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Pedro Rolo Duarte

28
Jun08

E se elas não quiserem?

Ao fim-de-semana, reedições. Nos dias do Congresso Feminista, recupero uma crónica que publiquei na revista Visão em Janeiro de 1999. O tema era outro – ou é sempre o mesmo? Vejamos:

 

Pergunto se já alguém colocou a questão mais básica de todas: e se as mulheres não tiverem o mais pequeno interesse pela política? Ou, de outra forma: e se, para as mulheres, o poder não passar pela política pura, mas por outras áreas, outros interesses?

Estas perguntas não me saem da cabeça desde que começou a discussão sobre a presumível obrigatoriedade de ter uma percentagem razoável de mulheres no Parlamento e, em geral, nos lugares de decisão política. Vi na televisão um pequeno debate entre Maria José Nogueira Pinto e Edite Estrela – duas excelentes políticas com gosto pela actividade – e estranhei que não houvesse referência a esta possibilidade.

Transfiro a questão para a profissão que desenvolvo, o jornalismo. Há 50 anos, não havia mulheres jornalistas. Há 30 anos, começaram a aparecer (oficialmente) as «pioneiras», lutadoras contra a corrente, «armadilhando» anúncios para conseguirem os seus lugares, dando nomes masculinos e obrigando os contratadores a confrontarem-se com candidatos que... eram mulheres. Falo com conhecimento de causa: apesar de haver «marcos» que nunca foram postos em causa, a verdade é que a minha mãe foi a primeira mulher, há 40 anos, a praticar jornalismo numa publicação desportiva (escrevia sobre hóquei no «Mundo Desportivo»).

Quando comecei, há 16 anos, havia já muitas jornalistas, mas alimentava-se ainda a ideia de que era uma profissão para homens. Grau de risco, necessidade de uma flexibilidade horária incompatível, por exemplo, com a maternidade e a educação dos filhos, e algum machismo típico de um país (ainda mais) subdesenvolvido, ajudavam a explicar este «princípio». Às mulheres estava reservado o «cantinho feminino» dos jornais, as secções de cultura e espectáculos, e as produções consideradas menores (roteiros, guias, suplementos juvenis, etc.). Num caso ou noutro, havia trincheiras abertas na política, na sociedade, em cargos de chefia (Lourdes Feio e Edite Soeiro, hoje ambas na Visão, fazem parte dessas excepções). Nunca houve leis que obrigassem a imprensa a «gerir» percentagens masculinas e femininas.

Com o tempo, e naturalmente, por gosto e vontade, por dedicação e com talento, as mulheres começaram a encher as redacções dos jornais, das rádio, das televisões. Sem leis. Esta profissão tornou-se atraente para todos, por igual, e ninguém foi discriminado. Pelo contrário: na esmagadora maioria dos casos, foi reconhecida às mulheres uma sensibilidade e um rigor muito próprios, uma dedicação que a maternidade nunca abalou, e uma forma de escrita e de abordagem dos temas que era, senão inovadora, pelo menos alternativa. Nomes que vão de Clara Pinto Correia a Maria João Avillez, de Clara Ferreira Alves a Maria Elisa, para citar só alguns, tornaram-se sinónimos de qualidade, rigor, criatividade.

Hoje, mesmo que a estatística possa afirmar o contrário (não considera estagiários, contratados sem carteira, etc.), as mulheres constituem, senão a maioria, seguramente 50% das redacções. São directoras, chefes, repórteres, cronistas, jornalistas. Cobrem guerras, conflitos laborais, política, tudo. Não precisaram de «conquistar» terreno – bastou-lhes querer.

O exemplo do jornalismo pode aplicar-se à política. Ambas as actividades podem constituir poder. Ambas tiveram fama de «pertencer» ao universo masculino. Uma, libertou-se dessa imagem com naturalidade, sem leis nem percentagens. A outra, vive enrolada num preconceito descabido que parece querer reavivar uma fictícia «luta de classes».

Se calhar, e volto ao começo, a questão é mais simples do que a polémica quer fazer crer. Se calhar, elas não querem. Se calhar, elas preferem outros poderes – nas empresas, no jornalismo, na gestão, no comércio. Se calhar, elas têm razão.

