Comunicação continua a dar tiros nos dois pés, e ninguém a põe com dono. Agora, num relatório (que obviamente será aproveitado até à exaustão pelos partidos da oposição), sublinha o desequilíbrio entre PS/Governo e PSD nos espaços informativos da RTP – mas esquece-se de dizer que a análise se refere ao período da Presidência Portuguesa da União Europeia, onde obviamente o Governo e os seus ministros estavam duplamente expostos em matéria noticiosa.
Se a ERC quisesse ser séria, escolhia um período de normalidade informativa para estudar a RTP. Se quisesse ser muito séria, faria incidir o seu estudo também nos noticiários da SIC e TVI, para perceber até que ponto a RTP foi parcial ou seguiu critérios editoriais semelhantes aos que seguem canais que não dependem do Estado (parece que o fez, mas o facto de adiar a divulgação das suas conclusões para daqui a um mês deixa a dúvida sobre a própria intencionalidade da ERC neste desfasamento). Se quisesse ser extraordinariamente séria, tentava perceber o que são critérios editoriais.
Um Telejornal não é um tempo de antena – e o equilíbrio que se pede a uma estação de serviço público não pode ser confundido com jornalismo burocrático cronometrado. É preciso nunca ter estado próximo de uma redacção para admitir que a informação se faz com critérios mensuráveis em minutos, ou centímetros. O que me incomoda em entidades tipo ERC – lá está, uma espécie de ASAE da comunicação social... – é o abismo que as separa da realidade, a ausência total de conhecimentos sobre a actividade que regulam, e uma miopia corrigida apenas por um conjunto de leis, como se não houvesse mais mundo para lá da legislação.
Confesso que nunca cuidei de observar os noticiários da RTP à luz desse princípio do controlo governamental. Nem isso, nem o contrário. Mas nem por isso me deixa de irritar esta atitude sobranceira e arrogante da ERC, que gasta o dinheiro do Estado em cronómetros e quadros comparativos, quando ele faria tanta falta para poder fazer mais e melhor televisão...
 
PS – Aliás, e já agora: a ser verdade tal desequilibro entre Governo e PSD, talvez valha a pena equacionar a hipótese da RTP estar, afinal, ao serviço da oposição. É que, no momento actual, quanto mais Menezes puserem no ar, pior será...

01
Abr08

O Padrinho

Assim falou ontem, na Antena 1, o meu amigo e compadre João Gobern, a propósito do facto de ter tomado conhecimento da minha mudança de casa através deste blog:
“Confesso que me deu que pensar, aquela espécie de edital, anunciando ao mundo, pelo menos ao universo que por ali faz escala ou que ali passa ocasionalmente, algo que, no meu pensar, é quase um acto íntimo. Bem sei que, despersonalizando e divulgando esse momento de ruptura que envolve outra vez móveis desmontados, caixotes atafulhados de objectos úteis e memórias inevitáveis, esse desejado ponto de recomeço que se pretende ser também uma lavagem de alma, o meu amigo estava a justificar-se por antecipação, a pedir tréguas para eventuais deslizes profissionais e para putativas desatenções pessoais. Mas, lá estão as minhas limitações conservadoras, fiquei a invejar a naturalidade com que ele escancarava as portas, não da casa nova em que procura uma nova etapa, mas da casa da sua própria vida
Claro está que, depois, vieram ao de cimo todas as decorrências: acabei a pensar no incómodo das minhas próprias mudanças que nunca consegui evitar que fossem rupturas, mesmo quando desejadas, como foi o caso da mais recente, que secretamente continuo a desejar que tenha sido a última. Revivi as angústias daqueles julgamentos tão soberanos como momentâneos sobre o que é essencial e devemos carregar connosco e aquilo que, fazendo parte de um ciclo que se fecha, pode e deve ser deixado para trás. Se há uma dimensão fácil e óbvia – a dos livros, dos CDs e DVDs, de um ou dois móveis de estimação –, a mais morosa é sempre a dos papeis, das notas, dos cadernos tão utilitários que esgotaram o seu tempo de vida e só poderão vir a ter prontidão como memória futura. A suprema ironia está em que, com a dinâmica seguinte, até aquilo de que optamos por não nos separar corre o risco de passar anos em repouso de caixote, à espera de um alvoroço qualquer que implique a respectiva ressurreição. Impressiona o peso e a dimensão daquilo que carregamos connosco e que parece constituir um salvo-conduto para fintar o esquecimento. Mas talvez seja a única forma de nos preservarmos com integridade e sem buracos negros.
Quanto ao meu amigo e ao uso das novas capacidades tecnológicas para difundir notícia, também percebi que não podia ser intransigente – se eu próprio, tido como romântico, nostálgico e conservador, fintei há uns anos a distância e a circunstância adversa, pedindo namoro por SMS, por que diabo não havia ele de usar o blog para alertar de uma simples mudança de casa? Deve ser isto o tal pragmatismo de que tantos falam tantas vezes – não convence, mas resulta”.

Ponto primeiro: a designação “compadre”, já por si pede respeito. O facto do meu filho, seu afilhado, ter por ele uma especial e particular admiração – que vem do tempo em que o João, enquanto devorava pizzas, chamava “bulldozer” a um jogador do Benfica de apelido Aguiar, e dizia um ou outro palavrão, no decorrer dos jogos, que punha o António Maria em êxtase... -, acentua tal propósito. Não falando dos presentes mais vistosos de todos, sempre os do padrinho João...

Ponto segundo: Eu e o João temos décadas de experiência nesta relação sincera, duvidosa (e por isso romântica, e por isso para sempre, sem a mais sombra de duvida): à vez, fazemos de irmão mais velho um do outro; o que significa que também fazemos, à vez, de irmão mais novo.

Ponto terceiro: independentemente do que ficou escrito, o João tem sobre mim este mérito (cujo recíproco não sei se existe, mas no mínimo espero que sim...): deixa-me a pensar quando questiona o que faço, o que penso, o que digo. O melhor da nossa idade é isso: deixarmos de ter certezas e começarmos a deixar pergunta no ar. E ouvirmos as perguntas dos outros.
...
Talvez por isso, fiquei a pensar no que escreveu. Tentado a dar o braço a torcer. Bom.... Na verdade, sem resposta pronta... - mas também, sem contestação. Deixemos o tema a marinar, como as carnes mais difíceis de cozinhar. Ah, é verdade: a falar de gastronomia, também nos entendemos maravilhosamente...
(E com o melhor de tudo na mão: uma amizade com mais de 20 anos que permanece intacta, uma rocha impossível de destruir. Um bocado de mim lá a Norte, que tem um bocado igual aqui comigo. Não tem preço. Tem-nos a nós, João).

Pág. 3/3

Blog da semana

Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

Uma boa frase

Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D