27
Jun08

Inutilidades

 

O que me espanta é que ainda se debata o Código do Trabalho. Pergunto: nos últimos 30 anos, a ideia de se alterar a lei laboral não foi sempre no sentido de retirar direitos a quem trabalha e procurar “salvar a economia nacional” (isto é, injectar oxigénio no chamado “tecido empresarial”, em geral pobre e medíocre, para que não sucumba à competência internacional...)? Alguma vez se deixou de falar em crise, mesmo quando não havia crise? Alguma vez se pretendeu outra coisa que não a dignificação do estatuto do gestor por conta do desprezo pelo estatuto do trabalhador? Há memória (depois de 1976...) de uma reforma na legislação laboral que atribuísse mais direitos a quem trabalha, melhores condições de acesso ao trabalho, mais garantias em tempo de crise ou de expansão?

Cada vez que se sentam à mesa das negociações, o que está em causa é sempre o mesmo: como liberalizar e flexibilizar mais o mercado (querem os patrões, e sabem que vão conseguir), como tentar o equilíbrio do impossível (quer o Governo, o PC fere-lhe sempre o desígnio), como perder o mínimo possível sendo certo que se perde sempre mais do que se ganha (é o máximo que podem querer os representantes do mundo do trabalho).

Isto não muda. Persistir em confiar no consenso, na concertação e no equilíbrio social é mais ou menos como acreditar no Pai Natal: basta crescer para perceber que não existe.

24
Jun08

O saber do pão, o sabor do pão (II)

No post original fala-se de pão da Vidigueira, de Torrão, Pernes, Beja, Martim Longo, Maradona notava ainda o "Pão Alentejano" da Casa Xandite da Costa da Caparica. A esses acrescentei o da padaria da Zambujeira-do-Mar, o de um café a meio da Pascoal de Melo (Lisboa), das “Casinhas do Pão”, da padaria Madrilena, na Av. de Madrid, do pão da Encarnação de Mafra, das Pereiras de Monchique, de Azeitão, de Sesimbra. Mas os comentários dos leitores acrescentaram à lista uma nova lista: pão de Casebres, pão na curva de Almoçageme (que me faz lembrar o pão do Penedo, no seu tempo, e o pão quente a meio da noite na padaria do Mucifal, depois de ouvir os UHF ou o Marco Paulo nas festas da aldeia...), o pão da Lagoinha (Palmela, já provei e é excelente), a sêmea do Porto “vendida ao quilo”, as chapatas de Serpa, o pão da Azinhal (aldeia algarvia entre Mértola e Vila real de Santo António), o pão de Janas.

Lembrei-me também do “pão da casa” do Auchan das Amoreiras, do pão de Alcoutim (comido no Vascão a ver o Guadiana pela manhã), de São Miguel (transformado pela Luz em sanduíches no Carvalhal), da Comporta (só numa mercearia, cujo nome agora me escapa).

Depois ocorreu-me um livro, salvo erro, do Bret Easton Ellis, não sei mesmo se não foi no “Menos que Zero”, em que um tipo batia no fundo do poço, caía na vertigem final da vida urbana, e numa certa madrugada passava junto a uma padaria, sentia o cheiro do pão acabado de fazer, pedia um bocado ao padeiro, e sentia que a língua lhe picava com aquele sabor puro e básico. E ele repetia, sem parar: “vou ter de recomeçar tudo, vou ter de recomeçar a vida como se não tivesse existido nada até agora”. Estou a imaginar ou li isto mesmo?

Juro que não sei mas sei que li isto num livro e nunca mais me esqueci.

O pão é o começo e o fim, e pela primeira vez senti uma comoção qualquer, que não sei explicar, com a sequência de comentários e os acrescentos que chegavam. Estava a ler a entrevista que Ferran Adriá deu a Ricardo Dias Felner (“Pública” do último domingo) e pareceu-me que tudo fazia sentido em simultâneo:

“- Gosta que a sua cozinha seja reconhecida como uma arte e como uma ciência?

- Não, a cozinha é cozinha. Isto é algo muito bonito: a cozinha é cozinha”.

Como o pão. O pão é o pão. Nenhum igual a outro. Todos “pão”.

23
Jun08

Dra. Manuela Ferreira Leite: já ouvimos.

Manuela Ferreira Leite está sempre a corrigir alguém, mesmo quando fala sozinha; está sempre a dar uma reprimenda a um jornalista atrevido, mesmo quando nenhum jornalista está por perto; responde permanentemente a uma imagem que ninguém lhe atribuiu; e o seu olhar denuncia uma única ideia, “não pensem que eu vou sorrir, ouviram? Isto é muito sério e é um enorme sacrifício, e só o faço porque sou a única militante realmente séria que resta neste caldeirão de malandros”.

Manuela Ferreira Leite chega à liderança do PSD de mão dada com a chatice e a maçada, zangada com o mundo mediático que a acolhe e no qual vai ter de viver (contrariada, é bom de ver), e focada num discurso onde a cada passo parece chamar a todos nós, cidadãos espectadores da politica nacional, “cambada de mentecaptos eternamente manipulada pela politica espectáculo e seus actores de serviço”. A cambada deve habituar-se à ideia de que chegou finalmente uma pessoa séria, que não brinca em serviço, não cede ao mediatismo, nem faz fretes às câmaras de televisão e às peixeiras que querem beijinhos e baldes de plástico. Nada disso. Ouviram?

Dra. Manuela Ferreira Leite: já ouvimos. Pronto.
Agora faça oposição ao Governo que está. E deixe lá isso.

21
Jun08

O saber do pão, o sabor do pão

 

“Basta referir-me ao pão. Vidigueira? Torrão? Bons pães, não duvido; mas como milhares de outros. Depois do peixe e do Diogo Rosado, a maior riqueza de Portugal é o pão. Custa-me que a magnificência da panificação portuguesa seja tão pouco laureada. O pão de Pernes, conhecem? Não faz mal, é tão bom como o de Martim Longo ou de Beja ou, ou, ou, ou. Os portugueses parecem-me tão competentes a fazer pão que até o "Pão Alentejano" da Casa Xandite da Costa da Caparica consegue ser estupendamente aceitável. Sempre me fez espécie” – encontro isto no blog de Maradona e risco mais uma linha da Filofax na secção “temas para posts”. Era o pão, claro. Era o regresso do pão a Lisboa.

Não sei se deram conta, mas o pão – o preferido de todos os alimentos que amo – sofreu o seu bocado nos anos 80 e 90, com as máquinas industriais nas padarias, a degradação da “carcaça”, e o inacabado debate sobre o “que faz mal” e o “que faz bem”. Parecia “bem” não comer pão – no que terá sido a mais estapafúrdia regra não escrita da sociedadezinha lisboeta. Lembrava-me sempre do meu pai a virar o bico dos olhos dos empregados dos restaurantes chineses, perguntando alegremente: “e pãozinho, não se arranja?”.

Por fim mudou o século, e com a mudança (coincidência, certamente), além das “Casinhas do Pão”, que já havia antes, e de uma padaria ali na Pascoal de Melo, cujo nome não me ocorre agora, e da Madrilena na Av. de Madrid - dizia eu, além desses oásis, os outros comerciantes perceberam que os lisboetas gostavam de voltar a ter pão como deve ser. Da Encarnação de Mafra. Das Pereiras de Monchique. De Azeitão. De Sesimbra. De longe. Ou de perto. Mas bom. Aos poucos, os supermercados começaram a abrir espaço para o pão “importado” de fora de Lisboa – e a coisa democratizou-se rapidamente, até mesmo nas padarias clássicas, que em muitos casos se converteram à diversidade. Não é só no Corte Inglês que há pão português outra vez, é no Pingo Doce, e no Continente, e no Modelo, e em quase todo o lado. Alguns restaurantes mais inteligentes também já tratam o pão com a delicadeza e a atenção que dedicam à fruta, separando o trigo do joio. Literalmente.

Na verdade, eu ainda continuo a duvidar das entregas e dos stocks (quando fui a Beja, há poucas semanas, não voltei para Lisboa sem antes comprar dois pães de quilo que me pareceram, e eram, legítimos...). Pareço o maluquinho do pão, sempre em excesso, sempre a transbordar, e sempre a dizer: “tenho de comprar pão...”.

Mas o pior não é isso. O pior é que nunca mais encontrei pão tão bom como aquele que me alimentou parte da vida durante quase 20 anos, directamente da única padaria da Zambujeira do Mar. Pão que cheguei a ter de reservar, porque “no Inverno acaba, que somos poucos”, e “no Verão acaba, que somos muitos”. Palavra da padeira. À porta daquela casa rasteira onde só a enorme chaminé antecipa o melhor, está quase sempre um carro de mão com lenha. E aquela imagem da porta castanha e do carro com a lenha parece que derrete manteiga...

Quem conhece a terra sabe do que falo – mas saberá também que os próprios locais compram pão das Pereiras e de outras localidades. Não é unânime a qualidade do pão da Zambujeira. Mas para mim é. O pão. O pão. O pão. Com manteiga. Sanduíche. Para açorda. Para torradas. Ao acordar. Antes de dormir. A qualquer hora.

O Maradona lixou-me o post e a noite. Umas fatias de pão de Mafra, está bem, mas não é a mesma coisa. Até o queijo perde sabor. É do que sinto mais falta quando penso na falta que me faz aquele bocado do meu passado.

18
Jun08

A ASAE, capitulo 1458

Há uns anos, e depois do clássico domingo anual em que me esqueci (obrigado pela correcção) de que já é Junho, o Benfica joga às 19:45, e estão 32 graus, e fiquei duas horas entalado numa fila para sair de uma praia, aprovei por unanimidade uma nova lei: entre o dia 9 de Junho e o dia 30 de Agosto, praias do lado esquerdo da Costa da Caparica, nem pensar, qualquer que seja o dia da semana. Não se arrisca, ponto. Contei isto numa crónica de jornal e recebi uma simpática carta de um leitor que me dava instruções rigorosas sobre como chegar e sair sem mácula de algumas praias da Costa. As do lado direito, isto é, as de S. João. Não eram apenas as praias que me estava a revelar o leitor – eu sabia que existiam, nunca me tinha dado ao trabalho de as conhecer -, mas especialmente o percurso alternativo de regresso a Lisboa.

Desde aí, a minha qualidade de vida no Verão aumentou brutalmente. Dou-me ao luxo de “dar um saltinho” à praia a meio da tarde, vou e volto quando quero, e nunca mais sofri o horror do “regresso da Costa”.

Entre outras mordomias e prazeres – bares excelentes, bom ambiente, areia limpa – aquele conjunto distingue-se por ter um acesso dificultado. Ou se paga o estacionamento, dado o terreno de acesso às praias ser privado, ou então é preciso caminhar a pé um bom bocado até chegar ao areal. Isso também ajuda a manter alguma contenção na ocupação do espaço vital.

Portanto, assunto arrumado: no Verão, quando me falta a paciência para voos mais longos até Alfarim ou mesmo a Comporta, as praias de S. João constituem o meu poiso habitual. Este ano, quando o sol finalmente deu sinal de vida, lá fui – mas notei que algo havia mudado. No parque de estacionamento, em vez de um preço fixo, pago à entrada, encontrei o esquema da senha que se tira e da tarifa ao minuto. Estranhei, primeiro. Depois sofri: na hora de sair da praia, estive 20 minutos para pagar numa fila em tudo igual àquelas que me levaram a abandonar as praias do lado esquerdo da Costa. Pensei: estes tipos conseguiram o supremo crime de destruir uma das maiores vantagem que tinham – justamente o acesso friendly e rápido. Estendi teorias sobre a capacidade dos portugueses de darem tiros nos pés, comentei em todo o lado o absurdo, admiti que a mudança tinha um fito evidentemente financeiro. Ganhar mais, só podia.

Venho agora a saber, depois de muitos fins de dia de martírio para os frequentadores daquelas praias, em filas intermináveis para pagar valores irrisórios, que a mudança no sistema de cobrança do parque das praias de S. João se deve a uma visitinha... da ASAE!

Assim, para cumprir a lei e justamente pagar 2,90 euros ao invés de 3 euros, ou 3,25 euros, em vez dos injustíssimos 3 euros, o veraneante aguenta estoicamente e sem reclamar uns 20 ou 30 minutos na fila. E assim se explica porque raio nós - eu, e outros eu’s que conheço -, deixámos de ver em S. João a boa alternativa de Verão em Lisboa. Mais uma vez obrigado, sr. Nunes.

17
Jun08

Outro coelho na cartola

Eu bem dizia aqui que não havia de ser a última... A produção do programa “Prós e Contras” precisa urgentemente de ajuda para substituir o tal Carlos Coelho quando quer alguém que fale de marcas e de imagem... Além de chamar “coisas” a sentimentos, ideias, factos, casos, acontecimentos, enfim, chamar “coisas” a tudo,  é o campeão da frase-feita, do lugar-comum, do conceito fast-food aplicado às ideias: um exemplo, areia para os olhos, uma conclusão definitiva. Desta vez, porém, a inteligência dos restantes convidados reduziu Carlos Coelho à sua insignificância e revelou o bluff que constitui. Foi triste – mas lá está, alguém tinha de o fazer algum dia. Espero que a Fátima Campos Ferreira tenha percebido.

No entanto, a noite da RTP-1 não foi perdida. Este Prós e Contras (tema: “Futebol: alienação ou coesão nacional”), revelou-me o mais estimulante comentador televisivo desde Pacheco Pereira. Dizem-me que aparece regularmente na RTP-N (o canal de cabo que junta informação e modernidade nos tempos que correm), mas foi esta noite que o vi pela primeira vez. O nome dele é Carlos Abreu Amorim. Um bom pensador que sabe passar a mensagem. Raro.

A televisão é um meio que nem sempre se domina, por mais genial que se seja – as câmaras não querem saber da alma, e a luz ignora o contraste. A televisão é cruel para com as ideias. Não basta ser bom, saber o que se quer dizer, ser afirmativo. Em televisão, a imagem conta mais do que o conteúdo, qualquer que ele seja - e só mesmo a boa imagem, ou a empatia, vencem todas as lentes e antenas. Fazer o pleno da imagem, da empatia e das ideias é, assim, uma espécie de lotaria.

Carlos Abreu Amorim ganhou a taluda. Tem esse dom. É organizado no discurso, claro e perceptível, e tem uma imagem que inspira confiança. A sua convicção nunca transpira agressividade – mas nem por isso deixa de ser assertiva e sólida. Consegue um raro equilíbrio entre todos os factores que constroem um comunicador por excelência. Entre profissionais diz-se deste tipo de pessoas que “passam bem”. Carlos Abreu Amorim “passa” mesmo muito bem. Se eu mandasse numa das quatro televisões generalistas, roubava-o à RTP-N e contratava-o já. O futuro do debate politico passa por ele. 

16
Jun08

A besta bestial

 

O futebol encerra em si tantas verdades sobre a raça que nem me atrevo a enumerá-las todas. Noto hoje algumas...

A besta Scolari tornou-se o bestial Scolari somando seis pontos na fase de grupos do Euro 2008. O bestial Scolari, inteligente, poupou os melhores (eram oito, pelo menos...), para não ser chamado de besta se porventura houvesse lesões ou momentos infelizes num jogo irrelevante para o Campeonato, como foi este com a Suíça. Ainda assim, o bestial Scolari tornou-se besta por ter perdido por 2-0. O que se segue?

Segue-se que:

1. Se Portugal ganhar no próximo jogo, a besta Scolari volta a ser o bestial Scolari.

2. Se Portugal perder no próximo jogo, mesmo que seja com uma equipa melhor e mais forte, confirma-se a besta.

Diferença com, por exemplo, os ingleses: observando com rigor e frieza o genial trabalho que Scolari desenvolveu com a Selecção Portuguesa de Futebol, o Chelsea nem sequer pestanejou ao contratar o brasileiro, mesmo antes de saber a que ponto do Europeu chegava Portugal. Não esperou por ver o bestial transformado em besta, ou vice-versa, ou o que por aí pode vir.

Nada disso. O Chelsea percebeu que Luís Felipe Scolari é, em qualquer parte do mundo, um grande treinador. E isso chega.

Em Portugal, isso não interessa nada. Porque todos somos melhores treinadores e seleccionadores do que ele. Do que ele ou do que outro qualquer que venha a seguir. Vão ver.

15
Jun08

O bichinho da rádio

Quem já teve oportunidade de fazer rádio sabe bem do que falo: o bicho estranho que se entranha em nós, uma espécie de caso amoroso eternamente mal resolvido, um vírus que anda cá dentro, uns dias adormecido, aparentemente extinto, outros dias desperto como se fosse novo no corpo. O bicho da rádio fica para sempre, e com o tempo a única mudança que nele se nota é a frequência com que nos acorda. Varia sem que consigamos descortinar a origem dessa frequência, ou da falta dela.

A última vez que fiz rádio com regularidade foi em 1996, no estertor dos chamados «programas de autor» nas rádios generalistas. Disseminava-se pelas ondas a «praga» das «playlists» e dos «formatos», e da concepção de rádio como um mero leitor de cd’s, e deixava de haver lugar para a expressão máxima das potencialidades do meio: palavra, som, música, um encadeado de ideias e de formas sonoras que resultam em imagens, em projectos, em «coisas que fascinam». Daí para cá, até como ouvinte me perdi no tempo. Passei a «usar» a rádio como um «serviço»: notícias, trânsito, notícias, trânsito. Pouco mais.

Por outro lado, com algumas excepções, a produção musical destes últimos anos não acordou o bicho que anda cá dentro. Parece perdida num limbo vulgar e já ouvido, e só mesmo algumas lanças em África – um Rodrigo Leão, uma Madredeus, uns Clã – acabam por quebrar a monotonia dos gira-discos. Nos «meus tempos» (desculpem lá a nostálgia precoce...), ou eu estava mais atento ou havia mesmo mais criatividade e ousadia. Não interessa nada agora...

... Interessa que, na semana passada, o bichinho adormecido do rádio, alojado algures num canto do coração, ao lado dos amores profundos e aparentemente perdidos, deu sinal de si. Primeiro a medo, como quem acorda estremunhado de uma noite mal dormida. Depois, com uma espreguiçadela, o bicho saltou do coração para a cabeça. Anda a moer-me o juízo há dias e dias. Quer saltar cá para fora como há muito não sucedia. Terá razões para isso?

Terá. E o culpado chama-se Sérgio Godinho. E o objecto do crime chama-se «Irmão do Meio». Há oito dias que não consigo deixar de ouvir permanentemente este disco, esta colecção de «bigamias», como o autor lhe chama, esta montra do melhor que um compositor pode querer da vida: a segunda vida das suas canções, a nova vida do seu talento. O disco é um projecto conhecido: 15 canções, com outros tantos convidados, escolhidas da longa carreira de Sérgio. Duetos e rearranjos, conceitos arrojados e sonoridades absolutamente novas. Canções que nos transportam até ao passado, que trazem agarradas memórias e emoções, mas cuja «renovação» e interpretação confundem os tempos, e nos deixam numa doce dependência, numa saudade ainda possível de «matar a grito».

O bicho da rádio é sensível a estas coisas. Acorda-me e ao acordar-me deixa-me de rastos: o que eu queria agora era ter um programa na rádio e poder mostrar uma, duas, muitas vezes estas canções. Deixar crescer a força avassaladora de um hino como «Que Força É Essa» e juntar-lhe um texto revolucionário, misturar «Pode Alguém Ser Quem não É» com a imagem da senhora de preto, «dor ou saudade», da tristeza de palavras que colecciono, e depois abrir fogo sobre «Isto Anda Tudo Ligado». Comparar os originais com estas novas canções – são realmente novas, e é nessa característica que o disco ganha o estatuto de genial obra plástica – e nunca, mesmo nunca, esquecer de passar, como se fosse um genérico, a «Lisboa que Amanhece» que junta Sérgio e Caetano no ponto mais alto das estrelas.

Cada canção me inspira um programa, palavras, uma conversa, uma ideia, uma mistura, uma aproximação. Cada acorde me acorda. Cada palavra me empurra para um texto. O bichinho, cá dentro, «pula e avança» sem ser «bola colorida». Nem eu, criança. Apenas um homem rendido ao talento de muitos homens centrados num só, cuja obra continua, tantos anos depois, a ter em si a chave que lhe dá sentido: sensibilidade e talento. Génio, em resumo.

A mim, no meu canto, ouvindo e voltando a ouvir o «Irmão do Meio», só me resta fazer como quando a gripe ataca. Esperar que passe. O bichinho há-de voltar a adormecer. Até lá, sofro com a angústia da pergunta que me deixa a dançar nos olhos: «pode alguém ser quem não é»?

 

Aos fins-de-semana, quando calha, memórias e reedições. Esta crónica foi, na sua versão original, publicada em 2003 no Diário de Notícias. Quis o tempo a o destino que entretanto se desactualizasse: graças ao Rui Pego, estou de novo na rádio (na Antena Um, uma das raras estações onde ainda é possível assinar programas, e onde se cultivam autorias...) e posso partilhar canções e palavras e ideias. O bichinho não morre e.. não, não pode alguém ser quem não é.

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Blog da semana

Por Falar Noutra Coisa. Humor neste reacordar do blog. Rir é o melhor remédio. Lugar comum indiscutível.

Uma boa frase

“Sucessivos governos ficaram irritados, o actual vai um pouco mais longe, esquecendo que votar é um direito mas nunca uma obrigação. Em países desenvolvidos os cidadãos até votam durante a semana, ao passo que na choldra querem proibir jogos de futebol para obrigar o povo a ir votar." António de Almeida, Aventar

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